Uma mulher de 52 anos estava sentada no banco traseiro de um carro, ao lado da neta, quando foi atingida por um disparo de arma de fogo durante uma carreata de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Bauru, no interior de São Paulo. O episódio ocorreu na tarde de sábado (24), na Avenida Nações Unidas, e acrescentou mais uma imagem perturbadora à história recente da violência política brasileira: uma família reunida para participar de uma manifestação democrática, interrompida por um tiro.
A vítima foi atingida no braço e encaminhada ao Hospital da Unimed, onde recebeu atendimento para a retirada do projétil. Segundo a FMC Comunica, testemunhas suspeitam que o disparo tenha partido de um veículo ou motocicleta e esteja relacionado à intolerância política. A autoria e a motivação, entretanto, ainda dependem de esclarecimento policial.
O caso aconteceu em meio à reta final de uma eleição presidencial marcada pela radicalização do confronto político. Mas o que ocorreu em Bauru não pode ser compreendido apenas como um episódio isolado. A violência contra adversários políticos tornou-se um problema persistente no Brasil, alimentado por discursos que ultrapassam a divergência democrática e apresentam o outro como alguém a ser eliminado da vida pública.
A trajetória do bolsonarismo oferece exemplos concretos dessa linguagem. Em setembro de 2018, durante um ato de campanha no Acre, Jair Bolsonaro simulou um fuzilamento com o tripé de uma câmera e declarou: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. A frase levou a Procuradoria-Geral da República a pedir esclarecimentos ao então candidato sobre possíveis crimes de ameaça e incitação à violência.
O discurso ajuda a compreender a dimensão política do problema: quando a eliminação simbólica de adversários se transforma em espetáculo eleitoral, a agressividade passa a ocupar um espaço que deveria pertencer ao debate democrático. A expressão mais grave dessa lógica aparece quando a violência deixa de ser apenas verbal e passa a interferir na liberdade de participação política.
Um caso de violência política a cada nove horas
Os números mostram que o problema está longe de se limitar a Bauru. Um levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global identificou 134 episódios de violência política durante os 50 dias de campanha do primeiro turno de 2026, o equivalente a uma ocorrência a cada nove horas.
O resultado representa um aumento em relação aos 121 casos registrados no período correspondente de 2022. Mais da metade dos episódios de 2026, precisamente 71, aconteceu nas ruas, durante atividades de campanha ou eventos públicos.
A pesquisa contabilizou 64 ameaças, 33 ofensas, 19 agressões físicas, 11 atentados, cinco episódios de criminalização e dois assassinatos. As mulheres apareceram como vítimas em 70 ocorrências, correspondentes a 52,2% do total.
O dado mais alarmante é que nenhum dos 134 episódios havia resultado em punição efetiva até o encerramento da coleta de dados. Em 26 casos, os autores identificados eram agentes públicos, entre parlamentares, governantes e integrantes das forças de segurança.
Os números foram levantados até 4 de outubro e, portanto, não incluem o disparo registrado em Bauru no último sábado. Ainda assim, oferecem um retrato do ambiente político em que a agressão ocorreu.
A escalada também aparece na comparação com o período fora da campanha. Entre outubro de 2024 e agosto de 2026, a pesquisa identificou uma ocorrência de violência política a cada 44 horas. Durante o primeiro turno, esse intervalo caiu para nove horas.
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Quando a bala tenta substituir o voto
A violência política possui uma consequência que ultrapassa as vítimas diretamente atingidas: sua capacidade de intimidar outras pessoas e afastá-las dos espaços de participação democrática.
Em Bauru, a mulher baleada estava acompanhada da filha, do genro e da neta. Uma participante que seguia alguns carros à frente relatou à FMC Comunica que também transportava crianças e poderia ter sido atingida.
O medo produzido por uma agressão dessa natureza não termina após a manifestação. Ele permanece como uma ameaça àqueles que pretendem voltar às ruas, levantar uma bandeira ou demonstrar publicamente suas preferências políticas.
É nesse ponto que a cultura de hostilidade contra adversários encontra sua dimensão mais perigosa. O discurso que transforma petistas, comunistas e militantes de esquerda em inimigos a serem combatidos abre espaço para a naturalização da intimidação.
A crítica ao bolsonarismo, nesse contexto, não depende da identificação antecipada do autor do disparo em Bauru. Ela se dirige a uma prática política documentada, na qual ameaças e referências à violência contra opositores foram incorporadas à retórica de uma liderança nacional.
A democracia não exige concordância entre adversários. Exige que possam discordar sem recorrer à violência. Quando o exercício de um direito constitucional passa a representar um risco à integridade física, a disputa eleitoral deixa de acontecer exclusivamente no terreno das ideias. E quando o medo ocupa o lugar da liberdade, é a própria democracia que sai ferida.










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