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Coletivo Existir
Conferência Municipal do Coletivo Existir
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BAURU — Para Anderson Leno, presidente do Coletivo Existir de Bauru, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2026 representou mais do que a continuidade de um projeto político. Significou o afastamento de um cenário que, na avaliação do ativista, colocaria em risco direitos conquistados pela população LGBTQIA+ e poderia ampliar a violência contra grupos historicamente marginalizados.

Em entrevista exclusiva a O Progressista, realizada na terça-feira (27), Anderson Leno contou que o sentimento predominante entre integrantes da comunidade, antes da definição do resultado eleitoral, era de medo. A preocupação estava relacionada à possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro e às consequências que um eventual governo de extrema-direita poderia trazer para as políticas públicas de diversidade.

“Eu falo que antes da eleição acontecer e de ter a vitória do presidente Lula, a população LGBTQIA+, ela estava com medo, medo da sua existência! Porque quando você abre o plano de governo do Flávio, você não vê nada de políticas públicas para as pessoas LGBTQIA+ dentro do seu governo, isso aumentava ainda mais a nossa preocupação com o futuro.”

Segundo o dirigente, o temor ultrapassava a ausência de propostas específicas. Ele relata que circulavam preocupações sobre possíveis ataques a direitos assegurados por decisões do Supremo Tribunal Federal, incluindo o reconhecimento das uniões homoafetivas.

A possibilidade de retrocessos, associada à hostilidade que identifica no bolsonarismo, fez com que enxergasse a eleição como uma disputa pela própria segurança da comunidade.

“Então eu acho que não era só um risco para a democracia, mas também para a galera LGBTQIA+ e as suas minorias, era uma questão de risco de vida mesmo. Era um risco de existência dentro do Brasil.”

Moção de Aplauso para o Coletivo Existir
Moção de Aplauso para o Coletivo Existir

Anderson Leno relaciona esse temor aos episódios de violência registrados durante a campanha eleitoral em Bauru. Segundo ele, uma carreata em apoio ao presidente Lula foi marcada por disparos de arma de fogo e agressões contra mulheres, entre elas uma mãe de santo, reforçando a preocupação com a segurança e a intolerância religiosa.

Em vista disso, ele declara considerar que as consequências que viriam de uma derrota de Lula poderiam colocar em risco a própria integridade física de pessoas pertencentes à comunidade LGBTQIA+.

“Para nós, era uma questão de sobrevivência. O medo não era apenas de perder direitos, mas de perder vidas. Eu realmente acreditava que uma derrota poderia aumentar a violência contra a população LGBTQIA+”

Para Anderson Leno, a vitória eleitoral afastou essa ameaça percebida, mas não eliminou os obstáculos enfrentados cotidianamente por pessoas LGBTQIA+, sobretudo nas cidades onde, segundo ele, as políticas públicas continuam insuficientes.

Em Bauru, a luta por direitos continua

A análise do presidente do Coletivo Existir sobre a realidade municipal é marcada por críticas à administração da prefeita Suéllen Rosim. Anderson Leno considera que Bauru não oferece uma estrutura adequada para atender às demandas da população LGBTQIA+ e questiona as prioridades políticas do governo local.

Integrante do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual e Gênero (CADS), ele reconhece a existência do órgão, mas avalia que seu alcance é limitado diante das necessidades da comunidade.

“Bauru ainda precisa avançar muito nas políticas públicas para a população LGBTQIA+. Temos o CADS, do qual faço parte, mas sua atuação é limitada diante das necessidades da comunidade.”

Posse no CADS
Posse no CADS

A crítica recai especialmente sobre a ausência de uma secretaria municipal dedicada à população LGBTQIA+. Anderson Leno questiona por que, em uma reorganização administrativa que, segundo ele, ampliou o número de secretarias, não foi criado um órgão específico para a diversidade sexual.

“Bauru tem 17 secretarias municipais, mas nenhuma dedicada especificamente à população LGBTQIA+. Temos um conselho, mas precisamos avançar. Não basta reconhecer nossos direitos no papel. É necessário garantir estrutura, orçamento e políticas públicas que realmente cheguem à população.”

Vale destacar que a estrutura institucional do município inclui o conselho e um fundo destinado às políticas LGBTQIA+, porém Anderson Leno destaca que a capacidade de essas estruturas produzirem ações concretas é praticamente mínima.

