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Foto: Carlos Ceneviva
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Embora não seja de conhecimento geral, o Brasil já foi palco de um golpe de Estado. Com o apoio dos Estados Unidos, militares brasileiros tomaram o poder à força. O regime instaurado foi marcado pelo autoritarismo, pela violência, pela institucionalização da tortura, pela insegurança, pelo exílio, pela repressão e pela censura.

A medida drástica visava combater o movimento comunista no Brasil. Mas esse era realmente um perigo iminente ou estávamos diante do famoso “fantasma comunista”?

Em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, o então vice-presidente João Goulart, conhecido como Jango, assumiu a Presidência da República. Na época, circulavam acusações contra o mesmo, opositores e civis temiam suas ideias radicais de esquerda, embora essas acusações não tivessem fundamento concreto. A questão não estava em evidência apenas em terras brasileiras: a década de 1960 foi marcada pela disputa ideológica entre o socialismo e o capitalismo, protagonizada pela Guerra Fria entre a União Soviética e os Estados Unidos. Aliados norte-americanos, como o Brasil, costumavam ser pressionados a repudiar ideias semelhantes às defendidas pelo governo soviético.

O ponto de partida para o temor norte-americano foi a Revolução Cubana de 1959. O governo dos Estados Unidos passou a temer a possibilidade de que outros países latino-americanos adotassem governos semelhantes ao cubano, afastando-se, assim, de sua influência. O Brasil era especialmente visado por três motivos principais:

  • Extensão territorial e localização estratégica;
  • Recursos naturais e mercado em crescimento;
  • Influência regional potencialmente contrária aos interesses norte-americanos.

O financiamento e o apoio dos Estados Unidos não se resumiram a uma entrega transparente de recursos ao Brasil. Pelo contrário, o governo estadunidense buscava manter discrição. O apoio envolveu pequenos empréstimos, ajuda econômica, relações com empresários e políticos, pressão diplomática e um plano de apoio militar. Documentos norte-americanos confirmam essa participação.

Após essa contextualização, chegamos à questão central desta matéria: quais são as semelhanças entre a tomada do poder pelos militares em 1964, a tentativa de golpe associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a seus apoiadores em 2022 e a campanha política de seu filho em 2026?

1. A construção de um inimigo

Assim como 1964, em que os adversários de Goulart apresentavam suas reformas sociais como sinais de uma provável revolução comunista, parte da mobilização bolsonarista tratou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva como uma ameaça à nação e aos valores conservadores. Questionamentos infundados sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas alimentaram a desconfiança e a revolta eleitoral entre seus apoiadores.

A semelhança está em transformar uma disputa eleitoral em uma luta contra um suposto inimigo que não poderia governar.

2. A deslegitimação das instituições

Em 1964, os golpistas argumentavam que o governo de Jango ameaçava a ordem constitucional. A ruptura foi apresentada como uma medida necessária para restaurar a ordem, embora tenha destruído a democracia e instaurado uma ditadura.

Já em 2022, Bolsonaro, seus eleitores e aliados direcionaram ataques recorrentes à credibilidade do sistema eleitoral e entraram em conflito com instituições como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

A semelhança mais relevante está no desgaste da confiança nas instituições, com o objetivo de justificar uma solução fora das regras constitucionais.

3. O apoio de setores civis e a mobilização popular

1964 — Apoio popular ao golpe

A intervenção não foi obra exclusiva dos militares. Empresários, políticos, conservadores, líderes religiosos e organizações populares participaram ativamente da oposição a Jango. Essas ações contribuíram para a criação de um ambiente hostil ao governo e favorável à intervenção militar.

2022–2023 — Mobilização de apoiadores

Após a vitória de Lula, apoiadores de Bolsonaro instalaram-se em frente a quartéis, pedindo intervenção militar. Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram e vandalizaram as sedes do Congresso Nacional, do STF e da Presidência da República. Os ataques representaram uma expressão violenta de inconformismo com a derrota nas urnas.

Apagamento Histórico
Foto: Clauder Diniz/Câmara dos Deputados

Confira mais imagens do que foi feito em 8 de janeiro: camara.leg.br/noticias/1030327-memoria-8-de-janeiro-fotos-ineditas-mostram-danos-provocados-na-camara-e-no-senado-pelos-invasores/ 

Em ambos os contextos, a mobilização de setores da sociedade contribuiu para os rumos dos movimentos políticos e para o desenvolvimento dos acontecimentos.

4. A participação dos militares: instrumentos de ruptura

1964 — A tomada do poder

Parte das Forças Armadas organizou e executou diretamente a derrubada de Jango. Após isso, os militares assumiram o governo, instauraram a ditadura, restringiram direitos e cassaram mandatos. O regime perdurou até 1985.

2022–2023 — Os pedidos de intervenção militar

Apoiadores do ex-presidente pediram intervenção militar para impedir a posse do presidente eleito, Lula. Segundo a acusação, acolhida no julgamento do núcleo principal da trama golpista, também houve tentativas de obter apoio de comandantes militares para um plano de ruptura institucional.

5. A propaganda política e a construção de justificativas para a ruptura

1964 — A ameaça comunista

A propaganda anticomunista apresentava as reformas de Jango como uma ameaça. Organizações empresariais, setores da imprensa e grupos conservadores contribuíram para a mobilização antidemocrática.

