BAURU (SP) — Dois gatos acompanhavam a conversa na sala quando Silvana Rinaldi começou a contar sua história. Não eram os únicos da casa. Ao todo, sua filha, com quem vive, havia adotado 12. Aqueles dois, explicou antes de a entrevista começar, precisavam permanecer ali porque sofriam bullying dos demais.
A história poderia ter ficado como uma pequena curiosidade de uma manhã de entrevista. Mas havia alguma coisa naquela cena que combinava com o que Silvana contaria nas quase três dezenas de minutos seguintes: sua disposição para acolher, observar quem está à margem e criar um espaço para que alguém consiga existir à sua maneira.
Hoje, esse espaço é uma sala do Programa 60+ da Universidade de São Paulo, em Bauru. Ali, Silvana conduz atividades de escrita criativa com mulheres NOLT, sigla de New Older Living Trend, ou, “nova tendendência de viver a maturidade”, expressão usada para definir pessoas 60+ que continuam estudando, viajando, aprendendo tecnologias, praticando atividades físicas, mudando rumos e construindo novas experiências sem precisar fingir que o tempo não passou.
Mas a história de Silvana com a escrita e com mulheres NOLT começou muito antes de Bauru. Em 2014, ela foi para Portugal. A mudança aconteceu num momento difícil. Havia perdido o trabalho no Brasil e atravessava um período que define como de “luto profundo”. Seu companheiro tinha vivido no país e mantinha uma casa por lá. Os dois decidiram tentar uma nova vida. Não foi simples.
“Foi uma época difícil, porque eu tinha perdido meu trabalho aqui e estava no que eu chamo de “luto profundo”. Então, meu companheiro, que tinha vivido em Portugal, sugeriu que fossemos para lá, em busca de outros trabalhos. Ele conservou uma casa lá e nós fomos para tentar alguma coisa. Acho que eu mandei quase 400 currículos por lá, em uma época em que os jovens portugueses estavam deixando suas casas em Portugal para conseguir trabalho em outros países. Quem permaneceu foram os seus pais, já idosos. Bom, como eu não consegui nada no mercado de trabalho, eu comecei a pensar por onde eu poderia ir para começar a fazer parte da comunidade portuguesa do meu bairro.”, conta.
Foi assim que chegou a uma Universidade Sénior em Massamá e Monte Abraão, na região de Sintra, onde morava. O modelo era diferente de uma universidade convencional. Não havia lógica de provas e notas. Havia atividades físicas, intelectuais, cursos de línguas, oficinas e, sobretudo, convivência. O objetivo era também combater o isolamento social de uma população que havia permanecido no país enquanto muitos filhos saíam em busca de trabalho em outras partes da Europa.
A primeira ideia de Silvana nem sequer era dar aulas de escrita. Seu companheiro tinha experiência em rádio. Ela pensou em unir o conhecimento dos dois e em sugerir a criação de uma rádio universitária: ele cuidaria da parte de som; ela, da escrita. A proposta não avançou. Faltava dinheiro para equipamentos. Silvana então prometeu pensar em outra coisa.
Quando estava no Brasil em uma de suas visitas, recebeu uma ligação de Portugal. No semestre seguinte, daria aulas de Escrita Criativa. Silvana nem sabia direito o que aquilo significava.
“Eu estava afastada da área de das Letras fazia muito tempo. Sentei aqui, estudei tudo que eu podia, li todas as teses da USP, tudo que tinha para poder formatar o curso e quando voltei para lá, ministrei esse curso pelos próximos cinco anos. Dos dez que eu vivi lá em Portugal, cinco eu dediquei à USMMA, a Universidade Sénior (SEME). Com uma reciprocidade de emocionar. Carrego até hoje meus alunos que falam comigo quase que diariamente do que nós desenvolvemos dentro do curso.”
Vieram exercícios de escrita criativa expressiva, histórias policiais, atividades onde os alunos recebiam o começo de um crime e precisavam imaginar o desfecho — ou o contrário. Mais tarde, uma turma criou um jornal. A sala foi organizada como uma pequena redação e fizeram visitas a jornais para entender o funcionamento daquele universo.
Silvana havia chegado a Portugal procurando trabalho. Descobriu outra coisa. Descobriu que gostava de ensinar. Quando o relacionamento terminou e ela decidiu voltar para o Brasil, uma de suas angústias não dizia respeito apenas ao país que deixaria para trás. Havia o medo de perder aquilo que tinha encontrado em si mesma.
“Um dos meus grandes dramas pessoais era: gente, eu vou perder isso. Eu me descobri como professora. Eu não tinha tido essa experiência ainda. Aí minha filha falou: ‘Mamãe, existe um programa na USP que se chama 60+. Eu não sei. Falaram que ele estava desativado, mas você não quer chegar para ver o que acontece?’”
Ela foi.
