O uso criminoso do fogo para destruir a vegetação e abrir caminho à expansão de pastagens e lavouras está no centro das investigações sobre os incêndios que atingem a Amazônia. Nesta terça-feira (20), um balanço das operações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) revelou a aplicação de R$ 2 milhões em multas nos municípios de Autazes e Careiro da Várzea, no Amazonas. Em apenas sete dias, os agentes lavraram 19 autos de infração e embargaram 250 hectares, enquanto a fumaça das queimadas compromete a saúde e a rotina da população de Manaus.
A destruição da floresta não ocorre apenas pela ação das condições climáticas. Segundo o Ibama, a quase totalidade dos incêndios florestais tem origem humana, sendo muitos provocados intencionalmente para degradar a vegetação e facilitar a transformação de áreas florestais em pastagens e lavouras.
A prática evidencia como a exploração econômica ilegal dos recursos naturais pode estar associada à devastação ambiental. A utilização do fogo permite eliminar a cobertura vegetal e modificar o uso da terra, enquanto os danos provocados pelas queimadas ultrapassam os limites das propriedades rurais.
Nas operações realizadas na última semana, os fiscais identificaram incêndios provocados sem autorização ambiental, alguns dos quais ultrapassaram cercas e atingiram propriedades vizinhas e áreas públicas.
O Ministério Público Federal (MPF) também colocou a atividade pecuária entre os fatores investigados. Segundo o procurador André Luiz Porreca, a maior parte dos incêndios na região está tradicionalmente relacionada à pecuária, embora outras possíveis motivações, inclusive políticas, também estejam sob investigação.
Enquanto os responsáveis pelas queimadas são investigados, a população enfrenta as consequências da fumaça. Em Manaus, a deterioração da qualidade do ar obrigou a suspensão de aulas nas redes municipal e estadual, além de interromper atividades presenciais em universidades.
A exposição à poluição também alcançou os serviços de saúde. Até 14 de outubro, autoridades sanitárias haviam registrado 315 atendimentos associados à fumaça e 121 casos de intoxicação, em meio ao agravamento das condições atmosféricas.
A crise demonstra que a destruição ambiental não se limita à perda de vegetação. O fogo provocado em áreas rurais compromete o direito à saúde, interfere na educação e impõe prejuízos coletivos a milhares de pessoas que não têm qualquer participação nas atividades responsáveis pelas queimadas.
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Diante da gravidade da situação, o Ministério Público Federal passou a articular medidas para ampliar a responsabilização criminal dos infratores.
Em reunião realizada com órgãos federais e estaduais, o Ibama assumiu o compromisso de encaminhar diretamente ao Ministério Público os autos de infração produzidos durante as operações. Os documentos poderão subsidiar inquéritos policiais e ações penais contra os responsáveis pelos incêndios ilegais.
A iniciativa envolve também a Polícia Federal, a Polícia Civil e o Ministério Público do Amazonas. No sábado (17), a Polícia Militar prendeu 11 pessoas suspeitas de envolvimento com as queimadas no estado.
O governo Lula também ampliou a mobilização federal para combater os incêndios. Entre as medidas anunciadas estão a disponibilização de 16 aeronaves, o reforço das operações das Forças Armadas e a instalação de uma estrutura de coordenação militar em Manaus.
O Ministério da Saúde anunciou ainda a previsão de uma base da Força Nacional do SUS na capital amazonense para apoiar a resposta aos impactos sanitários da crise.
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram a dimensão do problema. Até 18 de outubro, o Amazonas contabilizava 8.177 focos de incêndio em 2026, aumento de 111% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em todo o bioma amazônico, foram registrados 40.633 focos, crescimento de 62%.
A fiscalização ambiental e a responsabilização criminal colocam em evidência uma questão fundamental: combater a destruição da Amazônia exige enfrentar também os interesses econômicos associados à ocupação ilegal da terra e à conversão das florestas em áreas produtivas.
Ao reforçar as operações do Ibama e a atuação conjunta dos órgãos públicos, o Estado busca interromper uma prática que transforma a floresta em oportunidade de exploração econômica para infratores, enquanto a população arca com os danos ambientais e sanitários provocados pelo fogo.


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