Este é um domingo decisivo para a sociedade brasileira. De um lado, Flávio Bolsonaro apresenta um programa econômico que prevê a retomada das privatizações e a redução da participação estatal em diferentes setores da economia. Do outro, Luiz Inácio Lula da Silva defende a continuidade das políticas sociais e o fortalecimento das instituições públicas, conforme os programas de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral.
A disputa representa muito mais do que uma eleição presidencial. Coloca em confronto diferentes concepções sobre o papel do Estado no desenvolvimento econômico, na distribuição das riquezas nacionais e na garantia dos direitos sociais.
Desde a redemocratização, o Brasil convive com uma Constituição que estabelece a redução das desigualdades e a justiça social como objetivos da ordem econômica. Ao longo desse período, principalmente nos governos petistas, políticas de transferência de renda, valorização salarial e ampliação do acesso aos serviços públicos contribuíram para a construção de uma rede de proteção social.
O Partido dos Trabalhadores ocupa uma posição central nessa trajetória, mas o avanço da extrema direita e a fragmentação das forças progressistas impõem novos desafios à continuidade desse projeto. A questão que se apresenta ultrapassa a sobrevivência eleitoral: como preservar e ampliar direitos em um ambiente político marcado pela disputa permanente sobre a atuação do Estado?
Nesse cenário, a possibilidade de uma federação mais ampla, reunindo PT, PCdoB, PV, PSOL e REDE, representa uma discussão que precisa ultrapassar as conveniências partidárias. Sua relevância estaria na construção de um programa comum, capaz de combinar a defesa da democracia com uma orientação macroeconômica comprometida com o pleno emprego, a distribuição de renda e a igualdade de oportunidades.
As duas federações foram registradas pelo Tribunal Superior Eleitoral em maio de 2022. Diferentemente das coligações, elas estabelecem compromissos de atuação conjunta por pelo menos quatro anos, preservando a identidade dos partidos participantes.
A legislação também permite somar os votos e a representação parlamentar das legendas para o cumprimento da cláusula de desempenho. Em 2026, essa exigência passou a corresponder a 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, distribuídos conforme os critérios nacionais estabelecidos, ou à eleição de pelo menos 13 deputados federais em um terço das unidades da Federação, segundo as regras apresentadas pelo TSE.
Uma composição mais ampla poderia fortalecer a representação das correntes minoritárias e ampliar sua capacidade de articulação legislativa. Entretanto, a formação de uma nova estrutura exigiria negociações institucionais e programáticas, especialmente diante das diferenças entre as tradições social-democrata, socialista, comunista e ambientalista.
A convergência, portanto, não dependeria da eliminação dessas diferenças, mas da capacidade de definição de compromissos comuns sobre o desenvolvimento nacional.
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O Estado como motor do desenvolvimento
Em 1936, o economista britânico John Maynard Keynes publicou A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, obra que questionou a capacidade dos mercados de assegurar, por seus próprios mecanismos, o pleno emprego.
Sua interpretação demonstrou que a insuficiência da demanda agregada poderia manter uma economia durante períodos prolongados de desemprego e baixa atividade produtiva. O investimento público e a política fiscal passaram, assim, a ocupar uma posição importante na discussão sobre a estabilidade econômica, como explica o Fundo Monetário Internacional em sua apresentação da teoria keynesiana.
Na tradição keynesiana, o Estado não atua exclusivamente para corrigir desigualdades depois que a riqueza é produzida. Sua intervenção também pode estimular a produção, sustentar o consumo, mobilizar investimentos privados e ampliar o emprego. Essa concepção permite compreender a política social como parte integrante da própria estratégia econômica.
Quando o poder público investe em habitação popular, por exemplo, não apenas amplia o acesso à moradia, mas também movimenta a construção civil, demanda matérias-primas, gera empregos e aumenta a renda que circula na economia. O mesmo princípio pode ser aplicado aos investimentos em infraestrutura, saúde, educação e saneamento.
No Brasil, a trajetória recente dos investimentos públicos também revela os efeitos das diferentes orientações econômicas adotadas pelos governos. A retração registrada ao longo da década de 2010, aprofundada durante os governos Temer e Bolsonaro, evidencia como as decisões sobre a participação do Estado na economia se refletem em sua capacidade de investimento.
Segundo a série histórica do Observatório de Política Fiscal da Fundação Getulio Vargas, o investimento público brasileiro representava 2,02% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021, passando a 3,05% em 2024, antes de recuar para 2,71% em 2025.
A trajetória revela uma recuperação após anos de retração, mas também demonstra a necessidade de políticas capazes de sustentar o investimento público no longo prazo. O debate ultrapassa, portanto, a simples comparação entre governos e alcança uma questão estrutural: qual papel o Estado deve assumir no financiamento do desenvolvimento econômico e social?
A importância do investimento público para o desenvolvimento econômico e social não se limita à teoria keynesiana. No Brasil, essa concepção também encontra respaldo na Constituição de 1988. O artigo 170 da Constituição Federal estabelece, entre os princípios da ordem econômica, a redução das desigualdades regionais e sociais e a busca do pleno emprego. Já o artigo 193 define o bem-estar e a justiça social como objetivos da ordem social.
A construção de um Estado de bem-estar social, portanto, não depende apenas de ampliar benefícios assistenciais, mas de organizar uma economia capaz de produzir riqueza, empregos e serviços públicos que sustentem esses direitos. A continuidade desse projeto, entretanto, está sujeita às diferentes orientações econômicas dos governos, especialmente às decisões sobre investimento público, privatizações e financiamento das políticas sociais.
