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Protestos na França
Foto: Jorge Jaramillo
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Falta de professores, salas superlotadas e condições precárias de ensino culminaram em uma das maiores mobilizações sociais dos últimos anos na França, levando cerca de 800 mil pessoas às ruas no último sábado (17) em mais de 110 manifestações realizadas em todo país.

Somente em Paris, 110 mil manifestantes participaram dos atos, de acordo com as autoridades. O movimento, inicialmente concentrado na educação pública, transformou-se em uma contestação mais ampla às condições de vida e às políticas econômicas do presidente Emmanuel Macron.

Em Estrasburgo, no leste francês, o professor de ciências e representante sindical Erwan Le Clech descreveu à Reuters uma realidade de falta de instalações adequadas, profissionais insuficientes e excesso de estudantes por sala. De acordo com Le Clech, a superlotação das escolas agrava as tensões e compromete o ensino. Para ele, a solução exige investimentos na construção de novas unidades educacionais e na contratação de mais professores.

Essas reivindicações foram atendidas parcialmente pelo governo Francês. No dia 9 de Outubro foi anunciada a contratação emergencial de 3 mil educadores para as unidades educacionais mais afetadas. Entretanto, esse anúncio não surtiu o efeito desejado.

A concessão do governo não encerrou a mobilização

O descontentamento com a educação passou a se somar às reivindicações por melhores salários, aposentadorias e medidas para enfrentar o custo de vida. Em 15 de outubro, apenas dois dias antes das grandes manifestações, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França (INSEE) publicou um relatório sobre poder de compra, desigualdade e pobreza.

O levantamento reúne informações que ajudam a compreender as tensões acumuladas durante os mandatos de Macron. Em 2024, a França metropolitana registrou 9,8 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza monetária. Isso representa 15,4% da população abrangida pelo indicador, o maior patamar desde o início da série anual, em 1996.

O estudo detalhado do INSEE estabelece o limite de pobreza em 1.337 euros mensais para uma pessoa que vive sozinha. Para um casal com duas crianças menores de 14 anos, o valor de referência corresponde a 2.807 euros mensais.

A situação é especialmente grave entre as crianças e adolescentes. Aproximadamente uma em cada cinco pessoas com menos de 18 anos, ou 22,4%, vivia abaixo da linha de pobreza em 2024. Entre famílias monoparentais, a proporção chegava a 34%. A vulnerabilidade também atingia pessoas inseridas no mercado de trabalho, demonstrando que possuir uma ocupação não assegura, necessariamente, renda suficiente para superar a pobreza.

O Progressista / França em crise

Quase 10 milhões vivem na pobreza na França

9,8 milhões

de pessoas abaixo da linha de pobreza em 2024 — 15,4% da população abrangida pela pesquisa.

22,4%
das crianças e adolescentes viviam na pobreza
34%
das famílias monoparentais estavam abaixo da linha de pobreza

O impacto da proteção social

Antes dos benefícios sociais22,3%
Depois dos benefícios sociais15,4%
Redução de 6,9 pontos percentuais na taxa de pobreza após os benefícios sociais.
Fonte: INSEE — Poder de compra, desigualdade e pobreza. Dados referentes a 2024.
O PROGRESSISTA

Esses números ajudam a dimensionar a desigualdade presente nas condições de vida e nas oportunidades educacionais dos jovens que iniciaram os protestos. O problema, entretanto, vai além da quantidade de pessoas pobres. A distribuição da riqueza francesa também se tornou mais desigual.

De acordo com o INSEE, a relação entre a renda total dos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres passou de 4,0 para 4,6 entre 2004 e 2024, mesmo após a atuação dos mecanismos de redistribuição.

O índice de Gini, utilizado para medir a concentração dos rendimentos, também atingiu seu maior nível na série histórica. Antes da redistribuição promovida pelo Estado, passou de 0,347, em 1996, para 0,378, em 2024. Depois dos impostos diretos e benefícios sociais, o índice chegou a 0,302, também em patamar historicamente elevado.

A diferença entre os indicadores demonstra que a tributação e os benefícios sociais continuam desempenhando papel fundamental na redução das desigualdades. Ao mesmo tempo, revela que esses mecanismos não conseguiram impedir seu crescimento nas últimas décadas.

A concentração é ainda mais expressiva quando se observa o patrimônio

Em 2024, a metade mais rica dos domicílios franceses detinha 93% de toda a riqueza bruta das famílias. Os outros 50% possuíam apenas 7%.

Segundo o instituto, as famílias de trabalhadores, operários e pessoas fora do mercado de trabalho enfrentaram maiores dificuldades de acesso à propriedade, deixando de se beneficiar da valorização dos imóveis na mesma proporção que os grupos economicamente privilegiados.

O Progressista / Desigualdade

Metade mais rica concentra 93% da riqueza das famílias

Na França, a distribuição do patrimônio bruto revela uma profunda concentração econômica.

