O planeta está a caminho de ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento em relação ao período pré-industrial, e evitar que essa superação se transforme em um cenário permanente exigirá uma redução muito mais rápida das emissões de gases de efeito estufa. Segundo relatório divulgado nesta quarta-feira (21) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as emissões globais precisam cair 18% até 2030 e 45% até 2035, tomando 2025 como referência.
O novo Emissions Gap Report 2026, intitulado The Point of Return, parte de uma constatação que marca uma mudança importante no debate climático: já não é mais possível manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C sem ultrapassar temporariamente esse patamar. O desafio agora é limitar a intensidade e a duração dessa superação e fazer a temperatura retornar ao limite estabelecido pelo Acordo de Paris até o fim do século.
No cenário considerado mais favorável pelo PNUMA, o aquecimento chegaria a um pico entre 1,7°C e 1,8°C por volta da metade do século e depois recuaria para 1,5°C ou menos até 2100. Para isso, além da queda de 45% nas emissões até 2035, seria necessário alcançar uma redução de 69% até 2040.
O problema é que os compromissos assumidos atualmente pelos governos estão muito distantes desse caminho. Mesmo se todas as Contribuições Nacionalmente Determinadas, as chamadas NDCs, forem cumpridas integralmente, as emissões cairiam apenas entre 5% e 8% até 2030 e entre 11% e 15% até 2035. Nesse cenário, o aquecimento global ainda chegaria a cerca de 2,6°C ao longo deste século.
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Se as políticas atualmente em vigor continuarem sem mudanças suficientes, a projeção é ainda pior: 2,8°C de aquecimento. O relatório afirma que as estimativas se deterioraram em relação ao ano passado, entre outros fatores, pela retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e pela revisão dos cálculos sobre emissões históricas. As novas metas climáticas apresentadas pelos países desde o relatório anterior tiveram impacto considerado praticamente insignificante sobre a trajetória global.
Até mesmo o cenário mais otimista, em que todos os compromissos nacionais e metas adicionais de neutralidade de carbono fossem cumpridos, limitaria o aquecimento a aproximadamente 2,1°C. Segundo o PNUMA, cada cinco anos mantendo as emissões de dióxido de carbono nos níveis atuais acrescentam cerca de 0,1°C à temperatura máxima que o planeta poderá atingir.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a ultrapassagem de 1,5°C não significa que a meta deva ser abandonada. Para ele, a prioridade passa a ser reduzir ao máximo o período acima desse limite e acelerar cortes capazes de recolocar o planeta abaixo de 1,5°C até o final do século.
A conta deixada por décadas de atraso, porém, não dependerá apenas da redução das emissões futuras. O cenário mais favorável analisado pelo relatório exige retirar da atmosfera e armazenar permanentemente aproximadamente 320 bilhões de toneladas de CO₂ ao longo do século — volume equivalente a cerca de oito anos das emissões globais de dióxido de carbono registradas em 2024. O próprio PNUMA alerta que existem incertezas tecnológicas e socioeconômicas sobre a possibilidade de realizar essa remoção na escala necessária.
O relatório também mostra que as soluções já disponíveis não avançam na velocidade necessária. Para manter aberta a possibilidade de retorno a 1,5°C, a participação do carvão na oferta mundial de energia precisaria cair pelo menos 55% até 2035, enquanto petróleo e gás teriam de recuar 15% e 5%, respectivamente. A geração elétrica a carvão teria de diminuir ao menos 75% no mesmo período e praticamente desaparecer até 2040.
Ao mesmo tempo, o avanço das energias renováveis mostra que a redução rápida das emissões é tecnicamente possível. Desde o Acordo de Paris, a capacidade global de eletricidade renovável cresceu três vezes mais rápido do que se previa, enquanto a expansão da energia solar foi sete vezes superior às projeções anteriores. Para o PNUMA, o obstáculo central deixou de ser a ausência de alternativas e passou a ser a escala e a velocidade com que os governos estão dispostos a implementá-las.
O alerta de 2026, portanto, é mais duro do que simplesmente afirmar que o planeta está fora da trajetória climática prometida. A margem para evitar a ultrapassagem de 1,5°C foi consumida. O que resta agora é decidir quanto o planeta irá aquecer, por quanto tempo e quantos danos ainda poderão ser evitados.


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