O dirigente também questiona a vinculação dessas demandas à assistência social, argumentando que a garantia de direitos LGBTQIA+ precisa atravessar diferentes áreas da administração pública.

“Já ouvi dizer que as políticas para a população LGBTQIAPN+ estão dentro da assistência social. Mas a nossa existência não se resume à vulnerabilidade. A assistência social é importante, claro, mas a gente também precisa de saúde, educação, segurança, cultura e oportunidades de trabalho. Se fosse só uma questão de assistência social, não existiria uma secretaria nacional voltada à nossa população. O que a gente quer são políticas públicas de verdade, com estrutura, investimento e que funcionem na prática.”

Anderson Leno também denuncia o enfraquecimento financeiro da Semana da Diversidade de Bauru, evento previsto em lei municipal desde 2010. A crítica encontra respaldo em registros da própria Câmara Municipal, que reconheceu, em fevereiro de 2026, que a programação não vinha sendo plenamente executada nos últimos anos.

“A cada ano, a Prefeitura de Bauru vem diminuindo os recursos para a Semana da Diversidade, e isso acaba prejudicando a programação. Estamos falando de uma conquista histórica da população LGBTQIAPN+, que é garantida por lei. Mas não adianta ter uma lei se não tem dinheiro para fazer o evento acontecer. A Semana da Diversidade precisa de investimento e compromisso da Prefeitura, não pode ser só mais uma data no calendário”, afirmou.

O problema não é recente. Em junho de 2024, um registro publicado no Diário Oficial já apontava a ausência de recursos específicos na Secretaria Municipal de Assistência Social para determinadas despesas da Semana da Diversidade, além de limitações no apoio da Secretaria de Cultura.

A justificativa orçamentária, contudo, não encerra a discussão. Ao contrário, levanta uma pergunta que a gestão Suéllen Rosim precisa responder: por que um evento instituído por lei e destinado à promoção dos direitos LGBTQIA+ enfrenta dificuldades recorrentes para garantir sua programação? A ausência de previsão financeira suficiente não é um fenômeno inevitável, mas uma questão de planejamento e definição de prioridades do poder público.

Anderson Leno destaca o papel histórico da Parada da Diversidade na economia e na vida cultural de Bauru. Para ele, eventos dessa natureza não podem ser vistos apenas como manifestações de determinados segmentos sociais, pois também movimentam a rede hoteleira, o comércio e diversos setores de serviços.

“A Parada da Diversidade não é apenas um evento. Ela movimenta o comércio, a rede hoteleira e a economia de Bauru. Infelizmente, acredito que a prefeita Suéllen Rosim ainda não compreendeu essa importância.”

É nesse contexto que coletivos da cidade como o Existir precisam existir para pressionar o poder público e garantir que a Prefeitura destine o que for necessário para que eventos como a Parada não se enfraqueça e nem deixem de existir.

Coletivo existir no Lançamento da Parada de 2025
Coletivo existir no Lançamento da Parada de 2025

A atuação do Coletivo Existir

O trabalho desenvolvido pelo Coletivo Existir, presidido por Anderson Leno, vai além da defesa dos direitos LGBTQIAPN+, abrangendo também o acolhimento e a defesa dos direitos de mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência. Em Bauru, a entidade tem ampliado sua atuação por meio de iniciativas culturais, sociais e políticas, com destaque para a 19ª Semana e Parada da Diversidade, que reuniu um público estimado em 8 mil pessoas em 2026.

Entre as ações realizadas estão o 1º Sarau Existir, o evento “Vozes por Elas”, campanhas de incentivo à doação de sangue e o encontro “Refundar Bauru”, que contou com a participação da deputada federal Erika Hilton e reuniu cerca de 2 mil pessoas. O coletivo também atua no enfrentamento à LGBTfobia, na promoção da inclusão e na defesa dos direitos humanos, consolidando sua presença como uma importante organização social da cidade.

Coletivo Existir
Anderson Leno com a Deputada Federal Erika Hilton (PSOL) em Bauru

Para Anderson, essas iniciativas demonstram a importância dos movimentos sociais na construção de uma cidade mais inclusiva, especialmente diante das dificuldades enfrentadas para garantir políticas públicas permanentes à população LGBTQIAPN+.

Ele conta que a inclusão desse último grupo ocorreu a partir de uma demanda apresentada por uma pessoa que procurou o coletivo e questionou por que a organização ainda não contemplava formalmente a população PCD.

