JERUSALÉM (ISRAEL) — Pouco mais de um mês antes das eleições parlamentares em Israel, duas alianças de partidos árabes corriam o risco de ficar fora da disputa. Em 23 de setembro, a Comissão Eleitoral Central decidiu excluir a Lista Conjunta e o Ra’am das eleições marcadas para 27 de outubro. Os pedidos de impedimento se apoiavam no artigo 7A da Lei Básica da Knesset, que permite barrar candidaturas em casos como apoio à luta armada contra Israel ou negação do caráter judeu e democrático do Estado. Além das duas listas, foram atingidos Ofer Cassif, do Hadash, e Sami Abu Shehadeh, então candidato do Balad.
A decisão levou os partidos à Suprema Corte, representados pela organização de direitos humanos Adalah. A entidade sustentou que as acusações utilizavam materiais antigos, distorcidos ou já examinados pelas autoridades e que não havia provas suficientes para justificar a exclusão. Em 1º de outubro, nove ministros da Corte ouviram os recursos. No dia seguinte, derrubaram por unanimidade as proibições contra a Lista Conjunta e o Ra’am e, por sete votos a dois, permitiram que Cassif continuasse candidato. A Corte aplicou o entendimento de que retirar uma candidatura da eleição exige provas claras e convincentes e deve ser reservado a situações extremas.
Sami Abu Shehadeh teve um desfecho diferente. Durante o julgamento, a maioria dos magistrados indicou que poderia manter sua exclusão por declarações feitas após os ataques de 7 de outubro de 2023. Antes que houvesse uma decisão formal, o dirigente retirou a candidatura. A Adalah disse que ele optou pela saída para evitar a criação de um precedente judicial que pudesse restringir outras candidaturas palestinas no futuro.
Com as duas listas de volta à eleição, a disputa seguiu para as urnas. Em 27 de outubro, a Lista Conjunta conquistou 11 cadeiras e o Ra’am, oito. Foi a maior bancada já alcançada conjuntamente pelos partidos árabes no Parlamento israelense. O crescimento veio acompanhado de uma participação recorde dos cidadãos palestinos de Israel, que disseram ter sidos mobilizados por questões como violência nas cidades árabes, discriminação, retórica antiárabe e insatisfação com as políticas do governo Netanyahu.
Os 19 eleitos vêm de trajetórias muito diferentes. Pela Lista Conjunta chegaram à Knesset Yousef Jabareen, Ahmad Tibi, Faten Ghattas, Bakr Awawdeh, Ofer Cassif, Youssef Atauna, Maha Karkabi-Sabbah, Ahmad Darawsheh, Nihaya Oshahi, Hassan Nasasra e Haitham Zahalka. O grupo reúne um professor de Direito, um médico veterano do Parlamento, pesquisadores, educadores, dirigentes municipais e militantes de três partidos distintos: Hadash, Ta’al e Balad. Ofer Cassif, um dos nomes cuja candidatura chegou à Suprema Corte, é judeu e integra o Hadash, partido de tradição comunista e árabe-judaica.

No Ra’am foram eleitos Mansour Abbas, Yoav Segalovitz, Waleed Taha, Waleed Al-Hawashla, Iman Khatib-Yassin, Yasir Hujeirat, Ibrahim al-Turi e Abd al-Karim Masri. A lista tem origem na corrente islâmica conservadora da política árabe israelense, mas apresentou em 2026 uma candidatura incomum: Segalovitz, judeu, secular, sionista, ex-comandante policial e antigo vice-ministro da Segurança Pública, ocupou o segundo lugar da chapa.

