Lideranças indígenas do Brasil, Peru, Colômbia e Equador começaram nesta segunda-feira (19), em Viena, na Áustria, uma mobilização internacional para exigir que a Organização das Nações Unidas (ONU) enfrente as redes financeiras responsáveis por sustentar atividades criminosas na Amazônia. A reivindicação ocorre durante a 13ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, realizada até sexta-feira (23), e busca fortalecer o combate ao garimpo ilegal, à exploração clandestina de madeira e ao narcotráfico que ameaçam territórios indígenas.
A pressão dos povos originários coloca em evidência uma dimensão econômica da destruição ambiental: o dinheiro movimentado por organizações que exploram recursos naturais ilegalmente, atravessam fronteiras e abastecem mercados internacionais. Enquanto essas atividades geram receitas para redes criminosas, comunidades indígenas convivem com a contaminação dos rios, a devastação das florestas e ameaças de morte.
Segundo a organização Amazon Watch, os crimes ambientais na região estão cada vez mais conectados a cadeias internacionais de comercialização de ouro, drogas e madeira. A entidade defende que o enfrentamento dessas atividades alcance também os fluxos financeiros e os mercados responsáveis por sustentar as operações ilegais.
A dimensão da violência aparece nos dados da organização Global Witness. Somente em 2025, pelo menos 124 defensores da terra e do meio ambiente foram assassinados no mundo. Desse total, 105 mortes ocorreram na América Latina, responsável por 85% dos registros. A Colômbia liderou a estatística, com 39 assassinatos, seguida pelo Brasil, com 26.
Os números revelam o risco enfrentado por comunidades que resistem à exploração ilegal dos territórios. Segundo a Global Witness, mais de um terço dos assassinatos documentados mundialmente apresentou vínculos com organizações criminosas ou assassinos contratados. Povos indígenas, camponeses e populações afrodescendentes representaram mais de três quartos das vítimas.
No Peru, a violência atingiu diretamente o povo Kakataibo. De acordo com Marcelo Odicio, presidente da Federação das Comunidades Nativas Kakataibo, seis lideranças indígenas foram assassinadas desde 2020. Traficantes instalaram plantações ilegais de coca e laboratórios de processamento de drogas em áreas de florestas ancestrais, ampliando a presença de organizações armadas.
A resistência também ocorre na fronteira entre Brasil e Peru. O povo Wampis estabeleceu postos de vigilância indígena para combater a mineração ilegal de ouro, enquanto comunidades Ashaninka denunciam ameaças relacionadas à extração clandestina de madeira e às rotas utilizadas pelo narcotráfico.
Em julho, segundo relato do líder indígena Francisco Piyako Apiwtxa à Associated Press, pelo menos cinco homens armados e encapuzados invadiram uma comunidade Ashaninka, ameaçaram famílias e procuraram lideranças locais. O episódio evidencia a exposição das populações que atuam diretamente na defesa da floresta.
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A delegação indígena cobra que a conferência avance na criação de um protocolo internacional específico para crimes ambientais. A proposta pretende fortalecer a cooperação entre países na investigação e responsabilização de organizações envolvidas em mineração ilegal, exploração madeireira e tráfico de animais silvestres.
O Brasil está entre os protagonistas da iniciativa. Em manifestação apresentada nesta segunda-feira (19), a União Europeia reconheceu a liderança brasileira nas discussões sobre um possível protocolo adicional à convenção da ONU contra o crime organizado transnacional.
Para as lideranças indígenas, entretanto, a participação dos povos originários precisa integrar a construção das novas medidas. A reivindicação inclui reconhecimento das guardas territoriais indígenas, proteção às comunidades ameaçadas e mecanismos capazes de rastrear o dinheiro obtido com a exploração ilegal.
A atuação dos próprios indígenas já representa uma forma concreta de enfrentamento ao crime organizado. Guardas comunitárias, sistemas de monitoramento e ações de vigilância territorial ajudam a identificar invasões e proteger áreas ameaçadas pela mineração e pelo narcotráfico.
O debate em Viena coloca uma questão central para a proteção da Amazônia: combater os crimes ambientais exige enfrentar não apenas quem invade e destrói a floresta, mas também as redes econômicas que financiam e comercializam os produtos dessas atividades.
Ao exigirem participação nas decisões internacionais, os povos indígenas reivindicam o reconhecimento de seu papel na defesa dos territórios e demonstram que a preservação ambiental também depende do enfrentamento aos interesses financeiros envolvidos na exploração criminosa dos recursos naturais.


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