As eleições de 4 de outubro produziram uma mudança importante no equilíbrio de forças do Congresso sem provocar uma queda equivalente da esquerda. Enquanto esse campo manteve praticamente o mesmo número de deputados, a direita mais radical avançou sobre espaços antes ocupados pelo centro e pela centro-direita, levou o PL à maior bancada da Câmara e construiu uma posição inédita no Senado. O movimento ocorreu em um Brasil que se tornou mais evangélico na última década e depois de anos em que igrejas, pastores e lideranças cristãs ganharam peso crescente na organização política da direita.
O PL foi o principal vencedor dessa recomposição. De acordo com os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, o partido recebeu cerca de 25,8 milhões de votos para deputado federal, equivalente a 22,7% dos votos partidários válidos e elegeu 121 deputados. Em 2022, o partido já havia conquistado 97 cadeiras.
Mas o crescimento não ficou restrito à Câmara. Das 54 vagas para o Senado disputadas neste ano, 19 foram conquistadas pelo PL. Somadas aos mandatos que continuam, serão 28 dos 81 senadores a partir de 2027, a maior bancada de um partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988, segundo levantamento publicado pelo Senado Federal.
A dimensão dessa vitória aparece com mais clareza quando o resultado é observado não apenas por partido, mas pela posição ideológica ocupada pelas legendas. O estudo “O desaparecimento do centro ideológico no sistema partidário brasileiro: a classificação mais atualizada dos experts”, publicado pela revista acadêmica Opinião Pública, posiciona PL, Republicanos, União Brasil e Novo no polo de extrema direita do sistema partidário brasileiro. Juntos, os quatro elegeram 218 deputados federais em 2026, o equivalente a 42,5% das 513 cadeiras da Câmara.

Os números ajudam a desmontar a leitura de que o resultado de domingo teria sido simplesmente uma transferência de poder da esquerda para a direita. A comparação feita por O Progressista a partir dos resultados eleitorais do TSE mostra que a esquerda em sentido estrito passou de 125 para 124 deputados. Praticamente não se moveu. A centro-esquerda, por outro lado, caiu de 25 para 13 cadeiras, sendo o partido com maior perda o PDT.
No entanto, a transformação mais expressiva aconteceu no outro lado do espectro. A direita passou de 144 para 173 deputados, enquanto a centro-direita caiu de 128 para 119 e o centro recuou de 91 para 84. Parte do novo poder conquistado pelo campo mais radical, portanto, surgiu dentro da própria direita. Mais do que uma simples guinada uniforme do eleitorado, as urnas mostram uma mudança no equilíbrio interno do conservadorismo brasileiro.
O PL foi quem liderou essa guinada, ganhando 24 cadeiras em relação a 2022. O Novo, também situado no polo de extrema direita pela classificação publicada na Opinião Pública, passou de três para dez deputados. Ao mesmo tempo, partidos posicionados mais próximos do centro perderam espaço dentro da Câmara.
No Senado, onde cada parlamentar tem mandato de oito anos e participa de decisões que incluem indicações ao Supremo Tribunal Federal, mudanças constitucionais e eventuais processos de impeachment de ministros da Corte, a alteração tem peso ainda maior. E o PL terá 28 senadores em 2027, representando mais de um terço dos 81 integrantes da Casa, evidenciando os desafios enfrentados em uma eventual reeleição do presidente Lula.
Mais mulheres, mas não necessariamente mais direitos
A mesma eleição que fortaleceu a extrema direita produziu também um recorde feminino. Segundo o Senado Federal, 12 mulheres foram eleitas senadoras, contra sete em 2018, quando as mesmas 54 vagas estavam em disputa. Com as parlamentares que ainda têm quatro anos de mandato, a bancada feminina deverá chegar a 18 integrantes, pouco mais de 22% da Casa.
O número representa um avanço na presença de mulheres em uma instituição historicamente masculina, mas diz pouco, sozinho, sobre quais interesses políticos serão representados por elas. Das 12 eleitas, cinco pertencem a partidos posicionados no polo de extrema direita: Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni, pelo PL; Mara Rocha, pelo Republicanos; e Gracinha Caiado, pelo União Brasil.
