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Grécia
Foto: NikosLikomitros
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Milhares de estudantes, professores, pais e trabalhadores ocuparam as ruas de Atenas nesta quarta-feira (21) em defesa da educação pública e contra a política educacional do governo conservador de Kyriakos Mitsotakis. Convocada por organizações estudantis e sindicais, a mobilização partiu dos Propileus em direção ao Parlamento e também teve atos organizados em outras regiões da Grécia. Segundo o PAME, frente sindical ligada ao movimento comunista grego, milhares participaram da marcha na capital.

A palavra de ordem escolhida pelos manifestantes deixou evidente que a disputa ultrapassa as condições das salas de aula. “Dinheiro para salários e educação, não para a guerra e os lucros dos poucos”, afirmou o PAME na convocação nacional, que reuniu professores dos ensinos fundamental e médio, universitários, trabalhadores das universidades, pais e estudantes.

O movimento coloca em confronto dois projetos para o papel do Estado. De um lado, o governo da conservadora Nova Democracia avançou na abertura do ensino superior para instituições não estatais e mantém políticas de avaliação e reorganização educacional rejeitadas pelos sindicatos. Do outro, professores e organizações trabalhistas reivindicam ampliação do financiamento estatal, contratações permanentes, salários maiores e preservação da educação pública e gratuita.

A situação das escolas está no centro das reivindicações. A Federação Grega de Professores Primários (DOE) afirma que o início do ano letivo ainda registra milhares de vagas de professores sem preenchimento, falta de recursos nas unidades e problemas de infraestrutura. A entidade acusa o governo de responder à falta de profissionais com fusão de turmas, horas extras obrigatórias e deslocamentos de alunos, em vez de contratar pessoal suficiente.

A Federação dos Professores do Ensino Médio (OLME) apresenta um número ainda mais concreto. Segundo a convocação oficial da organização, ao menos 15 mil vagas de professores permaneciam abertas semanas depois do início do ano letivo. A entidade reivindica contratação imediata, redução do número de estudantes por turma, aumento real dos salários e políticas de moradia e transporte para docentes.

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Os números oficiais europeus ajudam a dimensionar o conflito. Dados publicados em agosto pela Eurostat mostram que a Grécia destinou 3,3% do Produto Interno Bruto à educação em 2023, contra média de 4,7% na União Europeia. Foi o segundo menor percentual entre os países do bloco, acima apenas da Romênia.

Mesmo por outra metodologia estatística, que considera os gastos governamentais classificados especificamente na função educação, a Grécia permanece entre os últimos lugares. Dados da própria Eurostat referentes a 2024 colocam o país entre os menores níveis de investimento educacional em relação ao PIB e mostram que apenas 8,2% de toda a despesa pública grega foi destinada à educação, uma das menores proporções da União Europeia.

É nesse cenário que os sindicatos denunciam um processo de abertura cada vez maior da educação ao setor privado. A DOE afirma diretamente que combate a “comercialização” do ensino e a transferência de partes da educação para empresas privadas. O PAME também colocou entre as reivindicações do movimento a defesa de um sistema exclusivamente público e gratuito.

A crítica ocorre depois de uma transformação importante promovida pelo governo Mitsotakis. Em 2024, o Parlamento aprovou a Lei 5.094, que criou o marco para instalação de filiais de universidades estrangeiras não estatais no país. O próprio Parlamento grego registra a aprovação da legislação, enquanto o Ministério da Educação mantém atualmente uma relação das instituições não estatais autorizadas a funcionar sob o novo modelo.

Em 2026, esse modelo deixou o papel e começou a se consolidar na estrutura universitária do país. O Ministério da Educação grego lista instituições estrangeiras autorizadas a atuar na Grécia e confirmou neste ano novas licenças para universidades não estatais.

Para o movimento sindical, o avanço privado ocorre enquanto problemas elementares permanecem na rede pública. A OLME denuncia turmas superlotadas, falta de professores e salários insuficientes; a DOE cobra escolas seguras e financiamento suficiente para cobrir suas necessidades reais. São reivindicações que transformam a disputa educacional em uma discussão maior sobre prioridades do orçamento público.

A questão da moradia também entrou na mobilização. Sindicatos que aderiram ao movimento destacam o peso dos aluguéis sobre estudantes, trabalhadores e suas famílias e reivindicam ampliação das residências universitárias e oferta gratuita de alojamento e alimentação para alunos que precisam estudar longe de casa.

A manifestação desta quarta também assumiu um caráter internacionalista. Durante o ato em Atenas, estudantes repetiram a palavra de ordem “Da Grécia à França, lutamos por educação pública e gratuita” e expressaram solidariedade às mobilizações realizadas por jovens franceses. O próprio PAME publicou registros da marcha e das intervenções de representantes de estudantes, professores, pais e trabalhadores.

O que ocorreu nas ruas gregas, portanto, não foi apenas uma greve salarial de professores. A mobilização reuniu setores do movimento estudantil e trabalhista em torno de uma defesa explícita de mais financiamento estatal, fortalecimento dos serviços públicos e proteção da renda, enquanto organizações sindicais acusam o governo conservador de tratar necessidades sociais como custo e ampliar o espaço do mercado na educação.

A resposta das ruas enaltece uma disputa que atravessa parte da Europa: crescimento econômico e equilíbrio fiscal não encerram o conflito quando escolas continuam sem profissionais, trabalhadores perdem poder de compra e serviços públicos permanecem pressionados. Na Grécia, sindicatos e estudantes recolocaram esse confronto no espaço onde movimentos sociais historicamente disputam os rumos do Estado — nas ruas.

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