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Crepaldi
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Quando Ricardo Crepaldi decidiu procurar o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) para questionar a concessão do sistema de resíduos sólidos de Bauru, sua intenção, segundo ele, era bem mais limitada do que os acontecimentos que viriam depois: impedir a abertura da licitação e obrigar a Prefeitura a corrigir pontos do edital que considerava prejudiciais à concorrência.

Pouco mais de dois meses depois, a licitação foi anulada, uma investigação do Ministério Público avançou sobre o caso, pessoas foram presas e a Câmara Municipal abriu uma Comissão Processante para apurar três possíveis infrações político-administrativas atribuídas à prefeita Suéllen Rosim (PSD).

No meio desse caminho, Crepaldi diz que recebeu ameaças, procurou um advogado e decidiu deixar a presidência do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema). A saída, porém, ainda não foi formalizada. Segundo ele, a orientação jurídica é aguardar o depoimento desta quarta-feira (28), às 10h, antes de comunicar oficialmente a renúncia.

Ele será uma das cinco testemunhas ouvidas pela Comissão Processante do Lixo. Na véspera do depoimento, Crepaldi conversou por cerca de meia hora com O Progressista sobre os fatos que antecederam sua representação ao TCE e sobre a dimensão que o episódio tomou posteriormente.

“Eu mirei no aviãozinho de papel e acertei um negócio que nunca imaginaria que fosse tão gigantesco”, resumiu.

Crepaldi é autor de uma denúncia apresentada ao Tribunal de Contas sobre a concessão e foi incluído entre as testemunhas indicadas pelo vereador Eduardo Borgo (Novo), responsável pela denúncia que deu origem à CP. A comissão apura possíveis falhas no fornecimento de informações ao Legislativo, nos mecanismos de governança e controle da contratação e na defesa dos interesses do município.

Crepaldi diz que suas desconfianças começaram antes da publicação do edital. À frente do Comdema, afirma ter enfrentado dificuldades para obter integralmente documentos relacionados à modelagem preparada para a concessão.

“Já havia muitos problemas e não tinha transparência nenhuma. Entregaram parte daquilo que a Fipe tinha feito, não entregavam o resto, falavam que não podia, por lei e tal”, disse.

O conflito ganhou outra dimensão quando a Prefeitura colocou a concessão em licitação.

A Concorrência Pública 17/2026 previa a transferência à iniciativa privada do sistema integrado de gestão dos resíduos sólidos urbanos. Os envelopes seriam entregues em 1º de setembro. O processo oficial registra uma impugnação ao edital, uma retificação da resposta apresentada a essa impugnação e, posteriormente, a anulação da concorrência pela Prefeitura em 30 de setembro.

Crepaldi aponta como um dos principais problemas uma exigência relacionada à operação de aterro sanitário. Segundo ele, a regra permitia formalmente a participação de diferentes empresas, mas produziria uma vantagem decisiva para a Estre Ambiental.

“Outras empresas podiam entrar, mas elas tinham que provar a licença de operação de um aterro para resíduos na região. E só tem um aterro, que é o da Estre. Quanto você acha que ia ser cobrado de um concorrente? Ele nunca ia ser competitivo. Ou seja, formatou um jeito que, na minha avaliação, direcionava esse projeto para a Estre Ambiental. Isso não estava certo. E não precisava obrigar isso no início.”

Foi esse tipo de questionamento que, segundo Crepaldi, o levou ao TCE. Ele insiste em separar aquele momento dos acontecimentos revelados posteriormente pelas investigações. Diz que não tinha conhecimento de eventual esquema criminoso quando decidiu contestar a concorrência. O objetivo era impedir que o edital avançasse da maneira como havia sido apresentado.

“Todo mundo na cidade acha as coisas, mas ninguém tem prova. E eu não sabia, obviamente. Minha intenção era parar o certame e acertar o edital, para ele ser positivo e adequar alguns pontos”, afirmou.

A concessão estava estimada pela Câmara em cerca de R$ 5,26 bilhões durante 30 anos. Em setembro, o Legislativo recebeu por 19 votos a 1 a denúncia apresentada por Borgo e instaurou a Comissão Processante.

Para Crepaldi, um dos pontos que devem ocupar o debate na CP é a sequência de documentos produzidos depois de seus questionamentos ao edital.