“Foi a partir dessa demanda que percebemos que o Coletivo Existir precisava ampliar sua atuação e incluir também as pessoas com deficiência. Porque, quando a gente fala de diversidade e inclusão, precisa olhar para todo mundo. Hoje, essa pauta faz parte do nosso trabalho e mostra que a luta por direitos deve ser de todas as pessoas.”

Campanha de doação de sangue realizada pelo coletivo existir
Campanha de doação de sangue realizada pelo coletivo existir

Entre os episódios que mais marcaram a atuação da organização, Anderson Leno destaca uma denúncia contra um médico que teria associado a orientação sexual masculina ao consumo de água.

O presidente do coletivo relata que o profissional divulgou nas redes sociais uma explicação sem fundamento científico sobre a suposta influência de substâncias presentes na água sobre a sexualidade e chegou a recomendar um filtro.

“Ele chega a afirmar que esse filtro deve ser utilizado para impedir que uma pessoa se torne gay. Diante dessa declaração, o Coletivo Existir, em parceria com o Instituto Thaís Viotto, decidiu tomar providências. Protocolamos uma denúncia à Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero e à comissão de Direitos Humanos da OAB Bauru e também encaminhamos o caso ao Conselho Federal de Medicina, para que os fatos sejam apurados e as medidas cabíveis sejam adotadas.”

Segundo Anderson, a OAB chegou a se manifestar sobre a denúncia, enquanto ele não recebeu retorno do órgão profissional mencionado.

O episódio é apresentado como exemplo da importância de organizações que acompanham violações de direitos, acolhem denúncias e procuram as instituições responsáveis pela fiscalização.

Protocolo na CREMESP
Protocolo na CREMESP

“Eu sou filho de políticas públicas”

Quando Anderson Leno recorda a infância marcada por dificuldades financeiras e o impacto dos programas federais em sua trajetória, ele faz questão de destacar a importância das políticas públicas em sua vida.

Filho de uma família que enfrentou períodos de insegurança alimentar, ele conta que o Bolsa Família teve papel fundamental na sobrevivência de sua mãe e de seus três filhos.

“Eu sou filho de políticas públicas. Minha mãe recebeu bolsa família num período em que a gente não tinha o que comer dentro de casa.”

O dirigente afirma que essa experiência moldou sua compreensão sobre a importância das políticas de transferência de renda, frequentemente atacadas por discursos que associam seus beneficiários à falta de disposição para trabalhar.

“Quando alguém diz que o Bolsa Família é para vagabundo, é porque não conhece a realidade de quem precisa. Minha mãe criou três filhos e houve momentos em que não tínhamos o que comer. Foi esse dinheiro que colocou comida na nossa mesa. Eu não defendo políticas públicas apenas por ideologia. Eu sou filho delas.”

Anos depois, Anderson Leno ingressou no ensino superior por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni), obtendo uma bolsa para cursar Ciências Contábeis.

A possibilidade de frequentar uma universidade contrariava as expectativas que cercavam sua realidade familiar. Leno recorda que ouviu do próprio familiar que deveria abandonar os estudos porque, sendo pobre, seu destino seria trabalhar em uma fábrica. Em Cabrália Paulista, uma fábrica de caixões era apontada como uma das possibilidades de emprego.

“Leno, para de estudar que você é pobre. Pobre não faz faculdade, pobre trabalha em fábrica”, diz ele replicando uma fala do familiar.

O ativista conta que concluiu a graduação, ingressou em uma multinacional, estudou inglês e espanhol e construiu uma carreira profissional que antes parecia inacessível.

“Venho de uma família em que ninguém tinha ensino superior. Quando consegui entrar na faculdade, foi uma experiência completamente nova, não apenas para mim, mas para toda a minha família.”

A trajetória ajuda a explicar sua defesa das políticas públicas como instrumentos de transformação social. Para Anderson Leno, o acesso à renda e à educação permitiu romper com limitações econômicas que atravessavam gerações de sua família.

Sua experiência também aparece na crítica a setores que, segundo ele, resistem à ampliação do acesso dos trabalhadores a espaços historicamente reservados às camadas mais ricas da população. A defesa dessas conquistas, em sua avaliação, é inseparável da luta política contemporânea.

Lançamento do Coletivo Existir 
03 Novembro de 2024
Lançamento do Coletivo Existir
03 Novembro de 2024

O futuro da esquerda passa pelas ruas

Apesar do alívio com o resultado eleitoral, Anderson Leno considera que o próximo governo Lula enfrentará dificuldades para avançar em sua agenda diante da composição conservadora do Congresso Nacional.

