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CNN Brasil
Foto: Lula Marques/Agência Brasil.
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Faltando apenas oito dias para o segundo turno da eleição presidencial, a CNN Brasil decidiu entrar no jogo e fazer um jornalismo sujo, parcial e cheio de contradições. Na noite de sábado (17), exibiu uma entrevista com Roberta Luchsinger, que disparou acusações sem apresentar provas de irregularidades em reuniões e negociações que supostamente envolviam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu filho.

Durante a entrevista, Luchsinger chegou a afirmar que o filho do presidente participava de conversas sobre a regulamentação do canabidiol. Entretanto, quando questionada se havia presenciado Lulinha discutindo o tema com algum ministro, respondeu que não sabia informar, inclusive, foi categórica ao afirmar que nunca havia presenciado nenhum tipo de negociação semelhante.

A contradição era relevante. A empresária não negou a possibilidade de encontros com ministros, mas também não conseguiu demonstrar a participação de Lulinha na discussão específica que havia sugerido. O mesmo ocorreu quando a conversa chegou à Mota-Engil, construtora portuguesa com contratos no Brasil. Luchsinger mencionou uma relação de amizade entre Lulinha e Amauri Rodrigues Pinha, dirigente da companhia, e insinuou possíveis favorecimentos na obtenção de negócios públicos.

Quando questionada se possuía informações ou suspeitas de irregularidades em contratos de aproximadamente R$ 2 bilhões, entretanto, ela respondeu que não participava das negociações e não possuía informações privilegiadas. A origem de suas suspeitas ficou evidente quando declarou: “O que eu estou dizendo é o que a mídia está dizendo”.

Débora Bergamasco, entrevistadora da CNN, insistiu em saber se a empresária havia presenciado conversas sobre negócios entre os dois. Luchsinger reconheceu que não, porque os encontros eram reservados e ela não participava das discussões.

Apesar de todas essas contradições, às 20h46, antes mesmo de disponibilizar a transcrição integral da entrevista, a CNN publicou uma reportagem de maneira irresponsável, afirmando que a empresária havia declarado que Lulinha ajudou a construtora a firmar contratos com o governo federal. O texto não demonstrou qual negócio teria recebido interferência do filho do presidente, qual autoridade teria sido pressionada ou que vantagem irregular teria sido concedida.

O PROGRESSISTA

Uma entrevista.
Oito manchetes.

A sequência de publicações da CNN Brasil em 17 de outubro de 2026 e os horários em que a resposta de Lula e a transcrição integral apareceram.

8notícias em
51 minutos
19h59
Reuniões de Lulinha com ministrosPrimeira matéria, antes do início previsto da transmissão.
20h05
Promessa de delação premiadaDeclaração sobre uma possível colaboração com a Justiça.
20h15
Reação às críticas de LulaEntrevistada rebate declarações do presidente.
20h27
Pedidos de agenda com LulaDeclarações sobre contatos de ministros.
20h30
Cobrança dirigida ao presidentePerguntas sobre o trabalho de Lulinha.
20h40
Pagamentos ao ex-chefe de gabineteDeclarações sobre pagamentos e favores.
20h46
Relação com construtora portuguesaReportagem sobre Mota-Engil / ECB.
20h50
Críticas ao presidenteÚltima das oito publicações da sequência.
22h07
Resposta do presidente LulaMatéria específica com manifestação da Presidência.
03h00
Transcrição integral publicadaDomingo, 18 de outubro. A entrevista havia sido exibida no sábado.

Fontes: Arquivo da CNN · Resposta de Lula · Transcrição integral.

A promessa de uma delação premiada seguiu caminho semelhante. Luchsinger declarou que pretendia colaborar com a Justiça e não pouparia o presidente nem seu filho, mas não apresentou acordo formalizado nem descreveu um crime específico praticado por Lula. Quando questionada sobre o conteúdo de uma eventual colaboração, reconheceu que caberia às autoridades avaliar quais informações seriam relevantes.

Diante de tamanha irresponsabilidade jornalística, O Progressista decidiu abrir uma investigação para entender os elos que ligam o veículo jornalístico ao bolsonarismo e encontrou evidências de que a entrevista às vésperas de eleição tenha sido orquestrada para influenciar o voto dos indecisos.

As ligações entre CNN e Bolsonaro

Em dezembro de 2018, pouco depois da eleição de Jair Bolsonaro, Rubens Menin concedeu uma entrevista ao Correio Braziliense na qual elogiou a participação dos filhos do presidente na política. Segundo declarações recuperadas pela Agência Pública, o empresário afirmou que os filhos de Bolsonaro apresentavam comportamento “100% ético” e demonstravam capacidade para exercer suas funções.