Explicou que havia dado aulas de Escrita Criativa em Portugal e a proposta foi acolhida. Silvana sabia que não haveria remuneração. O trabalho seria voluntário, como já havia acontecido em sua experiência portuguesa. Mesmo assim, enxergou naquela possibilidade uma espécie de continuidade.
“Aqui eu não conhecia muitas coisas sobre como isso seria, mas agarrei essa possibilidade com uma felicidade enorme, porque comprometia duas coisas minhas. Uma, porque eu sou muito voltada para esse tipo de coisa, para o engajamento com liberdade de expressão, e sou muito politizada em alguns momentos também. E o outro, porque eu precisava ter essa “alavanca” para poder continuar vivendo. E foi uma surpresa especialmente boa para mim.”

A primeira turma teve 44 pessoas. O número diminuiu. Alguns se assustaram com a proposta, outros desistiram. Ficaram cerca de 15 mulheres. E foi com elas que Silvana começou a construir algo que ultrapassaria uma oficina destinada simplesmente a ensinar técnicas de escrita.
Não havia interesse em formar escritoras profissionais. A escrita era um caminho para revisitar memórias, reconhecer sentimentos e descobrir que a própria história também merecia ser contada.
Em um semestre, as atividades percorreram emoções como empatia, luto, tristeza e alegria. Silvana propunha trabalhos para casa, cobrava, pedia a devolução e acompanhava mulheres que inicialmente desconfiavam da própria capacidade de escrever.
“Elas adoraram a Escrita Criativa Expressiva ou Terapêutica, que foi ministrada sem o objetivo de fazer terapia, porque não sou posso atuar como psicóloga, não posso me dar esse direito. Mas com nuances, porque visava a de energizar a turma e levar ao autoconhecimento, sabe? Sempre assim, fazendo prevalecer as expressões positivas de tudo. Levantar. Por exemplo, nesse semestre passado, nós visitamos as emoções: então fizemos de tudo, empatia, luto, tristeza, alegria, tratando sobre cada uma delas. E aí eu faço os “TPCs”, trabalhos para casa. E eu tenho uma cobrança positiva e afetiva: que retornem. E as meninas fizeram trabalhos maravilhosos.”

Silvana costuma repetir uma expressão que virou sua marca registrada: “Escreva-se!” Para ela, colocar uma experiência no papel significa tirá-la de um lugar em que permanece presa apenas à memória e observá-la de outra maneira.
“A escrita criativa expressiva ou terapêutica, expressivo terapêutica, ela vai de encontro à alma das pessoas, ela mexe com aqueles sentimentos que estão adormecidos, ela faz com que você reveja situações de vida, ela apela privilegiando para o autoconhecimento. E aí tem uma frase que eu uso todos os dias da minha vida: escreva-se!. Porque todas as coisas que aconteceram na minha vida e que eu tinha que falar de alguma maneira, eu botava no papel. A vida toda, desde muito criança. E aí, então, isso traz um alívio, uma sensação diferente.”
Foi assim que Beth surpreendeu a professora. Elizabeth de Oliveira Fernandes, participava das atividades, mas escrever não parecia ser sua forma preferida de expressão. Dizia que preferia falar. Silvana brincava que teria de inventar uma disciplina de “escrita falada”.
Até que chegou o momento de preparar uma exposição com trabalhos das alunas. Beth entregou um texto. Silvana ainda se recordava da surpresa durante a entrevista. Disse que o considerou tão bem construído que lhe pareceu texto de profissional.
A memória escolhida por Beth vinha de 1964. Ela era uma menina quando participou de uma campanha que pedia à população doações de objetos de ouro sob o discurso de ajudar o país. Durante décadas, aquela lembrança permaneceu dentro dela. Quando voltou à cena pela escrita, já não era apenas a recordação da criança. Era também a interpretação da mulher que, muitos anos depois, podia olhar para aquela menina.
O texto foi este:
RECORDAÇÕES DA INFÂNCIA
Elizabeth de O. Fernandes
Quem nasceu no final dos anos 50, talvez irá se lembrar desses acontecimentos.
Essas recordações cruzaram o meu caminho quando eu tinha cinco a seis anos.
O ano era 1964.
Nessa época tudo era fantasias, brincadeiras, o mundo era feito de balanços, escorregas e correrias. A rua e o parque infantil (Lions Clubs), que eu e meus irmãos frequentávamos, era meu mundo.
No entanto, naquele ano, a atmosfera das brincadeiras do parque infantil foi tomada por um movimento de adultos.
Num dia, previamente marcado, a escola se transformou num amontoado de gente importante: homens imensos, fardas impecáveis!
Para mim não tinham rosto, apenas um brilho de fivelas e medalhas.
Teve banda, hinos, discursos e eu nada entendia.