2022 — A suspeita sobre as urnas

Alegações de fraude eleitoral e mensagens que colocavam em dúvida a legitimidade da vitória de Lula foram disseminadas entre apoiadores de Bolsonaro.

Qual é a conexão entre o golpe de 1964, a trajetória política de Jair Bolsonaro e a campanha do atual candidato Flávio Bolsonaro em 2026?

A postura de Flávio Bolsonaro diante da disputa eleitoral tem se mostrado alarmante e reproduz ideias associadas ao discurso de seu pai, Jair Bolsonaro.

Uma das questões que merecem atenção é a intenção de Flávio de alterar a Constituição.

Em Goiânia, 6 de outubro, o candidato participou de um ato de campanha, no início do segundo turno das eleições. Durante o evento, Flávio ressaltou a maior quantidade de aliados da direita no Senado e afirmou: “[…] para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar esse país […]”.

Mais adiante, Bolsonaro também declarou: “eu sou o empecilho, hoje, para o Brasil não virar uma Venezuela. Para o Brasil não cair nos braços e nas mãos de grupos terroristas como o Hamas e Hezbollah […]”, pontuou Flávio.

Essas declarações tornam mais evidente a semelhança entre os discursos políticos atuais e aqueles observados em 1964 e 2022. A sequência se repete: define-se um inimigo, associa-se esse inimigo ao governo adversário por meio de referências a ditaduras, ao socialismo ou ao comunismo e, em seguida, mobilizam-se os apoiadores pelo medo e pela ideia de que estão defendendo o país e seus ideais. Essa estratégia aparece com frequência nos discursos de Flávio, que também podem ser analisados a partir dos símbolos e slogans políticos utilizados em sua campanha.

As semelhanças entre Bolsonaro e o fascismo também podem ser discutidas a partir do slogan “Deus, Pátria e Família”.

Na década de 1930, durante a crescente ascensão do nazifascismo europeu, referências a Deus, à pátria e à família foram mobilizadas politicamente. Em 2018, já era possível observar esse lema em frases e slogans da campanha do então candidato Jair Bolsonaro.

Também durante o segundo turno das eleições presidenciais, Flávio divulgou em sua comunidade de apoiadores no WhatsApp uma imagem com seu rosto, novamente fazendo referência a propagandas do fascismo italiano.

Em 2026, Flávio segue os passos do pai ao se apropriar da frase e acrescentar um novo pilar: a liberdade. A nova estrutura busca dar visibilidade ao que Flávio e seus apoiadores consideram injustiça e perseguição, a prisão de seu pai, Jair Bolsonaro, no contexto dos processos relacionados à tentativa de golpe de 2022, que mobilizou seus eleitores.

Foto tirada por Raynara Melo em Agudos, SP. Onde diversos carros estão utilizando este adesivo com arte feita por IA. 

Ao longo desta matéria, revisitamos pontos cruciais para o cidadão brasileiro. Além de contribuir para a formação da consciência política e histórica, a análise torna mais palpáveis os perigos do bolsonarismo, transformando um alarme sutil em um alerta cada vez mais evidente. Governos e movimentos políticos anteriores já utilizaram estratégias semelhantes para alcançar o poder. O que veio a seguir foi impiedoso e cruel. A ditadura militar de 1964 é uma prova de que não precisamos ir longe na história para compreender os perigos do fascismo.

É necessário lembrar para que não se repita.


Fontes utilizadas para a pesquisa:

File:Artistas protestam contra a Ditadura Militar – Tônia Carreiro, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker – Restoration.jpg – Wikimedia Commons / https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2022/noticia/2022/09/29/redes-bolsonaristas-disseminam-falsas-informaes-e-denncias-infundadas-sobre-fraudes-em-urnas.ghtml / https://apublica.org/2022/09/a-estrategia-discursiva-dos-cartazes-que-pediram-golpe-no-7-de-setembro/ / https://labeurb.unicamp.br/rua/artigo/ler_artigo/235-1-deus-patria-familia-os-sentidos-dofascismo-brasileiro/ https://archivimuseodellaguerra.archiui.com/oggetti/57922-dio-patria-famiglia-manualetto-religioso-per-gli-ufficiali-delle-forze-armate-opera-della-regalita-di-n-s-g-c-milano-milano-a-l-m-a-1942 / portalmarcossantos.com.br/2026/10/10/arte-de-flavio-bolsonaro-com-referencia-a-benito-mussolini-e-divulgada-em-canal-do-pl-no-whatsapp/ https://www.folhadelondrina.com.br/geral/manifestacoes-pro-bolsonaro-pedem-intervencao-na-paulista-2994722e.html

Comentários

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  1. Bianca Remoardo disse:

    Que tópico extremamente necessário e relevante no atual momento em que vivemos.
    Conhecimento enriquecedor.

  2. Ana Paula lucia da silva Tiburtino disse:

    O conhecimento é a base de uma sociedade consciente, e a história é uma das maiores ferramentas para compreender o presente. Que reflexão necessária! Orgulho de ver você contribuindo para o pensamento crítico e o conhecimento. ❤️

  3. Danielle disse:

    Juntos pela democracia, é uma matéria muito interessante para nossa consciência política .

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