O Distrito Federal talvez seja o retrato mais simbólico dessa contradição. Pela primeira vez, suas três cadeiras no Senado serão ocupadas simultaneamente por mulheres: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas neste domingo, e Damares Alves, cujo mandato termina apenas em 2031. Trata-se de uma representação integralmente feminina e, ao mesmo tempo, fortemente vinculada ao conservadorismo religioso.
Michelle Bolsonaro construiu sua atuação pública associando religião, defesa da família e valores cristãos. Damares Alves mantém como uma das marcas de seu mandato a oposição ao aborto e participou neste ano da Marcha Nacional da Cidadania pela Vida, posicionamento registrado em pronunciamento disponível no Senado Federal.
Dessa forma, o crescimento do número de mulheres no Parlamento não garantirá, por si só, maior representatividade em temas ligados à igualdade de gênero ou às pautas historicamente defendidas pelo movimento feminista, sobretudo porque uma parcela expressiva das novas senadoras está vinculada a partidos da extrema direita e a agendas conservadoras.

Essa composição também aproxima duas transformações que avançaram paralelamente nas últimas décadas: o fortalecimento da extrema direita parlamentar e a expansão da população evangélica no país.
Leia Mais
-
Justiça não proibiu o debate antidemocrático que a Globo pretendia fazer
-
30 anos da urna eletrônica: da modernização à tentativa de golpe de 2022
-
Por que o Estado brasileiro saiu da regulação à proibição das bets em tão pouco tempo?
-
O delegado que virou suspeito: MP denuncia policial por desviar remédios em Roraima
Um país mais evangélico e uma direita mais religiosa
O Brasil passou por uma das maiores transformações religiosas de sua história recente entre os dois últimos censos do IBGE. Segundo o levantamento “Censo Demográfico 2022: Religiões”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os evangélicos representavam 21,7% da população brasileira de dez anos ou mais em 2010 e chegaram a 26,9% em 2022. No mesmo período, a proporção de católicos caiu de 65% para 56,7%.

Em doze anos, portanto, a população evangélica avançou 5,2 pontos percentuais, enquanto o catolicismo perdeu 8,3 pontos. Essa expansão ampliou uma estrutura social que passou a ser disputada sistematicamente pela direita brasileira: milhares de templos, lideranças locais, grandes igrejas, redes próprias de comunicação e comunidades reunidas regularmente em torno de autoridades religiosas.
O papel dessa estrutura sobre o comportamento eleitoral já foi identificado empiricamente. Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Ciência Política sobre a eleição de 2018 analisou a relação entre identidade evangélica, frequência aos cultos e voto em Jair Bolsonaro. Os autores estimaram que aproximadamente 16% do efeito associado a ser evangélico sobre o voto no então candidato era mediado pela frequência religiosa, apontando a exposição recorrente às mensagens transmitidas nesses ambientes como parte do mecanismo político.
Outro estudo publicado pela Revista Brasileira de Ciência Política, desta vez sobre a eleição de 2022, analisou diretamente o efeito das manifestações políticas de lideranças religiosas sobre seus fiéis. Entre os evangélicos pesquisados, ouvir a própria liderança religiosa defender Jair Bolsonaro aumentava a probabilidade de voto nele mesmo depois de considerados fatores socioeconômicos, região, antipetismo e frequência aos cultos. A pesquisa também identificou influência de lideranças entre católicos.
Os trabalhos não demonstram que todos os frequentadores de uma igreja reproduzam politicamente o posicionamento de seus pastores. Mas, por outro lado, mostram que o espaço religioso pode funcionar como ambiente de transmissão e legitimação de mensagens eleitorais.
Em 2026, essa aproximação entre identidade religiosa e candidatura política continuou visível. O levantamento “Direita concentra 56,6% das candidaturas com referência religiosa no nome de urna”, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em parceria com o Common Data, identificou 445 candidaturas que utilizaram alguma referência religiosa no nome apresentado aos eleitores.