50% mais ricos
93% do patrimônio
50% restantes
7% do patrimônio

A distância entre ricos e pobres aumentou

4,0x
2004
4,6x
2024
Relação entre a renda acumulada dos 20% mais ricos e a dos 20% mais pobres, após a redistribuição.
O INSEE associa parte da expansão dos dividendos à reforma tributária de 2018, durante o governo Macron.
O PROGRESSISTA

Além das dificuldades de acesso ao patrimônio imobiliário, decisões tributárias tomadas durante o governo Macron também favoreceram os detentores de riqueza financeira. Em 2018, o presidente promoveu uma reforma tributária que reduziu os impostos sobre determinados rendimentos, como os dividendos distribuídos pelas empresas aos seus acionistas. A mudança substituiu a tributação progressiva por uma alíquota fixa de 30%, tornando mais vantajoso receber esse tipo de rendimento, especialmente para os contribuintes mais ricos.

Os efeitos foram identificados pelo próprio Instituto Nacional de Estatística da França (INSEE), que mostrou que os dividendos pagos às famílias aumentaram quase 70% entre 2017 e 2019, crescimento parcialmente relacionado à reforma. Os pesquisadores também concluíram que os benefícios da mudança tributária ficaram concentrados entre os grupos de maior renda, contribuindo para ampliar a desigualdade econômica.

A constatação é relevante porque estabelece uma relação entre uma política fiscal adotada durante a presidência de Macron e o comportamento dos rendimentos apropriados pelos grupos mais ricos.

O resultado contrasta com a situação recente dos trabalhadores franceses. Segundo as projeções econômicas publicadas pelo INSEE em outubro, os rendimentos provenientes da atividade econômica deverão sofrer uma redução real em 2026, algo que não ocorria desde 1993, desconsiderando o período da pandemia.

O instituto atribui a deterioração à combinação de três fatores: aceleração inesperada da inflação, diminuição do emprego assalariado e reajustes salariais insuficientes para acompanhar integralmente o aumento dos preços.

A previsão representa uma mudança importante em relação a 2025. Naquele ano, a queda do poder de compra agregado das famílias esteve relacionada principalmente ao recuo dos rendimentos patrimoniais após as distribuições extraordinárias de dividendos em 2024. Desconsiderados os rendimentos do patrimônio, o poder de compra havia aumentado 0,5%.

Em 2026, o cenário se inverte

A pressão não está concentrada nos rendimentos financeiros, mas na renda produzida pelo trabalho, atingindo uma parcela mais ampla da população. E o aumento dos preços amplia essa deterioração.

Entre 2015 e o primeiro semestre de 2026, os alimentos ficaram aproximadamente 35% mais caros na França, enquanto a energia acumulou elevação superior a 60%. O gás encanado mais do que dobrou de preço e a eletricidade registrou alta de 43%. No mesmo período, frutas ficaram 51% mais caras, vegetais tiveram aumento de 56% e óleos e manteiga acumularam elevação de 61%.

A inflação não foi provocada exclusivamente pelas decisões do governo francês. O próprio INSEE relaciona parte da alta à instabilidade internacional e ao encarecimento dos hidrocarbonetos. Mas o instituto também destaca uma diferença importante entre a resposta governamental à crise energética de 2022 e 2023 e as medidas adotadas em 2026.

Desta vez, o Estado não implementou mecanismos gerais de proteção contra o aumento dos preços da energia, optando por intervenções direcionadas. O relatório observa que, combinada ao enfraquecimento da renda do trabalho, essa decisão ampliou a parcela do choque econômico suportada diretamente pelas famílias.

A consequência é uma deterioração das condições materiais em um período no qual o governo prepara novas medidas de contenção fiscal. Em 17 de setembro, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou um esforço orçamentário de aproximadamente 54 bilhões de euros para 2027. A proposta pretende reduzir o crescimento das despesas públicas sem promover uma elevação generalizada da tributação.

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O ajuste fiscal coloca a proteção social sob pressão

O elevado déficit público, a dívida acumulada e o aumento dos custos de financiamento impõem restrições reais à política orçamentária. Entretanto, os instrumentos escolhidos para enfrentar o desequilíbrio revelam prioridades distributivas.

A proposta de orçamento para 2027, prevê limitar o reajuste de aposentadorias superiores a 1.260 euros mensais, com economia estimada de 4,1 bilhões de euros. Também inclui a redução de benefícios tributários concedidos a aposentados, com arrecadação adicional estimada em 1,4 bilhão.

Na área da saúde, alterações nos preços dos medicamentos e em outras despesas buscam economizar 4 bilhões de euros. Mudanças no pagamento de afastamentos por doença também integram o pacote.

A proposta prevê medidas de arrecadação, inclusive mudanças em benefícios fiscais concedidos a empregadores. Portanto, o ajuste não se resume a cortes sociais. Ainda assim, parte expressiva das economias anunciadas recai sobre aposentadorias, saúde e mecanismos associados à proteção dos trabalhadores.

