Um grupo de 146 pesquisadores de mais de 30 países pediu que a crise climática seja reconhecida oficialmente como uma emergência global de saúde pública. A reivindicação acompanha a divulgação, nesta quarta-feira (28), de um novo relatório da Lancet Countdown, elaborado em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que aponta o agravamento dos impactos das mudanças climáticas sobre a saúde da população mundial.
De acordo com o levantamento, quase 3 milhões de mortes relacionadas ao calor entre 2016 e 2023 podem ser atribuídas às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana. Somente em 2023, as altas temperaturas estiveram associadas a aproximadamente 710 mil mortes, das quais mais de 70% foram relacionadas ao aquecimento global.
O estudo também identificou um aumento de quase 36% na média anual de mortes associadas ao calor na década posterior à entrada em vigor do Acordo de Paris, em comparação com os dez anos anteriores. Os pesquisadores apontam que os impactos sobre a saúde avançaram mais rapidamente do que as medidas adotadas pelos governos para enfrentar a crise climática.
O relatório reúne 54 indicadores relacionados à saúde e ao clima, incluindo mortalidade, exposição a temperaturas extremas, segurança alimentar, disponibilidade de água e efeitos econômicos. A pesquisa foi coordenada pela University College London (UCL), com a participação de instituições científicas internacionais.
Além das mortes provocadas pelo calor, os pesquisadores registraram uma expansão das secas extremas. Em 2025, aproximadamente 51,8% da superfície terrestre mundial enfrentou condições de seca extrema durante pelo menos um mês, o segundo maior percentual já registrado.
A redução da disponibilidade de água afeta diretamente a produção de alimentos, as condições sanitárias e o abastecimento das populações. O relatório também aponta o aumento da exposição a chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, fenômenos que ampliam os riscos de doenças e acidentes.
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Outro dado apresentado pelos pesquisadores envolve as condições de trabalho. Em 2025, a exposição a temperaturas elevadas provocou a perda estimada de 573 bilhões de horas potenciais de trabalho em todo o mundo. O impacto econômico foi calculado em US$ 1,07 trilhão em rendimentos potenciais, com perdas concentradas principalmente em países de baixa e média renda.
Os setores de agricultura e construção civil estão entre os mais afetados, devido à exposição dos trabalhadores às altas temperaturas. Segundo o Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que participou do levantamento, a intensificação do calor compromete a produtividade e amplia os riscos à saúde durante a jornada de trabalho.
O avanço das mudanças climáticas também modifica as condições de propagação de doenças infecciosas. O estudo identificou ambientes cada vez mais favoráveis à circulação de mosquitos transmissores de enfermidades como dengue e malária, além de riscos relacionados à contaminação da água e à insegurança alimentar.
Os impactos são particularmente elevados em populações socialmente vulneráveis, que frequentemente dispõem de menos recursos para enfrentar ondas de calor, períodos prolongados de seca e eventos climáticos extremos.
A diretora-executiva da Lancet Countdown, Marina Romanello, afirmou que os danos provocados pelas mudanças climáticas sobre a saúde estão aumentando mais rapidamente do que a capacidade de resposta mundial. Segundo a pesquisadora, a situação exige que a proteção da saúde passe a orientar as decisões dos governos sobre energia, emissões de gases de efeito estufa e financiamento climático.
O levantamento também examinou a atuação da indústria de combustíveis fósseis. De acordo com os pesquisadores, os planos de produção das cem maiores empresas de petróleo e gás do mundo para 2040 superam em 150% o volume considerado compatível com o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.
Apesar desse cenário, o relatório registra avanços relacionados à transição energética. Os investimentos mundiais em energia limpa alcançaram US$ 2,1 trilhões em 2025, enquanto a redução da poluição atmosférica associada aos combustíveis fósseis contribuiu para evitar mortes prematuras em diferentes países.
Os autores defendem que a OMS desenvolva instrumentos específicos para coordenar uma resposta internacional aos impactos sanitários da crise climática. Entre as medidas propostas estão a redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa, a ampliação dos sistemas de alerta para eventos extremos e o financiamento de políticas de adaptação.
Os cientistas também recomendam que os recursos destinados à proteção da saúde nos países mais vulneráveis sejam concedidos prioritariamente por meio de doações, evitando o aumento do endividamento público.
A publicação ocorre às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), prevista para novembro, na Turquia. Os pesquisadores defendem que os efeitos do aquecimento global sobre a saúde sejam incorporados às negociações internacionais e às decisões de investimento dos governos.


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