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Netanyahu
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Benjamin Netanyahu, acusado pelo Tribunal Penal Internacional de crimes de guerra e contra a humanidade, não se limitou a desejar boa sorte a Flávio Bolsonaro. Ao declarar publicamente que espera a vitória do candidato do PL no segundo turno brasileiro, o primeiro-ministro israelense colocou o Brasil dentro de um movimento político que, em sua própria leitura, já avança pela América Latina. Citou Javier Milei, destacou a aproximação de outros governos da região com Israel e afirmou esperar que a mesma transformação aconteça em breve no Brasil.

A declaração ajuda a compreender por que o apoio de Netanyahu tem um significado muito maior do que a simpatia pessoal entre dois políticos de extrema direita. O que está em disputa é a possibilidade de o maior país da América Latina voltar a ocupar uma posição de alinhamento automático com Israel e com o campo político internacional organizado em torno de Donald Trump, depois de quatro anos em que o governo Lula retomou uma política externa marcada pelo multilateralismo e pela defesa dos direitos palestinos.

Netanyahu conhece bem a família Bolsonaro. Em dezembro de 2018, tornou-se o primeiro chefe de governo israelense a visitar o Brasil e participou da posse de Jair Bolsonaro. O próprio Ministério das Relações Exteriores de Israel registra aquele encontro como um marco nas relações bilaterais. Agora, ao falar da América Latina, o premiê voltou a mencionar aquela aproximação e chegou a sugerir que poderia retornar ao país para uma nova posse de um Bolsonaro que construiu politicamente essa ponte.

Em junho deste ano, Flávio apresentou no Senado o Projeto de Lei 3.211/2026, que, além de instituir uma data nacional de combate ao antissemitismo, estabelece como objetivo explícito o fortalecimento das relações históricas, culturais e institucionais entre Brasil e Israel. O senador também realizou agendas internacionais com governos conservadores e, em maio, encontrou-se com Donald Trump em Washington.

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O apoio israelense, portanto, não surge no vazio. Ele integra uma rede política que aproxima o bolsonarismo brasileiro da extrema direita mundial. Na entrevista em que manifestou apoio a Flávio, Netanyahu tratou explicitamente essas mudanças como parte de uma mesma “onda” regional e chamou Milei de grande amigo de Israel. E é justamente aí que aparece a dimensão mais pesada dessa aliança.

Desde novembro de 2024, Benjamin Netanyahu é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional. Segundo o TPI, existem fundamentos para responsabilizá-lo pelo crime de guerra de utilizar a fome como método de guerra, por ataques intencionais contra a população civil e pelos crimes contra a humanidade de assassinato, perseguição e outros atos desumanos praticados no contexto da guerra em Gaza.

Netanyahu permanece listado pelo tribunal como réu foragido. O apoio recebido por Flávio Bolsonaro, portanto, parte de um chefe de governo submetido a uma das mais graves acusações previstas pelo direito penal internacional. 

A situação humanitária palestina permanece dramática. Relatórios recentes do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários continuam registrando deslocamento em massa, dificuldades de acesso à água, alimentos, saúde e abrigo e restrições à atuação humanitária na Faixa de Gaza. Em junho, o secretário-geral António Guterres alertou para o sofrimento humano profundo, mortes diárias de civis e necessidades básicas que permaneciam sem atendimento.

Esse histórico deixa claro que Flávio não recebe apenas o respaldo de um líder conservador estrangeiro. Recebe o apoio público de um governante cuja condução da guerra em Gaza levou à expedição de um mandado de prisão internacional e que procura ampliar na América Latina uma rede de governos aliados à sua política externa.

A diferença em relação ao governo Lula é profunda. O Brasil tem defendido a criação de um Estado palestino, denunciado a expansão de assentamentos israelenses e classificado o deslocamento de civis, a destruição de infraestrutura e a violência nos territórios ocupados como incompatíveis com o direito internacional. Em maio, a representação brasileira na ONU afirmou que os direitos, a dignidade e as aspirações nacionais do povo palestino continuam sendo negados.

O Itamaraty também registrou que os ataques israelenses em Gaza provocaram dezenas de milhares de mortes, deslocamento forçado de quase dois milhões de habitantes e destruição de grande parte da infraestrutura civil do território. Essa posição brasileira durante o governo Lula colocou Brasília em rota de colisão com Netanyahu e aproximou novamente o país da defesa histórica de uma solução negociada para a Palestina.

Uma eventual mudança de governo significaria mais do que uma alteração de tom diplomático: significaria aproximar o Brasil de um governo cuja ofensiva em Gaza continua matando palestinos e produzindo uma grave crise humanitária. E essa aproximação também atende a interesses geopolíticos de Israel na América Latina.

A leitura de Netanyahu é que Argentina, Colômbia e outros países estariam compondo uma nova configuração política favorável a Israel na América Latina, e o Brasil poderia ocupar um lugar central nesse desenho caso Flávio Bolsonaro chegasse ao Planalto. Essa rede passa também por Donald Trump. E a aproximação desses atores ajuda a formar um campo extremista na política internacional que defende o conservadorismo social e ameaça os grupos menos favorecidos.

Ao declarar apoio a Flávio Bolsonaro, Netanyahu, com as mãos manchadas pelo sangue de Gaza, não apenas escolheu um candidato na eleição brasileira. Também deixou claro qual Brasil gostaria de encontrar depois de domingo: um país submisso ao trumpismo e disposto a fazer vistas grossas para as atrocidades cometidas contra o povo palestino.

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