O presidente do Coletivo Existir acredita que o protagonismo dos movimentos populares será indispensável para pressionar o Legislativo e garantir a continuidade das políticas sociais.

“A eleição acabou, mas a nossa luta continua. Não adianta só votar e esperar que tudo aconteça. A gente sabe que, com um Congresso majoritariamente de direita, o Lula não vai conseguir fazer tudo sozinho. Por isso, precisamos continuar nas ruas, com os movimentos sociais, os sindicatos e a população mobilizada, cobrando mudanças e lutando pelos nossos direitos. Porque a política não acaba depois da eleição.”

Para ele, a mobilização que ganhou força durante o segundo turno demonstrou que a sociedade organizada possui capacidade de interferir nas disputas políticas.

Mas Anderson Leno também considera que os partidos de esquerda precisam rever sua relação com as redes sociais e com as novas gerações.

O ativista critica a demora do campo progressista em reconhecer a importância da comunicação digital e argumenta que esse trabalho não pode ficar restrito às semanas que antecedem uma eleição.

“A esquerda demorou muito pra ocupar a rede social. Precisou de um segundo turno turbulento para gente entender o que é rede social.”

Sua análise inclui uma cobrança por renovação das lideranças políticas. Anderson questiona a permanência prolongada de parlamentares nos mesmos cargos e a dificuldade de abrir espaço para novas candidaturas.

“A esquerda precisa se renovar. Você olha para o PT e outros partidos e encontra os mesmos nomes há décadas. Mas onde estão as novas lideranças? Onde está a juventude? Não podemos querer transformar a sociedade fazendo política sempre do mesmo jeito.”

Ele também questiona a distribuição de recursos eleitorais e a tendência de privilegiar candidaturas tradicionais, em vez de investir na formação de novas lideranças.

“Não adianta falar em renovação política se, na hora de distribuir os recursos eleitorais, os partidos continuam priorizando quem já está no poder. Precisamos dar oportunidades reais para que novas lideranças possam surgir e disputar eleições.”

As críticas, no entanto, não significam um afastamento de seu campo político. Elas aparecem associadas à defesa de uma esquerda que, em sua avaliação, precisa manter a relação com as classes populares, ampliar a participação da juventude e compreender as mudanças na comunicação política.

Uma vitória construída pela mobilização

Na avaliação de Anderson Leno, a articulação entre redes sociais e mobilização nas ruas foi determinante para o sentimento de unidade que marcou o segundo turno.

Ele relata que um vídeo publicado durante uma manifestação em Bauru alcançou aproximadamente 500 mil visualizações, segundo dados que afirma ter observado na própria publicação.

O número é citado como exemplo de como uma manifestação local pode alcançar públicos muito maiores quando circula pelas plataformas digitais.

“Eu subi um vídeo da manifestação que a gente fez aqui, a primeira, bateu quinhentas mil visualizações, o primeiro vídeo. Se eu não faço, como que essas outras pessoas iriam ver?”

Anderson acredita que essa circulação ajudou a transmitir segurança a pessoas que estavam receosas diante do cenário eleitoral, inclusive aquelas que ainda não haviam decidido seu voto.

Em sua interpretação, a presença da juventude nas ruas, associada à ampla divulgação das manifestações, contribuiu para produzir um sentimento de pertencimento coletivo.

“Eu acho que o medo é uma das piores coisas. Quando a pessoa sente medo, ela acaba se afastando. Mas quando vê tanta gente unida, lutando pela mesma causa, ela se sente acolhida, ganha coragem e vai junto.”

A percepção de Anderson sobre o segundo turno está ligada à própria experiência de vida. Alguém que cresceu em uma família beneficiária do Bolsa Família, conseguiu ingressar no ensino superior pelo ProUni e hoje atua na defesa dos direitos LGBTQIA+. Por isso, ele reconhece nas políticas públicas e na organização popular elementos fundamentais de transformação social.

Para ele, a vitória de Lula afastou um cenário de ameaça, mas não eliminou a necessidade de participação política permanente.

O próximo desafio, segundo sua avaliação, será transformar a força demonstrada durante a eleição em conquistas concretas para a população, tanto na esfera federal quanto nos municípios.

A democracia, nessa perspectiva, não termina com a contagem dos votos. Ela precisa se traduzir em direitos, proteção e oportunidades para aqueles que historicamente tiveram sua presença nos espaços de poder limitada.

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