Desse total, 252 — 56,6% — estavam vinculadas a partidos classificados pelo próprio levantamento como de direita. Entre as 445 candidaturas religiosas identificadas, 181 disputavam uma cadeira de deputado federal e 285 usavam “pastor” ou alguma variação da palavra.
O levantamento também mostra que a utilização eleitoral da identidade religiosa ultrapassou os candidatos cuja profissão formal é exercida dentro das igrejas. A maioria dos nomes identificados declarou ao TSE uma ocupação diferente da função religiosa, indicando que referências como “pastor”, “missionário” ou termos semelhantes também se consolidaram como marcas políticas.
O cruzamento realizado por O Progressista entre a proporção de evangélicos nos estados, registrada pelo Censo Demográfico 2022 do IBGE, e a votação para deputado federal de PL, Republicanos, União Brasil e Novo nos resultados do TSE aponta na mesma direção. Consideradas as 27 unidades da Federação, a correlação entre as duas variáveis foi positiva, próxima de 0,41: em termos gerais, estados com maior presença evangélica tenderam a registrar votação maior nos quatro partidos classificados no polo de extrema direita pelo estudo da Opinião Pública.
A associação não é uniforme e não permite concluir que um eleitor vote na extrema direita simplesmente por ser evangélico. Pará e Alagoas, por exemplo, fogem significativamente do padrão. Região, renda, tradição partidária, candidaturas locais e outras características também interferem no resultado.
Ainda assim, os extremos ajudam a visualizar a tendência. No Piauí, onde 15,6% da população analisada pelo Censo se declara evangélica, os quatro partidos receberam juntos 14,8% dos votos para deputado federal. Em Roraima, onde os evangélicos representam 34,1%, chegaram a 66,4%. Mato Grosso do Sul registrou 32,5% de evangélicos e 63,9% dos votos para o mesmo grupo; no Tocantins, foram 31,1% e 59,6%.

A geografia eleitoral ganha peso quando observada ao lado da mobilização religiosa registrada durante a campanha. Flávio Bolsonaro participou de cultos e visitou grandes templos evangélicos durante a disputa presidencial. A participação do candidato em celebrações religiosas e os limites impostos pela legislação eleitoral foram registrados em reportagem da Folha de S.Paulo sobre as visitas de Flávio a igrejas durante a campanha. Silas Malafaia, uma das lideranças evangélicas mais associadas ao bolsonarismo desde o governo de Jair Bolsonaro, também declarou apoio à candidatura de Flávio. A posição foi registrada pela Folha de S.Paulo durante a campanha de 2026.
Vale destacar, porém, que a aproximação não começou nesta eleição. Desde a década passada, o bolsonarismo incorporou pautas do conservadorismo religioso à sua identidade política, principalmente nas disputas sobre aborto, direitos LGBT+, educação sexual, políticas de gênero e definição de família. Em 2026, porém, essa articulação encontrou uma direita parlamentar significativamente mais forte.
Quando a influência religiosa deixa as urnas e entra nas instituições
A Câmara eleita em 2026 encontrará em tramitação uma iniciativa que busca transformar a identidade cristã em estrutura formal de poder parlamentar. O Projeto de Resolução 71/2025, registrado na Câmara dos Deputados, propõe criar oficialmente a Bancada Cristã da Câmara dos Deputados. A proposta busca incorporar essa representação religiosa à estrutura política da Casa, indo além do modelo tradicional das frentes parlamentares.
A iniciativa resume uma transformação construída ao longo dos últimos anos. Lideranças religiosas ajudaram a consolidar candidaturas; referências cristãs tornaram-se parte explícita da identidade eleitoral de centenas de candidatos; pautas de costumes passaram a ocupar permanentemente a agenda política; e representantes desse campo agora buscam converter presença parlamentar em reconhecimento institucional.
