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Eleições brasileiras
Foto: Alan Santos/PR | Agência Brasil

Donald Trump utilizou tarifas comerciais, sanções econômicas e pressão diplomática contra instituições brasileiras em questões diretamente relacionadas à família Bolsonaro entre 2025 e 2026, enquanto seu governo ampliava os contatos com Flávio Bolsonaro durante a corrida presidencial. A ofensiva foi denunciada por parlamentares dos próprios Estados Unidos como uma campanha de interferência no Brasil e, às vésperas da votação, passou a ser tratada pela inteligência brasileira como uma ameaça externa ao processo eleitoral.

No domingo, 4 de outubro, Flávio terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Os documentos acessados por essa reportagem mostram que Washington decidiu empregar parte de seu poder econômico e diplomático para pressionar o ambiente político em que essa eleição seria disputada, o que pode ter interferido diretamente no resultado da votação.

É importante frisar que Flávio chegou às urnas sob investigação aberta no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de Dark Horse, projeto de filme sobre Jair Bolsonaro.

A investigação, autorizada pelo ministro André Mendonça a pedido da Polícia Federal e com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República, envolve transações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a um fundo nos Estados Unidos associado a Eduardo Bolsonaro. Poucos meses antes da eleição, em maio, Flávio havia sido recebido por Trump em uma reunião fechada no Salão Oval, acompanhado por Eduardo e Paulo Figueiredo. A Reuters registrou o encontro enquanto o senador buscava consolidar sua candidatura presidencial.

Quando uma disputa brasileira virou política de Estado americana

A mudança de escala começou ainda em 2025. Em julho daquele ano, Trump vinculou publicamente sua política comercial com o Brasil ao processo contra Jair Bolsonaro. Em 30 de julho, uma ordem executiva da Casa Branca declarou uma emergência nacional envolvendo o Brasil e estabeleceu tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos, elevando a cobrança total a 50%. Na justificativa, o governo americano acusou autoridades brasileiras de perseguirem Bolsonaro e afirmou que os processos contra o ex-presidente ameaçavam, entre outras coisas, a capacidade do Brasil de realizar uma eleição presidencial “livre e justa” em 2026.

A formulação colocou formalmente a disputa judicial envolvendo o principal líder da direita brasileira dentro da justificativa para uma punição econômica imposta por Washington. No mesmo dia, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos aplicou sanções da Global Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes e citou nominalmente as ações contra Jair Bolsonaro. Dois instrumentos diferentes do Estado americano — política comercial e sanções financeiras — passaram, assim, a operar sobre uma disputa política e institucional interna do Brasil.

Infográfico mostra, em ordem cronológica, tarifas, sanções, encontros políticos e denúncias de interferência dos Estados Unidos no Brasil entre 2025 e 2026, até a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
Infográfico mostra, em ordem cronológica, tarifas, sanções, encontros políticos e denúncias de interferência dos Estados Unidos no Brasil entre 2025 e 2026, até a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

A interpretação de que Washington havia ultrapassado os limites da pressão diplomática começou a aparecer dentro do próprio Congresso americano ainda em julho de 2025. Onze senadores democratas, liderados por Jeanne Shaheen e Tim Kaine, enviaram uma carta a Trump após o anúncio das tarifas contra o Brasil. No documento, publicado pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, os parlamentares acusaram o presidente de utilizar o poder econômico americano para pressionar o sistema de Justiça brasileiro em favor de Jair Bolsonaro.

Shaheen, Kaine e os demais signatários foram além de uma crítica à política tarifária. Na carta, os senadores acusaram diretamente Trump de utilizar a capacidade econômica dos Estados Unidos para favorecer Jair Bolsonaro:

“Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder.” — Jeanne Shaheen, Tim Kaine e outros senadores dos Estados Unidos, em tradução do O Progressista.

Os parlamentares advertiram ainda que empregar instrumentos comerciais para pressionar o sistema jurídico de outro país soberano estabelecia um precedente perigoso para a própria política externa americana.

A acusação se tornou ainda mais direta às vésperas da eleição brasileira. Em 24 de setembro de 2026, as deputadas Delia Ramirez e Pramila Jayapal e o deputado Jesús “Chuy” García, acompanhados pelo senador Bernie Sanders e outros parlamentares, enviaram uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio. O diagnóstico apresentado pelos congressistas praticamente antecipava a discussão que passaria a dominar a relação entre Brasília e Washington:

“Durante o segundo mandato de Trump, vimos autoridades dos Estados Unidos conduzirem uma campanha contínua e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil.” — Delia Ramirez, Pramila Jayapal, Jesús “Chuy” García, Bernie Sanders e demais signatários, em tradução do O Progressista.

