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Primavera no Mundo
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil | Arte: Equipe O Progressista
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Na última sexta-feira (30), trabalhadores cruzaram os braços em portos de diferentes países, estudantes ocuparam avenidas italianas e sindicatos desafiaram as políticas de austeridade e os investimentos militares. No sábado (31), milhares de pessoas voltaram às ruas de Portugal para exigir moradia, enquanto outras centenas de milhares protestaram na França por educação pública e melhores condições de vida. Na Alemanha, jovens também saíram às ruas para reivindicar investimentos sociais. Em dois dias, a Europa assistiu a uma sequência de mobilizações que colocou lado a lado trabalhadores, estudantes e movimentos populares.

Na Itália, a greve geral convocada pela Unione Sindacale di Base (USB) mobilizou milhares de trabalhadores e estudantes em dezenas de cidades contra o aumento do custo de vida, os baixos salários, os gastos militares e as políticas do governo de Giorgia Meloni. Em Roma, Milão, Nápoles, Turim e Palermo, manifestantes ocuparam ruas e praças para reivindicar investimentos em saúde, educação e serviços públicos. A mobilização também contestou restrições ao direito de greve, especialmente no setor de transportes.

Em Nápoles, o dirigente sindical Enzo De Vincenzo, da coordenação regional da USB, descreveu à agência italiana ANSA as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores para pagar alimentação, combustível e contas domésticas. Segundo ele, recursos que poderiam financiar salários e serviços essenciais estão sendo direcionados às guerras e ao rearmamento. Na mesma manifestação, dois jovens ofereceram doces a policiais posicionados diante de um prédio público. Ao explicar o gesto aos jornalistas, disseram que os agentes também precisavam comprar alimentos e combustível. A cena revelou uma tentativa de aproximar trabalhadores que ocupavam posições opostas naquele momento.

Protestos Itália
Protestos pelas ruas da Itália

Na Grécia, estivadores interromperam atividades no porto de Pireu e reivindicaram melhores condições de trabalho, proteção salarial e o fim da utilização de instalações portuárias para operações militares. O presidente do Centro de Trabalho do Pireu, Markos Bekris, defendeu que os portos fossem utilizados para atender às necessidades dos povos, e não às guerras.

Durante o ato, Sotiris Poulikogiannis, dirigente sindical do setor metalúrgico e naval, afirmou que a força da mobilização estava na decisão de trabalhadores de diferentes países de atuarem conjuntamente. A greve ultrapassou, assim, as reivindicações econômicas imediatas e incorporou uma dimensão internacionalista, conectando a defesa dos direitos trabalhistas à oposição à militarização.

No sábado, a mobilização também alcançou as ruas portuguesas. Em Lisboa, milhares de manifestantes caminharam do Largo de Camões até a praça do Rossio para protestar contra mudanças na legislação habitacional propostas pelo governo de Luís Montenegro. As organizações participantes reivindicaram proteção contra despejos, ampliação da moradia pública e medidas para conter os preços dos aluguéis. Entre os participantes estavam movimentos pelo direito à habitação e representantes de partidos de esquerda, como o Bloco de Esquerda, o Livre e o Partido Comunista Português.

As manifestações recuperaram palavras de ordem associadas à tradição de mobilização popular portuguesa, incluindo o conhecido lema de unidade do povo. Em entrevista à agência Lusa, um dos porta-vozes do acampamento de Lisboa, identificado como Feijó, explicou que a adesão popular refletia a permanência dos problemas habitacionais e a insatisfação com a atuação policial. Depois da marcha, manifestantes instalaram mais de 50 barracas no Rossio.

Protestos Portugal
Mobilização nas ruas portuguesas

Na França, o Ministério do Interior contabilizou aproximadamente 320 mil manifestantes no sábado, durante a terceira semana consecutiva de mobilizações nacionais. Estudantes e trabalhadores reivindicaram melhores condições de ensino, ampliação dos investimentos públicos e respostas ao aumento do custo de vida. As manifestações ocorreram sob forte presença policial, com cerca de 70 mil agentes mobilizados pelo governo.

Na Alemanha, estudantes participaram de manifestações por investimentos em educação, saúde e proteção ambiental. Em Berlim, a estudante Lara Breitenbach explicou à Associated Press que os jovens precisavam reivindicar recursos para os serviços públicos porque seriam eles os mais afetados pelas decisões atuais. Outra estudante, Janelle Schulz, descreveu problemas estruturais em sua escola, incluindo infiltrações, banheiros danificados e falta de professores. Nas palavras das duas jovens, a discussão sobre gastos públicos deixava de ser uma abstração econômica para assumir a forma concreta das condições oferecidas às próximas gerações.

O encontro dessas mobilizações em um mesmo fim de semana evoca um episódio que transformou a história política europeia. Em 1848, a insatisfação com as condições de vida, a pobreza e as restrições às liberdades políticas desencadeou uma onda revolucionária que atravessou fronteiras e ficou conhecida como Primavera dos Povos.

