Embora não seja de conhecimento geral, o Brasil já foi palco de um golpe de Estado. Com o apoio dos Estados Unidos, militares brasileiros tomaram o poder à força. O regime instaurado foi marcado pelo autoritarismo, pela violência, pela institucionalização da tortura, pela insegurança, pelo exílio, pela repressão e pela censura.
A medida drástica visava combater o movimento comunista no Brasil. Mas esse era realmente um perigo iminente ou estávamos diante do famoso “fantasma comunista”?
Em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, o então vice-presidente João Goulart, conhecido como Jango, assumiu a Presidência da República. Na época, circulavam acusações contra o mesmo, opositores e civis temiam suas ideias radicais de esquerda, embora essas acusações não tivessem fundamento concreto. A questão não estava em evidência apenas em terras brasileiras: a década de 1960 foi marcada pela disputa ideológica entre o socialismo e o capitalismo, protagonizada pela Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados Unidos. Aliados norte-americanos, como o Brasil, costumavam ser pressionados a repudiar ideias semelhantes às defendidas pelo governo soviético.
O ponto de partida para o temor norte-americano foi a Revolução Cubana de 1959. O governo dos Estados Unidos passou a temer a possibilidade de que outros países latino-americanos adotassem governos semelhantes ao cubano, afastando-se, assim, de sua influência. O Brasil era especialmente visado por três motivos principais:
- Extensão territorial e localização estratégica;
- Recursos naturais e mercado em crescimento;
- Influência regional potencialmente contrária aos interesses norte-americanos.
O financiamento e o apoio dos Estados Unidos não se resumiram a uma entrega transparente de recursos ao Brasil. Pelo contrário, o governo estadunidense buscava manter discrição. O apoio envolveu pequenos empréstimos, ajuda econômica, relações com empresários e políticos, pressão diplomática e um plano de apoio militar. Documentos norte-americanos confirmam essa participação.
Após essa contextualização, chegamos à questão central desta matéria: quais são as semelhanças entre a tomada do poder pelos militares em 1964, a tentativa de golpe associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a seus apoiadores em 2022 e a campanha política de seu filho em 2026?
1. A construção de um inimigo
Assim como 1964, em que os adversários de Goulart apresentavam suas reformas sociais como sinais de uma provável revolução comunista, parte da mobilização bolsonarista tratou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva como uma ameaça à nação e aos valores conservadores. Questionamentos infundados sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas alimentaram a desconfiança e a revolta eleitoral entre seus apoiadores.
A semelhança está em transformar uma disputa eleitoral em uma luta contra um suposto inimigo que não poderia governar.
2. A deslegitimação das instituições
Em 1964, os golpistas argumentavam que o governo de Jango ameaçava a ordem constitucional. A ruptura foi apresentada como uma medida necessária para restaurar a ordem, embora tenha destruído a democracia e instaurado uma ditadura.
Já em 2022, Bolsonaro, seus eleitores e aliados direcionaram ataques recorrentes à credibilidade do sistema eleitoral e entraram em conflito com instituições como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF).
A semelhança mais relevante está no desgaste da confiança nas instituições, com o objetivo de justificar uma solução fora das regras constitucionais.
3. O apoio de setores civis e a mobilização popular
1964 — Apoio popular ao golpe
A intervenção não foi obra exclusiva dos militares. Empresários, políticos, conservadores, líderes religiosos e organizações populares participaram ativamente da oposição a Jango. Essas ações contribuíram para a criação de um ambiente hostil ao governo e favorável à intervenção militar.
2022–2023 — Mobilização de apoiadores
Após a vitória de Lula, apoiadores de Bolsonaro instalaram-se em frente a quartéis, pedindo intervenção militar. Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram e vandalizaram as sedes do Congresso Nacional, do STF e da Presidência da República. Os ataques representaram uma expressão violenta de inconformismo com a derrota nas urnas.