O documento, divulgado pelo gabinete de Delia Ramirez, não se limitava às tarifas e sanções aplicadas em 2025. Os parlamentares mencionavam iniciativas adotadas já durante o processo eleitoral e questionavam se Washington reconheceria o resultado oficialmente certificado pelas autoridades brasileiras, independentemente do vencedor. Segundo a própria carta, os movimentos da administração indicavam uma “aparente tentativa de interferir e potencialmente minar a eleição geral brasileira”.

Cinco dias depois, em 29 de setembro, Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch voltaram ao tema em uma nova carta enviada a Marco Rubio. Desta vez, os senadores relacionaram tarifas, sanções e aproximações políticas da administração Trump a uma campanha destinada a pressionar instituições brasileiras. Também citaram a reunião entre Trump e Flávio Bolsonaro no Salão Oval em pleno ano eleitoral.

Mais importante para compreender o alcance da denúncia, os três senadores não apresentaram o Brasil como um caso isolado. Na carta publicada pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado, Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch relacionaram a atuação de Washington a outras eleições latino-americanas e fizeram uma crítica direta ao comportamento do próprio governo americano:

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“Hoje, em vez de ajudar a defender a democracia brasileira, os Estados Unidos usam pressão diplomática, econômica e política que arrisca enfraquecer suas instituições democráticas.” — Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch, em tradução do O Progressista.

Para os três senadores, o Brasil fazia parte de um “padrão mais amplo e profundamente preocupante de interferência” que também podia ser observado na Argentina, em Honduras e na Colômbia. O diagnóstico, portanto, já não vinha apenas de Brasília. Membros do próprio Legislativo americano acusavam o Executivo de seu país de utilizar instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos para atuar sobre uma eleição estrangeira.

No dia seguinte à carta dos três senadores, a preocupação ganhou dimensão institucional também no Brasil. Em 30 de setembro, a Reuters revelou que integrantes da Agência Brasileira de Inteligência haviam informado representantes da França e da Alemanha sobre suposta interferência americana e russa no processo eleitoral. Segundo um relatório das reuniões consultado pela agência, representantes da Abin descreveram a atuação atribuída aos Estados Unidos como indo de lawfare a ações “abertamente reconhecidas”.

A avaliação da inteligência brasileira não constitui comprovação judicial de todas as acusações, mas mostra que, poucos dias antes da votação, a possibilidade de ingerência americana já havia ultrapassado o embate partidário e entrado no monitoramento institucional da eleição.

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De Bannon às ferramentas de uma superpotência

A relação entre bolsonarismo e trumpismo, entretanto, é anterior ao segundo governo Trump. Em agosto de 2018, durante a campanha que levaria Jair Bolsonaro ao Planalto, Eduardo Bolsonaro encontrou Steve Bannon em Nova York. Eduardo afirmou posteriormente que ambos compartilhavam a “mesma visão de mundo” e pretendiam “somar forças”. Dois dias antes do segundo turno, Bannon, já fora da Casa Branca, declarou apoio formal a Bolsonaro.

O episódio revela a formação de uma rede política transnacional na qual estratégias, discursos e atores da nova direita passaram a circular entre Brasil e Estados Unidos. O que em 2018 funcionava principalmente como conexão ideológica e política ganharia, sete anos depois, acesso às ferramentas formais de uma superpotência. Tarifas, Tesouro, Departamento de Estado, sanções financeiras e acesso presidencial substituíram a informalidade das primeiras aproximações.

O Brasil não é exceção

A própria carta de Shaheen, Kaine e Welch fornece a ponte para compreender essa transformação como fenômeno regional. Na Argentina, Trump condicionou publicamente a continuidade do apoio americano ao desempenho político do grupo de Javier Milei nas eleições legislativas de 2025, enquanto o Tesouro dos Estados Unidos mantinha um acordo de estabilização de US$ 20 bilhões com o Banco Central argentino. Durante encontro na Casa Branca, Trump resumiu sua posição: se Milei vencesse, Washington permaneceria ao seu lado; caso contrário, os Estados Unidos iriam embora.

Em Honduras, Trump endossou Nasry Asfura antes da eleição presidencial, ameaçou retirar apoio financeiro americano se ele não vencesse e, durante uma apuração marcada por atrasos e contestações, voltou a intervir publicamente. Asfura terminou declarado vencedor por 40,3% contra 39,5%. O presidente americano também havia concedido perdão a Juan Orlando Hernández, ex-presidente do mesmo Partido Nacional de Asfura, condenado nos Estados Unidos por narcotráfico e crimes relacionados a armas.

Na Colômbia, Trump endossou Abelardo de la Espriella antes do segundo turno e, depois da vitória, não escondeu como interpretava a própria influência. Em declaração registrada oficialmente pelo governo americano, afirmou: “Eu o endossei. Ele estava em décimo lugar. Eu o endossei e ele venceu a eleição”, em tradução do O Progressista.