Menin também defendeu as nomeações de militares para o governo e fez elogios à equipe econômica montada em torno de Paulo Guedes. Na avaliação do empresário, tratava-se de um grupo altamente qualificado para conduzir a economia nacional.

Naquele momento, Menin já articulava a criação da CNN Brasil. O projeto seria oficialmente anunciado em janeiro de 2019, por meio da Novus Mídia, empresa formada para operar a marca internacional no país.

Em 18 de janeiro, quatro dias depois do anúncio, Jair Bolsonaro recebeu Rubens Menin e Douglas Tavolaro no Palácio do Planalto. Eduardo Bolsonaro também participou do encontro, segundo a investigação da Pública.

A visita teve um significado político particular. Bolsonaro havia assumido a Presidência havia menos de três semanas e mantinha uma relação conflituosa com parte da imprensa tradicional. A criação de um novo canal de notícias, comandado por empresários com trânsito entre integrantes do governo, acontecia em meio a essa disputa.

Douglas Tavolaro, que participava da fundação da CNN Brasil, chegava da Record, onde havia ocupado a vice-presidência de jornalismo. Biógrafo de Edir Macedo e próximo ao fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Tavolaro havia conduzido entrevistas com Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.

Uma delas foi transmitida pela Record no mesmo horário em que outros candidatos participavam de um debate na TV Globo. O episódio deu espaço televisivo ao então candidato, que não compareceu ao confronto com seus adversários.

O projeto da CNN, portanto, surgiu da associação entre um empresário com interesses econômicos diretamente relacionados às decisões do governo federal e um executivo de comunicação com relações estabelecidas no universo político e religioso que apoiou a ascensão de Bolsonaro.

Quando a emissora finalmente estreou, em março de 2020, recebeu as boas-vindas do então vice-presidente Hamilton Mourão. No evento de lançamento, em São Paulo, o general afirmou que transmitia uma saudação em nome de Jair Bolsonaro.

O PROGRESSISTA

A manchete e o que foi dito.

Três situações em que as perguntas dos próprios jornalistas delimitaram o alcance das acusações divulgadas.

01

Reuniões com ministros

A CNN destacou

Lulinha teria se reunido “inúmeras vezes” com ministros.

O depoimento revela

“Na minha presença, não.”

Resposta de Luchsinger quando perguntada se vira Lulinha discutir canabidiol com um ministro. Não é uma negativa de todos os encontros.

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02

Contratos da Mota-Engil / ECB

A CNN destacou

A reportagem atribuiu à empresária a afirmação de que Lulinha ajudara a construtora a obter contratos.

O depoimento revela

“Eu não tenho que suspeitar de nada porque eu não sou investigadora.”

Luchsinger também disse não possuir informação privilegiada sobre os contratos e não ter acompanhado as conversas reservadas.

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03

Promessa de delação

A CNN destacou

A CNN noticiou que a empresária queria delatar e não pouparia Lula nem Lulinha.

O depoimento revela

“E numa delação, quem define o que é colaborativo ou não, também não sou eu. É a polícia.”

Ela declarou intenção de colaborar; na entrevista, não apresentou acordo formalizado nem prova de crime de Lula.

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Uma acusação publicada não equivale a uma irregularidade comprovada.

Fonte dos excertos: Transcrição integral da CNN, 18/10/2026.

A relação entre os controladores da CNN e o governo voltou a aparecer publicamente em novembro daquele ano. Bolsonaro visitou a redação da emissora, na avenida Paulista, acompanhado do ministro das Comunicações, Fábio Faria, e do secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten.

A própria CNN registrou que o presidente foi recebido por Tavolaro e pelos principais executivos da redação. Segundo o relato publicado pelo canal, Bolsonaro conversou com integrantes do conselho editorial sobre assuntos políticos, econômicos e sociais. Ao deixar a empresa, o presidente elogiou as instalações e afirmou ter se sentido bem recebido.

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Os interesses empresariais de Menin

O histórico de Rubens Menin em Brasília começou muito antes da eleição de Jair Bolsonaro. Fundador da MRV, o empresário construiu parte relevante de sua fortuna em um setor profundamente ligado a políticas públicas de financiamento habitacional, crédito e infraestrutura. Sua empresa tornou-se uma das maiores participantes do Minha Casa Minha Vida, programa criado durante os governos petistas.

Em 2019, a jornalista Alice Maciel publicou na Agência Pública a investigação O lobby é a alma do negócio, reconstruindo a atuação política do empresário e suas relações com governos, parlamentares e entidades do setor imobiliário. A apuração mostrou que Menin participou de discussões sobre a elaboração de políticas habitacionais desde 2008.