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Ele afirma ter recebido uma manifestação assinada pela Prefeitura que defendia a continuidade do certame. Dias depois, segundo seu relato, a administração reviu parte da resposta e aceitou alguns dos pontos apresentados na impugnação.

“Os documentos do processo da Prefeitura são assinados pela Prefeitura. Ela mandou continuar o certame, dizendo que não tinha problema. Depois retifica, dizendo que vai atender alguns requisitos. Para mim, isso mostra que ela sabia do que estava acontecendo”, disse.

A documentação pública da Concorrência 17/2026 confirma que houve uma retificação da resposta à impugnação, embora a interpretação sobre o alcance político desses documentos seja objeto da disputa atualmente examinada pela Câmara.

Em depoimento à CP no último dia 16, Suéllen afirmou que não havia sido alertada sobre irregularidades e disse não acompanhar pessoalmente todas as etapas técnicas da concessão. A prefeita declarou que decisões administrativas passavam por equipes e secretarias responsáveis pelo processo. Crepaldi discorda.

Na entrevista, ele voltou diversas vezes ao fato de a concessão ser uma contratação de dimensão excepcional para o município e questionou a tese de desconhecimento apresentada pela prefeita.

“É a maior licitação da Prefeitura da história. Você acha que não ia olhar mais para aquilo que está assinando? Isso seria o mínimo para a prefeita”, afirmou.

Foi fora do terreno estritamente administrativo, porém, que a atuação no caso teve as consequências mais pessoais para Crepaldi.

Ele relata ter recebido ameaças depois que passou a questionar o processo. Diz que uma delas mencionava uma feira livre na avenida Ezequiel Ramos por onde costumava passar e que, diante da situação, procurou assistência jurídica.

“Eu tive várias ameaças. Conversando, tive que colocar advogado. Como o pessoal que me ameaçou tem muito dinheiro, o negócio ficou complicado. Logo depois recebi a denúncia de que iam me pegar na feira livre da Ezequiel, que eu ia passar por lá. Então o melhor foi eu me resguardar até colocar advogado.”

Crepaldi não identificou, durante a entrevista, quem teria feito as ameaças. O Progressista não conseguiu verificar de forma independente a autoria ou as circunstâncias relatadas por ele. O desgaste também chegou ao Comdema. Crepaldi conta que enfrentou resistência dentro do próprio conselho quando começou a cobrar informações da Prefeitura sobre a concessão.

“É muita pancada. Ser voluntário e ser xingado, ser massacrado pelo próprio Comdema”, disse. “Quando eu solicitei informações sobre esse processo, o pessoal criticou porque eu estava coagindo a gestão. Era uma questão de transparência pública.”

Na conversa, Crepaldi foi além da concessão do lixo e defendeu uma revisão mais ampla das parcerias e concessões recentes envolvendo serviços públicos de Bauru. Citou iluminação pública, esgoto e a possibilidade de concessão da água.

“Todas essas PPPs últimas que foram feitas têm que ser revisadas. Lupa. A da iluminação pública, a do esgoto, agora a do lixo, que eu consegui segurar, e uma possível da água”, afirmou.

As declarações ocorrem em um momento em que a discussão sobre concessões voltou ao centro da política municipal. Nesta segunda-feira (26), a Câmara aprovou a realização de plebiscito sobre uma eventual concessão do abastecimento de água à iniciativa privada.

Crepaldi também fez afirmações mais graves durante a entrevista sobre possíveis responsabilidades de agentes públicos e privados e sobre os desdobramentos das investigações. Algumas delas deverão ser retomadas no depoimento desta quarta-feira (28).

A Comissão Processante, no entanto, não é uma investigação criminal. O colegiado apura eventual responsabilidade político-administrativa da prefeita. As apurações criminais relacionadas ao caso seguem em outras instâncias.

Crepaldi também separa as duas esferas. “Dentro da Câmara, a Comissão Processante é política. Ela não é jurídica, não é coisa de polícia”, afirmou.

Nesta quarta-feira, ele pretende refazer diante dos vereadores justamente o percurso que descreveu a O Progressista: as cobranças por documentos, os questionamentos ao edital, a ida ao Tribunal de Contas e o que aconteceu depois.

“Amanhã, basicamente, eu vou contar tudo o que eu passei, por que eu fiz e como isso tudo aconteceu”, disse. Antes de encerrar a entrevista, resumiu o que espera do processo. “É importante que isso seja passado a limpo, de verdade. E quem deve, deve pagar no rigor da lei.”

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