As crianças inquietas formavam uma fila que parecia não ter fim e cada um guardava nas mãos um pequeno tesouro: correntinhas ou um anel de estimação, na promessa de salvação para o país.
Olhei para as minhas mãos … nada tinha.
Será que só eu estava com as mãos vazias? Será que só eu não tinha trazido “ouro para doar para o bem do Brasil”?
Foi quando a multidão foi se abrindo e a imagem da minha mãe foi surgindo quase que por milagre.
O que ela estava fazendo ali, naquela confusão de fardas e tambores?
Sem dizer uma palavra ela abriu a minha mão e colocou uma esferazinha fria e a fechou com firmeza.
Pronto! Estava ali o meu tesouro!
De repente, começamos a caminhar e, um a um, depositamos o nosso tesouro em uma urna enorme.
Como acabou tudo aquilo não me lembro.
Somente muitos anos depois, em conversas com a minha mãe, ela contou que aquele “tesouro” era um dente de ouro do meu avô João, seu pai, que ela guardava como recordação.
Hoje, na idade em que me encontro, recordo-me daquela menina e resgato o avesso daquela memória e o tamanho daquela ilusão.
Nem o país cumpriu o seu propósito, nem aquela entrega mudou o destino de ninguém.
Diante daquele blefe, a menina olha o passado e questiona o gesto da mãe.
Ah! minha mãe! Por que ao invés de ter colocado na minha mão o dente do vovô João, você não colocou na minha mão, um graúdo grão de feijão?
Aí estaríamos quites!
Pesquisa
A campanha “ouro para o bem do Brasil” foi uma iniciativa de arrecadação de fundos e joias lançada em 1964, pelos Diários Associados, logo após o golpe militar. A meta oficial era ajudar a pagar a dívida externa do País e conter a inflação. O lema serviu para unir a população em um discurso de patriotismo e apoio ao novo regime.
A redação materializa aquilo que Silvana tenta construir em sala. A lembrança não desapareceu. Mas já não pertence apenas à menina que segurou nas mãos o dente de ouro do avô sem compreender inteiramente o que acontecia à sua volta. Décadas depois, aquela criança pode ser reencontrada por outra mulher, capaz de interrogar o passado e escrever sobre ele.
Beth não é um caso isolado. Silvana fala de outra aluna, sua xará, que inicialmente quase se escondia. Com o tempo, passou a escrever mais e se expressar mais e hoje é uma das alunas que mais envia um grande número de textos.
“Ficava vermelhinha para tudo, tinha uma voz pequenininha. E agora tem desabrochado muito, escrito muito bem, escreve bem. E é a que mais manda textos, sabe? E eu estou muito feliz em conseguir recuperar isso dentro dela. É uma coisa que faz um bem danado.”
Os trabalhos começaram também a sair da sala. Em setembro, algumas produções foram expostas em um pergolado da USP. Silvana e suas alunas prepararam pequenas pranchetas decoradas com chita e reuniram textos das participantes em blocos. Os trabalhos ficaram pendurados expostos para que outras pessoas pudessem lê-los.

A exposição virou acontecimento para o grupo.
“Nossa, foi um delírio. Todo mundo ficou entusiasmadíssimo. Elas mesmas trataram da decoração, que ficou um trabalho lindo de artesanato. fizeram questão de participar, tiraram muitas fotos. E aí, nos TPCs, que são os trabalhos para casa, é aí que você vê que elas estão motivadas para poder te devolver reflexões importantíssimas.alguma coisa.”
Mas escrever já não bastava. Silvana começou a pensar em outra experiência. Criou a disciplina “Da Escrita à Cena: Vivências de Representação”, uma atividade que aproxima texto, voz, corpo e interpretação sem carregar o peso de um curso formal de teatro. Primeiro surgiu uma pequena peça ambientada em um café português.
Depois veio um projeto mais ambicioso. No dia 19 de novembro, as participantes deverão apresentar no anfiteatro da Biblioteca da USP “Quando Éramos Outras”. A peça nasceu de experiências pessoais trazidas pelas próprias mulheres. Os textos são trabalhados para a cena, mas preservam aquilo que não pode desaparecer: a imagem das histórias, a memória e “aquilo que não poderia desaparecer”.
“Eu pedi que cada uma trouxesse sua experiência pessoal, aquilo que ela quisesse dar para o personagem. E aí nós compusemos essa peça a partir disso. E agora estamos arrematando a trilha sonora, cuidando da playlist e tal. E vamos fazer os ensaios finais. Estão no auge do entusiasmo e eu mais ainda. E foi assim que nasceu a escrita criativa, que eu nem sabia o que era. E que, de repente, virou tudo isso.”
Talvez por isso Silvana rejeite com tanta força a ideia de que chegar aos 60 anos significa parar no tempo e espaço, e se alienar de tanto a ser vivido. Entrar numa espécie de sala de espera.
