ESTADOS UNIDOS (EUA) — A madrugada terminou diferente para Donald Trump. Os republicanos perderam o controle da Câmara e do Senado nas eleições legislativas desta terça-feira (3), entregando aos democratas instrumentos capazes de limitar o presidente durante os dois últimos anos de seu mandato. A derrota aconteceu inclusive em estados tradicionalmente conservadores e veio acompanhada de um recado das urnas: cerca de 70% dos eleitores disseram querer um Congresso capaz de impor mais limites à Casa Branca.
Não foi apenas uma troca de cadeiras.
Os democratas avançaram em mais de duas dezenas de distritos da Câmara e conquistaram assentos no Senado em estados onde uma vitória parecia improvável até pouco tempo atrás. No Kansas, um democrata venceu uma eleição para o Senado pela primeira vez em 94 anos. Texas e Carolina do Sul também entregaram derrotas importantes aos republicanos.
Na Geórgia, a mudança ganhou rosto e história. Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita de Atlanta, venceu a disputa pelo governo estadual e se tornou a primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano.
No discurso de vitória, ela lembrou uma visita recente ao túmulo de Betsy Peak, sua tataravó, nascida em 1845, vinte anos antes da emancipação dos escravizados nos Estados Unidos. Bottoms disse não saber quais sonhos aquela mulher teve para os filhos e netos que nunca conheceria, mas afirmou estar “sobre ombros feitos de aço”.

Em seguida, lembrou que Crawfordville, cidade ligada à história de sua família, também foi berço de Alexander Stephens, vice-presidente da Confederação, e resumiu o contraste: o mesmo lugar que produziu uma das principais lideranças confederadas agora também ajudava a produzir a próxima governadora da Geórgia.
Sua vitória tem peso simbólico num país em que mulheres negras formam uma das bases mais fiéis do Partido Democrata, mas ainda ocupam poucos dos cargos mais altos da política. Por isso, a noite de 3 de novembro de 2026 será lembrada como um marco histórico, onde uma eleição estadual virou também um marco nacional.
Essa vitória avassaladora foi um recado para Trump: o povo cansou das políticas de extrema direita que favorecem somente aos interesses de uma minoria.
Custo de vida, guerra com o Irã e percepção de corrupção também apareceram entre as principais preocupações da população. A eleição que deveria renovar parcialmente o Legislativo acabou funcionando também como um julgamento sobre o governo.
Chuck Schumer, que deverá assumir a liderança da nova maioria democrata no Senado, resumiu o resultado em poucas palavras: “Relief is on the way” — “o alívio está a caminho”. Em seguida, explicou que a campanha procurou falar diretamente com famílias pressionadas pelo custo de vida e inseguras em relação ao futuro.
Trump afirmou que aceitará o resultado e que terá de trabalhar com os democratas. Mas a composição do Congresso transforma radicalmente o terreno político em Washington. Sem maioria legislativa, o presidente passa a enfrentar maiores dificuldades para aprovar projetos, controlar comissões, conduzir nomeações e impedir investigações parlamentares.
O novo desenho do Congresso americano
Democratas retomam Câmara e Senado e tiram de Donald Trump o controle do Legislativo nos dois últimos anos de seu mandato.
SENADO
e aliados
apuração
CÂMARA
confirmados
confirmados
apuração
Perde o controle político das duas Casas do Congresso.
Democratas passam a comandar comissões e podem ampliar investigações.
A agenda legislativa do governo passa a depender de negociação com a oposição.
Nomeações e projetos prioritários encontram um Congresso muito menos favorável.
A derrota não encerra o trumpismo. Mas interrompe uma narrativa que acompanhou a extrema direita nos últimos anos: a ideia de que seu avanço seria contínuo e praticamente inevitável. E esse feito já começa a se espalhar pelo mundo.
Em Israel, nas eleições de outubro, o bloco liderado por Benjamin Netanyahu, que reúne direita, extrema direita e partidos ultraortodoxos, conquistou apenas 53 das 120 cadeiras do Knesset. Ficou abaixo das 61 necessárias para formar sozinho uma maioria parlamentar.
A oposição judaica alcançou 48 cadeiras, enquanto os partidos árabes chegaram a 19 e passaram a ocupar uma posição importante nas negociações para a formação do próximo governo, que muito provavelmente não será de extrema direita.
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“L de Lula” ganha força internacional e vira símbolo de mobilização da esquerda
Depois da eleição, lideranças da Lista Conjunta e da Lista Árabe Unida realizaram sua primeira reunião de coordenação. Ahmad Tibi tornou público o objetivo: articular forças para substituir o governo formado por Netanyahu, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich.
A situação israelense é diferente da americana, mas há um ponto convergente entre as duas eleições. Grupos políticos que haviam construído sua força apresentando-se como expressão permanente de uma nova maioria encontraram limites concretos nas urnas.
E na Europa, a situação também não é diferente.
Nas últimas semanas, jovens, trabalhadores e estudantes participaram de protestos na França, Itália, Bélgica, Espanha e outros países. As reivindicações variam, mas custo de vida, salários, precarização dos serviços públicos e falta de perspectiva aparecem repetidamente. Em uma reportagem sobre essa onda de mobilizações, uma estudante belga resumiu o sentimento em três palavras: “Nobody heard us” — “ninguém nos ouviu”.
E enquanto por lá eles tentam fazer crescer a sua voz, no Brasil a juventude foi peça decisiva para espantar o fantasma extremista e fazer renascer a esperança.
As mobilizações populares, assim como a força dos jovens foi determinante para virar o jogo eleitoral e dar a vitória para Lula. A vontade de fazer acontecer, levou eleitores a superarem os mais variados obstáculos para conseguir votar.
Nas principais capitais do país, durante o segundo turno, e em uma tentativa frustrada de apagar a voz do povo, muitas prefeituras seguraram a frota de ônibus a fim de evitar uma votação expressiva na esquerda.
O tiro saiu pela culatra. Muitos apoiadores de Lula organizaram caronas, combustíveis e transporte voluntário para chegar às urnas e votar. Na Bahia, um único grupo transportou aproximadamente 600 pessoas.
Esse desenho mundial que começou no Brasil, se arrastou pelas ruas da Europa, chegou às urnas de Israel e agora foi determinante para dar um basta na extrema direita mundial, mostra que a sociedade quer mais do que financiamento de guerras e ajuste fiscal. Quer políticas públicas, serviços estatais de qualidade e a garantia de um Estado de Bem Estar Social.
E essa luta está apenas começando.










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