A composição ajuda a entender as diferenças entre as duas frentes. Na Lista Conjunta convivem a tradição comunista do Hadash, o nacionalismo palestino do Balad e o Ta’al de Ahmad Tibi. No Ra’am, Abbas segue uma linha mais pragmática de negociação com partidos de maioria judaica. Nesse contexto, não existe uma bancada única com uma estratégia comum disposta a formar um governo de coalizão.
Yousef Jabareen, que lidera a Lista Conjunta, sinalizou que sua aliança pode apoiar externamente uma administração capaz de substituir Netanyahu, mas não indicou disposição para integrar o Executivo nas condições atuais.
Entre as diferenças estão as posições sobre Gaza, os assentamentos na Cisjordânia e o futuro das relações entre Israel e os palestinos. Para Jabareen, uma alternativa ao atual governo precisa reconhecer os partidos árabes como interlocutores políticos, e não apenas procurar seus votos quando a maioria parlamentar fica apertada.
Mansour Abbas escolheu um caminho diferente. Em 2021, levou o Ra’am para uma coalizão liderada por Naftali Bennett e Yair Lapid, tornando sua legenda o primeiro partido árabe independente a integrar formalmente um governo israelense. Abbas defendeu a decisão como uma maneira de negociar orçamento, planejamento urbano, combate ao crime e políticas públicas para as comunidades árabes. Em 2026, voltou à eleição sem abandonar essa estratégia e, logo após a divulgação das primeiras projeções, afirmou que integrantes dos dois grandes blocos haviam procurado seu partido para conversar.
A entrada de Yoav Segalovitz na chapa reforçou essa aposta. Ao anunciar sua candidatura em Nazaré, em agosto, o ex-policial disse que não pretendia apagar as diferenças entre ele e Abbas. “Eu sou judeu, sionista, secular, oficial das Forças Armadas e comissário da polícia”, afirmou. O ponto comum, segundo ele, estava em questões como segurança, saúde, bem-estar social, planejamento urbano e combate ao crime. Segalovitz apresentou sua decisão como uma tentativa de romper as barreiras que separam politicamente cidadãos árabes e judeus, ainda que continuassem discordando em outras áreas.
Essas estratégias agora encontram um Parlamento sem maioria definida. O bloco de Netanyahu terminou a eleição com 53 cadeiras. Os partidos de oposição liderados por Gadi Eisenkot somaram 48. São necessários 61 votos para controlar a Knesset. Os 19 representantes da Lista Conjunta e do Ra’am ocupam, portanto, a faixa de cadeiras que pode transformar uma minoria em maioria: juntos com a oposição, chegariam a 67.
A possibilidade existe no papel, mas enfrenta resistência entre os próprios adversários de Netanyahu. Avigdor Lieberman rejeitou governar com partidos árabes, enquanto outros integrantes da oposição também demonstraram restrições a uma coalizão desse tipo. A Associated Press aponta que essa recusa torna mais difícil para Eisenkot converter suas 48 cadeiras em uma maioria parlamentar, mesmo depois da perda de força do bloco governista.
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Netanyahu, por sua vez, passou a atacar a legitimidade do crescimento eleitoral dos partidos árabes. Depois da votação, acusou as legendas de fraude e mencionou suspeitas de interferência externa, sem apresentar provas públicas para sustentar uma manipulação sistemática do pleito. Autoridades eleitorais afirmaram que não havia base para dizer que a integridade geral das eleições havia sido comprometida, e o serviço de segurança Shin Bet esclareceu que investigações existentes tratavam de indivíduos e não dos eleitores árabes como grupo.
Netanyahu permanece como primeiro-ministro enquanto as negociações avançam. Depois da certificação dos resultados, prevista para 4 de novembro, o presidente Isaac Herzog deverá ouvir os partidos e escolher quem receberá a primeira oportunidade de formar uma coalizão. A partir daí, o nome indicado terá de reunir pelo menos 61 parlamentares dentro do prazo previsto pela legislação israelense.
Eisenkot chega a essa etapa com 48 cadeiras, abaixo da maioria. Netanyahu tem 53. Lista Conjunta e Ra’am somam 19, mas partem para as negociações com estratégias diferentes: Jabareen admite apoio externo mediante compromissos políticos; Abbas mantém aberta a possibilidade de participação direta no governo. Ao mesmo tempo, dirigentes importantes da oposição continuam rejeitando uma aliança com as duas legendas.
Se nenhum dos lados conseguir quebrar essa resistência ou atrair parlamentares de outros grupos, Herzog poderá entregar a tentativa de formação de governo a outro deputado. Persistindo o bloqueio, a Knesset poderá caminhar para uma nova eleição.
As primeiras negociações devem mostrar até onde os 19 eleitos conseguem transformar o crescimento nas urnas em poder de barganha. O próximo movimento será decidido não mais pela Justiça Eleitoral ou pela Suprema Corte, mas pelas conversas que começam agora entre os partidos.







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