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Aquecimento Global
Foto de Chris LeBoutillier
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O aquecimento global não é uma hipótese em discussão dentro da ciência climática. É o aumento de longo prazo da temperatura média do planeta provocado principalmente pela concentração crescente de gases de efeito estufa na atmosfera, liberados pela queima de carvão, petróleo e gás, pelo desmatamento e por outras atividades humanas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que a influência humana no aquecimento da atmosfera, dos oceanos e dos continentes é inequívoca.

Esses gases, entre eles dióxido de carbono e metano, funcionam como uma camada capaz de reter parte do calor que seria devolvido ao espaço. O efeito estufa existe naturalmente e é indispensável à vida, mas sua intensificação pela atividade humana altera o equilíbrio energético do planeta. A consequência aparece no aumento das temperaturas, no derretimento de geleiras, na elevação do nível do mar e na intensificação de eventos extremos, como ondas de calor, secas e chuvas intensas.

O problema ganhou uma nova dimensão nesta quarta-feira (21). O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) concluiu que o planeta deverá ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris. Para reduzir a duração e a intensidade dessa ultrapassagem, as emissões globais precisariam cair 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040 em relação a 2025. Mantidas as políticas atuais, o aquecimento pode chegar a 2,8°C neste século.

A tecnologia necessária para reduzir parte significativa dessas emissões já existe. Segundo o próprio PNUMA, a capacidade de geração renovável avançou muito mais rapidamente do que se previa depois do Acordo de Paris, especialmente por meio da energia solar. O problema está cada vez menos na ausência de alternativas e cada vez mais nas decisões políticas sobre a velocidade da transição energética e a redução do uso de combustíveis fósseis.

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Quando o negacionismo passa a produzir política pública

É nesse ponto que o negacionismo climático deixa de ser apenas uma disputa sobre fatos científicos. Um estudo publicado em 2025 por Zachary P. Dickson e Sara B. Hobolt, na revista Comparative Political Studies, analisou quase meio milhão de comunicados de 76 partidos em nove democracias europeias entre 2010 e 2023. Os autores concluíram que partidos da direita radical passaram a tratar as políticas climáticas como um tema de confronto político, adotando posições adversariais contra iniciativas ambientais e explorando a resistência de parte do eleitorado aos custos da redução das emissões e da dependência de combustíveis fósseis.

Outro estudo publicado na PLOS Climate, baseado em dados de 15 países da Europa Ocidental, aponta uma associação entre orientações ligadas ao populismo de direita e maior oposição a políticas climáticas. O resultado prático pode ser atraso justamente no momento em que os cortes de emissões precisam acelerar.

Nos Estados Unidos, Donald Trump determinou em janeiro de 2025 uma nova retirada do país do Acordo de Paris, revogou políticas climáticas adotadas pelo governo anterior, suspendeu medidas relacionadas à expansão da energia eólica e colocou o aumento da exploração de petróleo e gás no centro de sua política energética. Os próprios documentos da Casa Branca apresentam medidas climáticas anteriores como “extremismo climático” e defendem ampliar a produção de combustíveis fósseis.

O impacto já aparece nas projeções globais. O relatório divulgado pelo PNUMA nesta quarta afirma que a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris é um dos fatores que fizeram as estimativas de aquecimento deste ano piorarem em relação às anteriores.

O Brasil também conheceu essa política

No Brasil, pesquisadores identificaram dinâmica semelhante durante o governo Jair Bolsonaro. Um capítulo da obra acadêmica Climate Obstruction: A Global Assessment, publicada pela Oxford University Press, descreve como o negacionismo climático durante aquele período ultrapassou as redes sociais e encontrou espaço dentro do governo, do Legislativo e de grupos políticos aliados, associando políticas ambientais a uma suposta agenda “globalista” de esquerda.

A disputa discursiva teve consequências concretas porque política ambiental depende de fiscalização, orçamento e capacidade institucional. Um estudo publicado em março de 2026 no Journal of Environmental Management, pelos pesquisadores Luan Marca e Augusto Mussi Alvim, da PUCRS, mediu diretamente o efeito da fiscalização ambiental sobre o desmatamento na Amazônia Legal.

Os autores analisaram dados de 710 municípios entre 2003 e 2021 e compararam o comportamento do desmatamento antes e depois da primeira multa aplicada pelo Ibama em cada município. O resultado apontou uma redução média de aproximadamente 15 mil hectares no desmatamento anual dos municípios submetidos à fiscalização, com efeitos que se tornaram mais fortes entre dois e três anos após a primeira autuação.

A pesquisa também encontrou efeitos positivos médios sobre o PIB per capita e o valor adicionado da agropecuária. Para os autores, os resultados indicam que a fiscalização pode reduzir o desmatamento sem impedir o desenvolvimento econômico local, contrariando a ideia de que conservação da floresta e crescimento econômico seriam objetivos necessariamente incompatíveis.

Em vista disso, quando governos questionam a ciência, desmontam instrumentos de fiscalização, bloqueiam regras ambientais ou estimulam a expansão de combustíveis fósseis, o resultado não fica limitado ao debate ideológico: essas decisões interferem diretamente na quantidade de gases de efeito estufa lançada na atmosfera.

Nesse sentido, o mundo já não discute apenas como impedir qualquer ultrapassagem de 1,5°C. A questão agora é quanto o planeta vai ultrapassar esse limite, por quanto tempo permanecerá acima dele e quanto sofrimento ainda poderá ser evitado. Cada política adiada torna esse caminho mais difícil.

E é justamente por isso que o negacionismo climático deixou de ser apenas uma guerra contra a ciência. Quando transformado em programa de governo, ele passa a ser também uma política de atraso diante de uma crise que continua avançando independentemente da ideologia de quem decide reconhecê-la.

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