Confira mais imagens do que foi feito em 8 de janeiro: camara.leg.br/noticias/1030327-memoria-8-de-janeiro-fotos-ineditas-mostram-danos-provocados-na-camara-e-no-senado-pelos-invasores/
Em ambos os contextos, a mobilização de setores da sociedade contribuiu para os rumos dos movimentos políticos e para o desenvolvimento dos acontecimentos.
4. A participação dos militares: instrumentos de ruptura
1964 — A tomada do poder
Parte das Forças Armadas organizou e executou diretamente a derrubada de Jango. Após isso, os militares assumiram o governo, instauraram a ditadura, restringiram direitos e cassaram mandatos. O regime perdurou até 1985.
2022–2023 — Os pedidos de intervenção militar
Apoiadores do ex-presidente pediram intervenção militar para impedir a posse do presidente eleito, Lula. Segundo a acusação, acolhida no julgamento do núcleo principal da trama golpista, também houve tentativas de obter apoio de comandantes militares para um plano de ruptura institucional.
5. A propaganda política e a construção de justificativas para a ruptura
1964 — A ameaça comunista
A propaganda anticomunista apresentava as reformas de Jango como uma ameaça. Organizações empresariais, setores da imprensa e grupos conservadores contribuíram para a mobilização antidemocrática.
2022 — A suspeita sobre as urnas
Alegações de fraude eleitoral e mensagens que colocavam em dúvida a legitimidade da vitória de Lula foram disseminadas entre apoiadores de Bolsonaro.
Qual é a conexão entre o golpe de 1964, a trajetória política de Jair Bolsonaro e a campanha do atual candidato Flávio Bolsonaro em 2026?
A postura de Flávio Bolsonaro diante da disputa eleitoral tem se mostrado alarmante e reproduz ideias associadas ao discurso de seu pai, Jair Bolsonaro.
Uma das questões que merecem atenção é a intenção de Flávio de alterar a Constituição.
Essas declarações tornam mais evidente a semelhança entre os discursos políticos atuais e aqueles observados em 1964 e 2022. A sequência se repete: define-se um inimigo, associa-se esse inimigo ao governo adversário por meio de referências a ditaduras, ao socialismo ou ao comunismo e, em seguida, mobilizam-se os apoiadores pelo medo e pela ideia de que estão defendendo o país e seus ideais. Essa estratégia aparece com frequência nos discursos de Flávio, que também podem ser analisados a partir dos símbolos e slogans políticos utilizados em sua campanha.
As semelhanças entre Bolsonaro e o fascismo também podem ser discutidas a partir do slogan “Deus, Pátria e Família”.
Na década de 1930, durante a crescente ascensão do nazifascismo europeu, referências a Deus, à pátria e à família foram mobilizadas politicamente. Em 2018, já era possível observar esse lema em frases e slogans da campanha do então candidato Jair Bolsonaro.
Também durante o segundo turno das eleições presidenciais, Flávio divulgou em sua comunidade de apoiadores no WhatsApp uma imagem com seu rosto, novamente fazendo referência a propagandas do fascismo italiano.
Em 2026, Flávio segue os passos do pai ao se apropriar da frase e acrescentar um novo pilar: a liberdade. A nova estrutura busca dar visibilidade ao que Flávio e seus apoiadores consideram injustiça e perseguição, a prisão de seu pai, Jair Bolsonaro, no contexto dos processos relacionados à tentativa de golpe de 2022, que mobilizou seus eleitores.

Ao longo desta matéria, revisitamos pontos cruciais para o cidadão brasileiro. Além de contribuir para a formação da consciência política e histórica, a análise torna mais palpáveis os perigos do bolsonarismo, transformando um alarme sutil em um alerta cada vez mais evidente. Governos e movimentos políticos anteriores já utilizaram estratégias semelhantes para alcançar o poder. O que veio a seguir foi impiedoso e cruel. A ditadura militar de 1964 é uma prova de que não precisamos ir longe na história para compreender os perigos do fascismo.
É necessário lembrar para que não se repita.
Fontes utilizadas para a pesquisa:
File:Artistas protestam contra a Ditadura Militar – Tônia Carreiro, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker – Restoration.jpg – Wikimedia Commons / https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2022/noticia/2022/09/29/redes-bolsonaristas-disseminam-falsas-informaes-e-denncias-infundadas-sobre-fraudes-em-urnas.ghtml / https://apublica.org/2022/09/a-estrategia-discursiva-dos-cartazes-que-pediram-golpe-no-7-de-setembro/ / https://labeurb.unicamp.br/rua/artigo/ler_artigo/235-1-deus-patria-familia-os-sentidos-dofascismo-brasileiro/ https://archivimuseodellaguerra.archiui.com/oggetti/57922-dio-patria-famiglia-manualetto-religioso-per-gli-ufficiali-delle-forze-armate-opera-della-regalita-di-n-s-g-c-milano-milano-a-l-m-a-1942 / portalmarcossantos.com.br/2026/10/10/arte-de-flavio-bolsonaro-com-referencia-a-benito-mussolini-e-divulgada-em-canal-do-pl-no-whatsapp/ https://www.folhadelondrina.com.br/geral/manifestacoes-pro-bolsonaro-pedem-intervencao-na-paulista-2994722e.html










Que tópico extremamente necessário e relevante no atual momento em que vivemos.
Conhecimento enriquecedor.
O conhecimento é a base de uma sociedade consciente, e a história é uma das maiores ferramentas para compreender o presente. Que reflexão necessária! Orgulho de ver você contribuindo para o pensamento crítico e o conhecimento. ❤️
Juntos pela democracia, é uma matéria muito interessante para nossa consciência política .