A investigação também documentou sua participação em movimentos empresariais que defendiam maior influência de grandes grupos econômicos na formulação de políticas públicas. O financiamento de campanhas eleitorais integrou essa atuação política.

Nas eleições de 2018, Menin foi o sexto maior doador individual de campanhas, destinando R$ 2,685 milhões a 18 candidatos e à direção partidária do DEM. Entre os beneficiários estavam políticos com atuação relevante em áreas relacionadas aos interesses da construção civil. As relações entre atividade empresarial e poder político também apareceram em uma controvérsia trabalhista.

Entre 2011 e 2014, fiscais do trabalho apontaram condições análogas à escravidão em cinco obras da MRV. Segundo investigação da Repórter Brasil, 203 trabalhadores foram resgatados nas cinco operações. Em Macaé, no Rio de Janeiro, auditores encontraram 118 pessoas submetidas a condições degradantes, de acordo com o relatório da fiscalização.

A construtora contestou as conclusões e afirmou que cumpria as normas trabalhistas. Após a inclusão da MRV no cadastro de empregadores autuados por trabalho análogo à escravidão, Menin participou da criação da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

A entidade atuou judicialmente contra a divulgação da chamada lista suja. Em 2014, uma ação proposta pela associação levou à suspensão temporária da publicação do cadastro. A relação entre esses acontecimentos foi documentada pela Agência Pública, que também mostrou como restrições de crédito decorrentes da inclusão da MRV na lista afetaram os negócios da empresa.

Uma consulta aos registros da Assembleia Legislativa de Minas Gerais revelou outra conexão entre política e administração da CNN Brasil. Em março de 2020, o então deputado estadual João Vítor Xavier, do Cidadania, apresentou dois requerimentos de congratulações relacionados à criação do canal de notícias.

O PROGRESSISTA

A rede de relações.

Do financiamento de campanhas a encontros com Bolsonaro: fatos documentados sobre o controlador e a gestão da CNN Brasil.

Centro da rede empresarial
Rubens Menin

Controlador da CNN Brasil e fundador da MRV

2018
Declaração pública

Menin elogiou os filhos de Bolsonaro e a equipe econômica do governo eleito.

2018
Financiamento eleitoral

Menin doou R$ 2,685 milhões a candidaturas e à direção partidária do DEM.

2019
Reunião no Planalto

Jair e Eduardo Bolsonaro receberam Menin e Douglas Tavolaro em 18 de janeiro.

2020
Visita à redação

Bolsonaro foi recebido pela direção da CNN Brasil em novembro.

2021
Jantar empresarial

Menin participou do jantar de empresários com Bolsonaro, oferecido por Washington Cinel.

2026
Direção executiva

João Vítor Xavier, ex-parlamentar que homenageara os fundadores em 2020, assumiu como CEO.

Fontes: Agência Pública · CNN Brasil (2020) · Folha (2021) · ALMG · CNN Brasil (2026).

O primeiro, de número 4.963/2020, homenageava Rubens Menin pelo lançamento da CNN Brasil. O segundo, de número 4.964/2020, fazia o mesmo em relação a Douglas Tavolaro. Os requerimentos foram apresentados em março e aprovados pela Assembleia em outubro. Seis anos depois, em 26 de março de 2026, a CNN anunciou João Vítor Xavier como seu novo CEO.

A comunicação oficial da emissora informou que a nomeação havia sido feita a convite de Rubens Menin, acionista majoritário do canal e da Rádio Itatiaia. Xavier havia exercido um mandato como vereador de Belo Horizonte e quatro como deputado estadual em Minas Gerais, e anunciado sua saída da atividade parlamentar para se dedicar à gestão das empresas de comunicação.

O histórico dos requerimentos mostra que a aproximação institucional do novo executivo com o projeto da CNN antecedia sua nomeação em vários anos. A homenagem aos fundadores, registrada pela Assembleia, documenta uma relação anterior entre a trajetória política de Xavier e a história empresarial da emissora.

A CNN passou, assim, a ser comandada por um executivo com trajetória parlamentar iniciada em 2009, que acumulou a gestão da emissora nacional com a direção de outro importante grupo regional de comunicação.

A entrevista de sábado (17), com uma empresária investigada que lançou acusações sem apresentar provas de irregularidades, mostrou que a emissora escolheu seu lado sem nenhum pudor: deu ampla circulação às suspeitas, enquanto as contradições da própria entrevistada receberam destaque muito menor. E, se as acusações forem desmentidas depois das eleições, o estrago já estará feito. Quem será responsabilizado por isso?

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