Na Argentina governada pelo ultraliberal Javier Milei, 83,3% das pessoas de baixa renda ficam sem dinheiro até o dia 20 de cada mês, enquanto 68,1% recorreram a empréstimos nos últimos seis meses. Os números fazem parte de uma pesquisa da Zentrix Consultora, divulgada no domingo (18), que ouviu 1.438 pessoas em todo o território argentino entre 22 e 30 de setembro. O levantamento expõe a precariedade financeira de milhares de famílias em meio às medidas de austeridade adotadas pelo governo desde dezembro de 2023.
A situação revela uma profunda desigualdade entre as classes sociais. Enquanto apenas 0,9% dos entrevistados de baixa renda conseguem poupar, o percentual chega a 61,9% entre os mais ricos. A diferença também aparece na finalidade dos empréstimos: entre os mais pobres que contraíram dívidas, 65,5% utilizaram o dinheiro para despesas básicas, enquanto 63,4% dos endividados de alta renda financiaram a compra de bens duráveis.
Na prática, o crédito representa duas realidades distintas. Para uma parcela dos mais ricos, é uma ferramenta de consumo. Para os trabalhadores mais pobres, tornou-se uma alternativa para colocar comida na mesa, pagar contas e assegurar condições mínimas de sobrevivência.
O cenário ocorre durante a gestão de Milei, marcada por cortes de despesas públicas, retirada de subsídios e medidas de ajuste fiscal. Segundo levantamento publicado pelo portal argentino Chequeado, os gastos do governo recuaram 30% em termos reais nos primeiros dois anos da administração, enquanto os salários dos trabalhadores formalmente registrados perderam 8,2% do poder de compra entre novembro de 2023 e junho de 2026.
A perda salarial ajuda a compreender a distância entre os indicadores macroeconômicos e as condições materiais da população. Embora a inflação mensal tenha desacelerado, os preços continuam subindo, e a redução do ritmo dos reajustes não significa que os trabalhadores tenham recuperado a renda perdida.
A pesquisa da Zentrix confirma essa percepção. Para 81,8% dos entrevistados, os salários não acompanham a inflação. O problema ultrapassa a população mais pobre e alcança a classe média, na qual 51,4% afirmaram que o dinheiro acaba antes do encerramento do mês.
Ao todo, 56,2% dos participantes recorreram ao crédito nos seis meses anteriores ao levantamento. Entre os endividados, 55,1% utilizaram os recursos para alimentação e saúde, enquanto outros 21,3% precisaram pagar tarifas e serviços. Somadas, essas despesas representam 76,4% das finalidades declaradas.
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A política de retirada de subsídios também tornou mais caros serviços essenciais, como energia e transporte. O aumento dessas despesas compromete uma parcela maior dos rendimentos familiares, especialmente entre trabalhadores que já enfrentam dificuldades para acompanhar o custo de vida.
O endividamento também atinge a população jovem. Entre os menores de 40 anos, 72% ficam sem dinheiro até o dia 20, enquanto 60,9% contraíram dívidas recentemente. Apenas 3% conseguem reservar alguma quantia, indicando a dificuldade de formar uma proteção financeira para situações de emergência.
A desigualdade econômica aparece ainda na avaliação do próprio governo. Entre os entrevistados de baixa renda, a desaprovação de Milei alcança 72,9%, enquanto o índice de aprovação chega a 58,8% entre os mais ricos. A diferença revela como as percepções sobre a administração variam conforme a posição socioeconômica.
Outro dado expõe a tensão entre o discurso de redução do Estado e as necessidades da população: 67% dos entrevistados defendem alguma forma de intervenção estatal para enfrentar a inadimplência. Entre os favoráveis a essa atuação, 61,3% preferem a regulamentação das condições de crédito, incluindo taxas, limites das parcelas e transparência nos contratos.
Os resultados colocam em evidência o custo social do ajuste econômico argentino e a desigualdade que marca a capacidade de enfrentar as despesas cotidianas.
Enquanto a política econômica de Milei prioriza a contenção de gastos públicos, milhões de trabalhadores enfrentam um problema muito mais imediato: conseguir atravessar o mês com o próprio salário. Para uma parcela crescente dos entrevistados, até mesmo necessidades básicas dependem de dinheiro emprestado, tornando o endividamento parte da rotina de sobrevivência.






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