As medidas permanecem sujeitas à discussão parlamentar e podem ser alteradas antes da aprovação definitiva. É nesse ponto que os indicadores do INSEE revelam uma contradição central.

Em 2024, considerando os rendimentos após os impostos diretos, mas antes do recebimento de prestações sociais, 22,3% da população abrangida estaria abaixo da linha de pobreza. Depois da inclusão desses benefícios, a taxa cai para 15,4%.

A diferença de 6,9 pontos percentuais evidencia a importância das transferências sociais para impedir que milhões de pessoas sejam classificadas como pobres, demonstrando que a proteção social tem peso decisivo nas condições materiais da população e que alterações nessas políticas precisam ser avaliadas por seus efeitos sobre diferentes faixas de renda.

Há outra consequência relevante. O instituto observa que os serviços públicos de educação e saúde também contribuem para reduzir as desigualdades quando são considerados os benefícios recebidos pela população em forma de serviços, mesmo que não sejam transferências monetárias.

Isso aproxima dois elementos que, à primeira vista, parecem separados: os protestos contra a deterioração das escolas e a disputa pelo orçamento nacional.

Ao reivindicar professores e melhores condições de ensino, os estudantes exigem investimentos justamente em uma área que desempenha papel redistributivo. Ao propor contenção de despesas, o governo enfrenta o desafio de demonstrar como pretende preservar esses serviços e os mecanismos de proteção social.

O anúncio emergencial de 3 mil contratações na educação mostra que a pressão das ruas já produziu uma concessão concreta. Também evidencia que o conflito não se limita à rejeição abstrata ao presidente ou à insatisfação com a situação econômica. Existem demandas específicas, relacionadas a serviços públicos e condições materiais, para as quais o governo precisa oferecer respostas.

A insatisfação com o governo Macron

Em 2018, o aumento dos preços dos combustíveis desencadeou as manifestações dos Coletes Amarelos. O movimento rapidamente incorporou críticas à desigualdade econômica, à tributação e à distância entre o governo e a população de menor renda.

Anos depois, a reforma da previdência provocou outra onda de protestos nacionais, com forte participação sindical e questionamentos sobre a distribuição dos sacrifícios exigidos dos trabalhadores.

Em 2026, o conflito retorna com uma composição diferente, iniciada por estudantes e ampliada por reivindicações econômicas e sociais. Além disso, a crise também ocorre em um momento de fragilidade política.

Após a dissolução da Assembleia Nacional e as eleições legislativas antecipadas de 2024, Macron passou a governar diante de um Parlamento fragmentado. O enfraquecimento de sua base política dificultou a negociação de reformas e aumentou a instabilidade institucional.

Os protestos de outubro ampliaram esse desgaste. E a crise política se aprofundou nesta segunda-feira (19), com Macron pressionado pelo descontentamento popular, pelas dificuldades fiscais e pelo crescente afastamento de antigos aliados. 

O Progressista / Cronologia da crise

Das escolas às ruas: como os protestos ganharam a França

O conflito estudantil cresceu em meio às disputas sobre serviços públicos, custo de vida e ajuste fiscal.

17 de setembro de 2026

Ajuste fiscal anunciado

O governo apresenta um esforço de aproximadamente € 54 bilhões para o orçamento de 2027.

Setembro e outubro de 2026

Estudantes vão às ruas

Denúncias de falta de professores, salas superlotadas e precariedade das escolas impulsionam as mobilizações.

9 de outubro

Governo faz concessão

Após a pressão estudantil, anuncia a contratação emergencial de 3 mil educadores.

15 de outubro

INSEE divulga novos dados

Relatório oficial mostra pobreza elevada, concentração patrimonial e riscos para a renda do trabalho.

17 de outubro

Protestos se espalham

Autoridades contabilizam cerca de 550 mil manifestantes. Os organizadores estimam 800 mil participantes.

550 mil

manifestantes segundo os números oficiais, em 17 de outubro.

O PROGRESSISTA

Nesse cenário, organizações sindicais e forças políticas de esquerda ampliaram a mobilização contra as políticas econômicas de Macron, reunindo reivindicações por melhores salários, investimentos na educação pública e preservação dos direitos sociais. As manifestações também reforçaram as críticas à concentração de riqueza e às medidas de austeridade, colocando a distribuição dos recursos públicos no centro da disputa política francesa.

As reivindicações encontram respaldo nos indicadores oficiais de pobreza, desigualdade e perda de poder de compra. Os documentos econômicos revelam que o descontentamento não se limita às dificuldades recentes, mas está relacionado a problemas estruturais que se acumularam ao longo dos anos e que permanecem sem solução ao final de quase uma década de governo.

Portanto, por trás dos protestos está uma disputa sobre o papel do Estado e a distribuição da riqueza: de um lado, decisões tributárias que favoreceram determinados rendimentos do capital; de outro, milhões de pessoas dependentes de salários, aposentadorias e serviços públicos para manter suas condições de vida.

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