Nenhum desses episódios permite calcular quantos votos foram efetivamente deslocados pela atuação americana. Juntos, entretanto, mostram a repetição de uma caixa de ferramentas: endosso presidencial, assistência financeira, ameaça econômica, sanções e utilização da relação bilateral como parte da disputa doméstica.

Infográfico compara ações de Donald Trump no Brasil, Argentina, Honduras e Colômbia, com uso de tarifas, sanções, apoio financeiro, endossos presidenciais e pressão diplomática sobre disputas eleitorais.
Infográfico compara ações de Donald Trump no Brasil, Argentina, Honduras e Colômbia, com uso de tarifas, sanções, apoio financeiro, endossos presidenciais e pressão diplomática sobre disputas eleitorais.

Uma doutrina para o hemisfério

A sequência de episódios encontra uma formulação política explícita na própria estratégia oficial americana. A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025 dedica sua seção sobre o Hemisfério Ocidental ao chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe” e estabelece como objetivo restaurar a “preeminência americana” na região.

Mais adiante, o documento afirma que Washington deverá recompensar e incentivar governos, partidos políticos e movimentos alinhados aos princípios e à estratégia dos Estados Unidos. Também define tarifas e acordos comerciais como ferramentas de poder.

A formulação é importante porque retira os episódios do campo das coincidências. A política externa do segundo governo Trump não apenas mantém relações preferenciais com governos ideologicamente próximos. Seu próprio documento estratégico admite como objetivo fortalecer atores políticos considerados alinhados à estratégia americana.

Isso não significa que Washington tenha criado a direita brasileira, determinado o resultado de 2018 ou colocado sozinho Flávio Bolsonaro na liderança em 2026, uma vez que outros fatores como o avanço evangélico, também reportado pelo O Progressista, contribuíram para essa condição. Todavia, com as ações apresentadas nessa reportagem e os fatos comprovados nas interferências das democracias latino-americanas, fica evidente que o governo americano decidiu usar parte de sua capacidade econômica e diplomática para modificar o ambiente em que essas disputas acontecem.

O problema atinge diretamente a ideia de soberania democrática. O artigo 19 da Carta da Organização dos Estados Americanos proíbe intervenções diretas ou indiretas nos assuntos internos de outro Estado. O artigo seguinte veda medidas coercitivas de caráter econômico ou político destinadas a forçar a vontade soberana de um país. A Carta Democrática Interamericana, por sua vez, reconhece eleições livres e justas como expressão da soberania popular.

Quando tarifas, sanções, crédito e relações diplomáticas passam a ser mobilizados de acordo com a conveniência eleitoral de uma potência estrangeira, os votos continuam sendo depositados pelos cidadãos, mas o terreno em que a escolha ocorre deixa de ser exclusivamente nacional.

O avanço internacional da extrema-direita produz, assim, um risco que ultrapassa a vitória ou a derrota de um candidato. Em países do Sul Global, marcados por relações econômicas e diplomáticas profundamente assimétricas com Washington, a normalização desse tipo de intervenção cria uma ordem na qual aliados podem ser recompensados enquanto governos e instituições que contrariem os interesses da potência passam a enfrentar custos externos.

Trump não precisa escolher diretamente o próximo presidente brasileiro para interferir nesse equilíbrio. Basta estabelecer que determinadas escolhas políticas receberão benefícios enquanto outras poderão produzir sanções, tarifas ou isolamento. Nesse cenário, o que está em disputa não é apenas quem vence uma eleição. É até onde um país formalmente soberano continua livre para decidir seus próprios rumos quando uma potência estrangeira transforma seu peso econômico e diplomático em instrumento da disputa política interna.


Como apuramos

O Progressista analisou o resultado oficial do primeiro turno divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral; a ordem executiva da Casa Branca sobre o Brasil; o comunicado do Departamento do Tesouro sobre as sanções a Alexandre de Moraes; as cartas de parlamentares publicadas pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado americano em julho de 2025, pelo gabinete da deputada Delia Ramirez em setembro de 2026 e novamente pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado em 29 de setembro; a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025; a Carta da OEA e a Carta Democrática Interamericana. Para reconstruir encontros políticos, investigações e episódios envolvendo Brasil, Argentina, Honduras e Colômbia, também foram consultadas reportagens da Reuters, incluindo a apuração sobre o alerta da Abin a representantes franceses e alemães. As citações originalmente publicadas em inglês foram traduzidas pelo O Progressista, com preservação do sentido original.

José Carlos Sanchez Jr.

José Carlos Sanchez Jr.

Jornalista especializado em políticas públicas, desigualdade, Estado, democracia e direitos, com atuação em reportagens baseadas em dados, documentos públicos e análise de impacto social.

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