Esse movimento ultrapassa os limites da liberdade individual de crença porque alcança decisões que atingem toda a população. Aborto, direitos sexuais e reprodutivos, políticas destinadas à população LGBTQIA+, conteúdo das escolas públicas, definição jurídica de família e limites entre religião e Estado são temas recorrentes da atuação de parlamentares vinculados ao conservadorismo religioso. É nesse ponto que o resultado das eleições de 4 de outubro ganha uma dimensão maior.
Partindo para o campo do executivo, os resultados divulgados pelo TSE, mostram Flávio Bolsonaro terminando o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, equivalentes a 47,03% dos válidos, contra 53,9 milhões e 45,16% de Lula. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Uma eventual vitória de Flávio colocaria o Executivo sob o comando do mesmo partido que iniciará 2027 com a maior bancada da Câmara e a maior bancada do Senado. Isso não entregaria ao PL controle automático do Congresso nem votos suficientes para alterar sozinho a Constituição, mas criaria uma configuração política bastante diferente daquela encontrada por Jair Bolsonaro quando assumiu a Presidência em 2019.
Um governo comandado por Flávio Bolsonaro teria diante de si uma representação parlamentar maior do próprio partido, uma direita deslocada em direção ao seu polo mais radical e uma estrutura religiosa que estudos sobre as eleições de 2018 e 2022 já mostraram ser capaz de influenciar o comportamento eleitoral quando lideranças utilizam sua autoridade para transmitir mensagens políticas.
A relação entre o candidato e essa identidade religiosa também apareceu explicitamente durante a campanha. Flávio afirmou que, caso eleito, faria como primeiro ato uma declaração simbólica de que o Brasil pertence a Jesus Cristo. Posteriormente, a campanha disse que a manifestação teria caráter religioso e simbólico, e não produziria efeitos jurídicos sobre a laicidade do Estado, mas ligou o alerta para uma eventual aproximação da igreja junto ao poder.
As urnas de 4 de outubro revelaram, portanto, o encontro entre duas transformações que ocorreram paralelamente. O Brasil se tornou mais evangélico enquanto uma parcela organizada da direita aprendeu a transformar valores religiosos em identidade eleitoral, candidaturas, redes de mobilização e representação parlamentar.
Ainda estamos distante de ver os evangélicos formarem um bloco eleitoral uniforme, mas esse avanço reproduz um campo político que encontrou um eleitorado crescente em uma organização social utilizada para mobilizar eleitores e que vem trabalhando para ampliar a sua participação política. O resultado está agora representado em um Congresso em que a esquerda preservou seu núcleo, mas ainda de forma minoritária e o centro perdeu espaço para uma direita mais radical e ligada a setores evangélicos.
Nesse cenário, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro abriria espaço para um risco institucional mais grave: a tentativa de tensionar ou romper os limites democráticos com respaldo de uma maioria parlamentar e de uma base social previamente mobilizada. O Golpe de 1964 não serve para estabelecer uma equivalência automática ao que pode acontecer, mas para lembrar que rupturas institucionais não dependem apenas da ação de militares ou de um governante isolado; elas também podem se apoiar em parcelas do Congresso, em setores organizados da sociedade e em discursos capazes de apresentar a quebra da ordem democrática como uma suposta defesa da moral, da família ou da nação.
Se parte dessa legitimidade popular continuar sendo construída dentro de redes religiosas alinhadas à extrema direita, o perigo deixa de estar apenas no Executivo e passa a residir na combinação entre Presidência, Congresso e mobilização social organizada.
Como apuramos
O Progressista cruzou os resultados eleitorais de 2026 do TSE com os dados do Censo Demográfico 2022 sobre religiões, do IBGE, utilizou a classificação partidária do estudo “O desaparecimento do centro ideológico no sistema partidário brasileiro”, publicado na revista Opinião Pública, e confrontou os resultados com o levantamento de candidaturas religiosas do Inesc e Common Data e com pesquisas publicadas pela Revista Brasileira de Ciência Política sobre frequência aos cultos e voto em 2018 e influência de lideranças religiosas no voto em 2022; a correlação estadual encontrada foi de aproximadamente 0,41 e representa associação territorial, não causalidade individual.






Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Ainda não há comentários nesta matéria.