Primavera dos Povos
Ilustração Primavera dos Povos

Na primeira metade do século XIX, a Europa enfrentava sucessivas crises econômicas e agrícolas. A escassez de alimentos, o desemprego e a deterioração das condições de vida pressionavam populações que, em grande parte do continente, permaneciam submetidas a monarquias e sistemas políticos pouco representativos. Enquanto trabalhadores e setores populares reivindicavam condições materiais de sobrevivência, movimentos liberais e democráticos exigiam constituições, liberdade de imprensa, participação política e limites ao poder dos governantes.

A revolta começou a ganhar força em janeiro de 1848, na Sicília. Em fevereiro, manifestações populares derrubaram o rei Luís Filipe, na França, e levaram à proclamação da Segunda República. A notícia da revolução francesa atravessou rapidamente as fronteiras e alimentou mobilizações em outras regiões europeias. Em março, Viena e Berlim se tornaram centros de insurreições que colocaram em xeque a ordem estabelecida.

Na capital prussiana, milhares de pessoas ocuparam as ruas exigindo reformas. Em 18 de março, a tentativa de dispersar uma concentração diante do palácio real desencadeou combates entre manifestantes e tropas militares. Barricadas foram erguidas pela cidade, e centenas de pessoas morreram durante os confrontos. A resistência obrigou o rei Frederico Guilherme IV a retirar suas tropas e anunciar concessões políticas.

A revolução também alcançou as instituições naquela época. Em maio, representantes eleitos reuniram-se na Igreja de São Paulo, em Frankfurt, para discutir uma constituição e a formação de um Estado alemão unificado. As reivindicações populares, que haviam começado nas ruas, passaram a disputar a organização do próprio poder político.

A experiência, entretanto, não produziu imediatamente todas as transformações pretendidas. As monarquias reorganizaram suas forças, os movimentos revolucionários enfrentaram divisões e, em 1849, grande parte das conquistas foi revertida. Ainda que a Assembleia de Frankfurt não tenha conseguido consolidar seu projeto constitucional, as reivindicações por direitos fundamentais, representação parlamentar e liberdades civis permaneceram como referências importantes para a história democrática europeia.

A Primavera dos Povos demonstrou que a insatisfação acumulada durante anos podia adquirir, em determinadas circunstâncias, uma dimensão continental. Também mostrou que trabalhadores, estudantes, intelectuais e diferentes setores da sociedade podiam encontrar na participação coletiva instrumentos para questionar relações de poder profundamente estabelecidas.

Protestos na França
Protestos nas ruas da França

E foi assim no Brasil. No último dia 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. O resultado confirmou a continuidade de um governo liderado pelo Partido dos Trabalhadores, depois de uma disputa apertada contra o senador Flávio Bolsonaro, do PL, que recebeu 48,21%.

A vitória ocorreu depois de Lula perder o primeiro turno. E para evitar a chegada ao poder de um governo de extrema direita, houve uma intensa mobilização de apoiadores, organizações sociais e movimentos estudantis. Às vésperas da eleição, manifestantes de todo país tomaram às ruas das principais cidades em uma clara mensagem de que o poder emana do povo.

Após a vitória, Lula agradeceu à juventude que havia participado das manifestações em defesa da democracia. Também relacionou o resultado à participação das mulheres, dos educadores e de trabalhadores que defendiam políticas públicas e mudanças nas relações de trabalho. Ao comentar a disputa, classificou sua vitória como uma derrota do negacionismo e da mentira.

A campanha colocou em discussão temas como a preservação do Sistema Único de Saúde, a educação pública, os programas de transferência de renda e a ampliação dos direitos sociais. Para os setores progressistas mobilizados em torno da candidatura de Lula, o resultado eleitoral representou a possibilidade de manter essas políticas no centro das prioridades governamentais e de enfrentar politicamente a extrema direita.

O presidente reeleito prometeu ampliar a participação popular nas decisões do governo e anunciou propostas de expansão da educação em tempo integral e dos programas de permanência estudantil.

Manifestação no Brasil
Manifestações em apoio à reeleição de Lula – Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Brasil oferece, portanto, uma imagem de esperança para setores progressistas que hoje ocupam as ruas europeias. 180 anos depois da Primavera dos Povos, vemos aqui renascer a Primavera no Mundo, mostrando a capacidade de transformar dificuldades cotidianas em reivindicações coletivas. Afinal, moradia, trabalho, educação e participação do povo nas decisões políticas não começam sem questionamento e sem pessoas ocupando as ruas pela sua insatisfação.

A distância entre 1848 e 2026 pode ser medida pelas possibilidades abertas à participação popular. Os revolucionários de Berlim enfrentaram tropas de uma monarquia para reivindicar direitos políticos fundamentais. No Brasil contemporâneo, as ruas ficaram vermelhas para mostrar o projeto de país que queremos para o nosso futuro.

É nessa distância entre o tempo e os continentes, entre a realidade e a possibilidade de transformá-la, que a esperança continua encontrando lugar. E, ecoando A Cura, de Lulu Santos, enquanto tremular a velha bandeira da vida, haverá dentro de nós uma ponta de esperança.

Comentários

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  1. Walter disse:

    Muito bom! Lula de novo e povo no poder!

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