A macroeconomia como instrumento de redução das desigualdades
O desafio de uma eventual convergência entre as federações está precisamente na definição de como alcançar esses objetivos.
A política macroeconômica brasileira permanece atravessada por disputas envolvendo juros, metas fiscais, endividamento público e capacidade de financiamento estatal. São decisões que influenciam diretamente o investimento produtivo, o custo do crédito e a disponibilidade de recursos para políticas públicas.
Segundo o estudo Atualizando a decomposição do pagamento de juros nominais líquido no Brasil 2002-2025, publicado pelo BNDES, o pagamento líquido de juros nominais do setor público brasileiro alcançou aproximadamente R$ 1 trilhão em 2025, equivalente a 7,9% do PIB.
Esse montante evidencia a dimensão do custo financeiro da dívida pública. Embora os juros não constituam uma despesa diretamente intercambiável com investimentos sociais, sua magnitude demonstra a importância da política monetária na administração das contas públicas e na estratégia de desenvolvimento.
Uma orientação econômica progressista teria de enfrentar essa relação, articulando estabilidade de preços, responsabilidade fiscal, financiamento produtivo e expansão dos serviços públicos.
A questão também envolve a estrutura tributária. A tributação progressiva da renda e do patrimônio pode ampliar a capacidade redistributiva do Estado, enquanto o investimento em educação, infraestrutura e inovação contribui para elevar a produtividade e ampliar oportunidades econômicas.
O resultado esperado de uma combinação dessas políticas seria uma economia na qual a melhoria das condições de vida não dependesse exclusivamente das transferências de renda, mas também de empregos de qualidade, salários maiores e acesso universal aos serviços essenciais. Os indicadores brasileiros demonstram tanto a importância da redistribuição quanto a persistência do desafio.
Segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo IBGE, o índice de Gini do rendimento domiciliar per capita passou de 0,543 em 2019 para 0,504 em 2024, indicando redução da desigualdade.
O levantamento também revela a importância das políticas de transferência de renda nesse processo. Segundo o IBGE, sem os benefícios dos programas sociais, o índice de Gini teria alcançado 0,542 em 2024, em vez dos 0,504 efetivamente registrados. A diferença evidencia o papel redistributivo dessas políticas e demonstra como a atuação estatal interfere diretamente na distribuição da renda nacional.
A trajetória revela que os avanços distributivos não são necessariamente lineares ou permanentes. A redução das desigualdades depende de condições econômicas, políticas de renda, oportunidades de trabalho e mecanismos de proteção social capazes de resistir às oscilações da atividade econômica.
É nesse ponto que o debate sobre o progressismo econômico ganha dimensão estrutural: não basta reduzir a pobreza em determinados períodos; é necessário transformar as condições que reproduzem a desigualdade entre gerações.
Uma criança que depende da qualidade da escola pública, uma família sem acesso a saneamento e um trabalhador submetido à informalidade não partem das mesmas condições daqueles que dispõem de patrimônio, educação privada e estabilidade financeira.
A igualdade de oportunidades, nesse sentido, exige políticas universais acompanhadas de mecanismos redistributivos capazes de enfrentar desigualdades sociais, raciais e territoriais historicamente estabelecidas.
Uma federação para além das eleições
A construção de uma federação ampliada poderia abrir espaço para um programa econômico e social de longo prazo, com compromissos capazes de orientar a atuação parlamentar, a formulação de políticas públicas e a relação dos partidos com os movimentos sociais.
As diferenças entre as cinco legendas, contudo, não são meramente eleitorais. Existem distintas interpretações sobre o capitalismo, a organização econômica, a atuação estatal e as formas de transformação social.
Uma articulação permanente precisaria estabelecer pontos de convergência sem exigir que essas tradições abandonassem suas identidades.
O desafio seria transformar princípios compartilhados, como a defesa dos direitos trabalhistas, da proteção social, da sustentabilidade ambiental e da justiça tributária, em compromissos econômicos concretos.
Isso também exigiria discutir os limites da política fiscal, os instrumentos de financiamento do desenvolvimento, o fortalecimento das instituições públicas e a participação da sociedade na definição das prioridades nacionais.
A eventual ampliação da Federação Brasil da Esperança não resolveria automaticamente a correlação de forças no Congresso Nacional, tampouco eliminaria as divergências internas da esquerda. Poderia, entretanto, estabelecer um espaço institucional de articulação mais duradouro entre partidos que já compartilham parte significativa de sua atuação política.
Independentemente do resultado das eleições deste domingo, a discussão sobre o futuro da esquerda brasileira permanecerá aberta. A experiência histórica demonstra que conquistas sociais dependem não apenas de governos comprometidos com sua implementação, mas também de instituições, financiamento e sustentação política capazes de assegurar sua continuidade.
Nesse contexto, a proposta de uma federação mais ampla recoloca uma questão fundamental para o país: como transformar a defesa constitucional da justiça social em um projeto econômico permanente, capaz de ampliar a prosperidade coletiva e reduzir as desigualdades estruturais?
A resposta exigirá mais do que unidade eleitoral. Dependerá da capacidade de os partidos de esquerda se unirem para construir uma agenda econômica compartilhada, na qual o crescimento, a distribuição de renda e a garantia dos direitos sociais sejam tratados como dimensões de um mesmo projeto nacional.










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