A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito para investigar se Flávio Bolsonaro (PL) manteve participação oculta na Best Bet, casa de apostas ligada à estrutura empresarial de Willer Tomaz, advogado e amigo do candidato à Presidência. O pedido foi revelado pela revista piauí a partir de documentos obtidos no Brasil e no exterior.
A suspeita surgiu a partir de uma cadeia de relações bancárias e societárias que conecta Flávio a empresas controladas por Tomaz. Segundo a piauí, o candidato aparecia ao lado do advogado como um dos únicos dois usuários com acesso “máster” à conta bancária da Alcazar Holdings no Santander. Esse nível de acesso permite consultar movimentações, administrar outros usuários e autorizar operações financeiras.
A Alcazar também está ligada empresarialmente à Cathedral Holdings. As duas empresas têm Willer Tomaz como proprietário, compartilham administrador e funcionam formalmente no mesmo endereço em Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal. Documentos contábeis consultados pela revista ainda apontam relações financeiras entre as duas companhias.
É a partir da Cathedral que a conexão chega ao mercado de apostas. A empresa é controladora da Rede Loto, criada em 2023 para atuar no setor e responsável pela Best Bet. A casa de apostas recebeu autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro para operar durante o governo de Cláudio Castro (PL).
A sequência chamou a atenção da Polícia Federal: Flávio tinha acesso privilegiado à conta de uma empresa de Tomaz; essa empresa mantinha relações societárias e financeiras com a Cathedral; e a Cathedral controlava a empresa responsável pela Best Bet. A PF pediu ao STF que investigasse se, além da amizade com Tomaz, Flávio também mantinha participação empresarial na casa de apostas. A revelação ocorre um dia depois de Willer Tomaz aparecer no centro de outra apuração envolvendo o setor.
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Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda mostrou que o advogado movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas na Blaze ao longo de 2025, tornando-se o maior apostador identificado pelo governo naquele período. A cifra considera valores apostados, ganhos, perdidos ou reapostados dentro da plataforma. Em depósitos e saques, Tomaz movimentou cerca de R$ 350 milhões.
O advogado também já teve apoio político de Flávio Bolsonaro para tentar ocupar uma vaga no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão responsável pelo controle administrativo e financeiro do Judiciário e pela fiscalização dos deveres funcionais dos magistrados.
As relações entre os dois, portanto, passam por diferentes frentes. Além da conta bancária da Alcazar, a Polícia Federal identificou viagens feitas por Flávio Bolsonaro em aeronaves ou passagens custeadas por estruturas empresariais ligadas a Tomaz. A Cathedral Holdings pagou voos utilizados pelo candidato e seus familiares durante viagens pela Europa em 2025, segundo documentos encontrados pelos investigadores.
Flávio e Tomaz afirmam que a relação entre eles é de amizade. Quando questionada anteriormente sobre as viagens custeadas pela empresa, a campanha do candidato declarou que associar a proximidade pessoal entre os dois a suspeitas de irregularidades seria uma ilação.

Tomaz também contesta as conclusões publicadas pela piauí. O advogado afirma que Flávio nunca teve participação em suas empresas e acusa a revista de divulgar informações falsas.
Outro ponto da investigação envolve a própria atividade da Best Bet. Tomaz sustenta que a plataforma nunca chegou efetivamente a funcionar. Documentos regulatórios, porém, mostram que a Rede Loto foi autorizada pela Loterj a operar apostas e que a empresa passou pelos procedimentos necessários para explorar o serviço.
A apuração da PF também alcança movimentações financeiras relacionadas ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Segundo documentos citados pela piauí, parte dos pagamentos recebidos pelo escritório entre 2023 e 2026 passou pela mesma conta do Santander em que Flávio e Tomaz apareciam como usuários com acesso privilegiado.
Um relatório da Polícia Federal obtido pela revista afirma ainda que contas relacionadas a Tomaz podem ter funcionado como pontos de concentração, circulação e redistribuição de recursos em favor de terceiros. A investigação busca reconstruir o destino e a origem dessas movimentações.
O novo pedido ao STF muda o grau de atenção sobre uma relação que até então era apresentada principalmente como amizade e proximidade política. A Polícia Federal agora quer saber se essa ligação também chegou ao campo empresarial.
A investigação deverá esclarecer se Flávio Bolsonaro teve participação na Best Bet e qual era sua função nas estruturas financeiras vinculadas a Willer Tomaz. Até aqui, os documentos revelados mostram que os dois compartilhavam acesso bancário, viajavam juntos e mantinham relações com empresas conectadas ao setor de apostas — justamente o setor no qual Tomaz movimentou bilhões de reais.










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