Em Portugal, conta, a universidade sénior também desempenhava um papel de proteção contra o isolamento. Como os filhos haviam deixado o país em busca de oportunidades na Inglaterra, França ou Alemanha, quando algum aluno deixava de comparecer às atividades, havia preocupação. Telefonavam. Se não houvesse resposta, alguém podia ir até a casa verificar o que havia acontecido.
No Brasil, Silvana enxerga outra realidade em sua própria turma. São mulheres ativas, que frequentam academias, Sesc, universidade e diferentes atividades. O que falta, diz, é que as gerações mais novas consigam enxergar nelas nessas mulheres mais do que a idade.
“Eu acho que precisava ter um pouquinho mais de sabedoria, talvez não por parte dos filhos, pelos netos mesmo, de começarem a prestar atenção nos seus avós, não do lado jocoso, não na somente nas brincadeiras, mas para entender a qualidade que eles têm como pessoas e o que eles têm para oferecer, que são coisas formidáveis. As histórias de vida e tudo isso corrobora para uma infinidade de informações boas para você que eles possam se regalar com tudo isso.”

A defesa da liberdade aparece repetidamente quando Silvana fala. É também uma forma de explicar a própria vida. Ela foi advogada durante grande parte da trajetória profissional. Cursou Letras, um curso inacabado de Comunicação Social, estudou Gestão Empresarial e fez outras formações ao longo dos anos. Foi mãe solo depois do divórcio. Viveu em Portugal. Mudou caminhos. Abandonou alguns. Começou outros.
Quando olha para trás, não parece interessada em construir uma narrativa de vida perfeita. Interessa-lhe ter podido escolher.
“Além dessa falta de oportunidade, porque eu fiz uma escolha difícil muito cedo, eu me casei com 22 anos e tive as minhas filhas, me divorciei em seguida e fui mãe solo por muito tempo, além dessa falta de oportunidade, eu tinha uma coisa na minha cabeça que dizia gritava liberdade. Eu sempre prezei pela liberdade. […] Eu não queria ter as garras de uma entidade patronal de ninguém em cima de mim. Tinha, lógico que a gente tinha, mas com liberdade de dizer: ‘Não, isso eu não quero. Aqui eu vou parar’, sabe? E aguentar as consequências.”
Daí nasce uma das ideias que mais repete sobre essa etapa da vida.
“Eu dizia sempre para esse último companheiro, Luiz Augusto, e digo sempre para todo mundo: a gente, na idade da gente, com tudo que a gente passou, a gente tem a obrigação de ser feliz. Não é o direito, é a obrigação, sabe? Porque tudo que a gente já enfrentou, agora é uma hora de a gente se obrigar mesmo a ter felicidade, ter alegria, se envolver com coisas que nos façam, nos tragam e nos deixem levar em direção a esse sentimento.”
Talvez seja também isso que ela procura provocar quando pede às alunas que escrevam. Não apagar o que aconteceu. Não fingir juventude. Não negar as marcas do tempo.
Olhar para elas. Dar-lhes nome. Reescrevê-las a partir do lugar em que se está agora.
E compartilhar.

As alunas leem seus textos umas para as outras. São ouvidas e aplaudidas. Silvana entrou no projeto imaginando que ensinaria escrita. Quando perguntei o que aquelas mulheres haviam ensinado a ela, a resposta veio sem hesitação.
“A oportunidade de você ouvir essas histórias mexe muito com você e com todas as suas experiências pessoais. Então, você tinha histórias que se engraçavam com as suas, tinha outras que eram completamente diferentes em relação ao que você viveu, mas que te acrescentavam de um tamanho, sabe? Para que você possa acreditar em várias coisas que você tinha às vezes deixado de lado, com um pouco de desesperança. E aí vem essa esperança maior de que estamos conseguindo, essas pessoas estão conseguindo passar para mim e umas para as outras. Porque ali a gente faz os trabalhos, todas leem umas para as outras, todas são aplaudidas. Então, isso é uma disseminação dessa coisa boa, dessa coisa de uma vivência especial.”
“Para mim foi um presente”, resumiu. “Um grande presente.”
A entrevista terminou. O gravador foi desligado. Mas Silvana ainda não tinha terminado.
Fez questão de abrir o computador. Procurou entre seus arquivos os trabalhos produzidos pelas alunas. Queria mostrar o que aquelas mulheres haviam conseguido transformar em palavras.
Enquanto lia, os olhos se encheram de lágrimas. Não parecia a emoção de alguém simplesmente orgulhosa de ter ensinado uma técnica de escrita. Era o afeto de quem havia acompanhado uma pessoa para descobrir que sua própria história ainda merecia ser contada.










Orgulho da minha irmã querida, um grande exemplo de vida que me ajudou e ainda ajuda muito, assim como as outras duas queridas, Isabela e Eleonora!