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Flávio Bolsonaro
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A celebração dos 100 anos da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, realizada no sábado (10), no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, tornou-se palco de uma demonstração de apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Diante do senador e de milhares de fiéis, o bispo Samuel Ferreira estimulou o público a repetir a expressão “irmão vota em irmão” e afirmou que, se pudesse pedir votos, pediria para Flávio. Apresentado como futuro presidente da República, o candidato discursou sobre uma “guerra espiritual” enfrentada pelo Brasil. A duas semanas do segundo turno, a cerimônia expôs a influência de lideranças evangélicas na mobilização eleitoral em torno do bolsonarismo.

A aproximação, entretanto, não começou naquela celebração. Em 15 de março de 2023, representantes da Assembleia de Deus Ministério de Madureira e da Igreja Batista da Lagoinha participaram da instalação da Frente Parlamentar Evangélica do Senado, presidida por Carlos Viana e integrada por Flávio Bolsonaro. O encontro reuniu dirigentes religiosos e parlamentares em torno de uma agenda que pretendia ampliar a influência de valores cristãos sobre a legislação brasileira.

Entre os convidados estavam Flávio Félix, apresentado como ministro e diretor da Lagoinha Global, e João Adair, representante da Assembleia de Deus Ministério de Madureira. Carlos Viana assumiu a presidência, com Damares Alves na vice-presidência. Flávio Bolsonaro, Jorge Seif, Magno Malta e Rogério Marinho figuravam entre os senadores que haviam aderido ao colegiado.

Infográfico apresenta a cronologia das relações entre Flávio Bolsonaro e lideranças evangélicas, desde a instalação da Frente Parlamentar Evangélica no Senado, em 2023, até o apoio de Samuel Ferreira à candidatura presidencial no Maracanãzinho, em outubro de 2026.
Infográfico apresenta a cronologia das relações entre Flávio Bolsonaro e lideranças evangélicas, desde a instalação da Frente Parlamentar Evangélica no Senado, em 2023, até o apoio de Samuel Ferreira à candidatura presidencial no Maracanãzinho, em outubro de 2026.

As notas taquigráficas da reunião registram que João Adair transmitiu os cumprimentos de Samuel Ferreira e de outros dirigentes do Ministério de Madureira. Segundo o pastor, a denominação estava “de mãos dadas” com Carlos Viana na criação do grupo. A declaração documenta a aproximação institucional entre a liderança que apoiaria Flávio na campanha presidencial de 2026 e o núcleo parlamentar organizado três anos antes.

Na mesma sessão, Flávio Félix reafirmou a disposição da Lagoinha de colaborar com o trabalho dos senadores. O dirigente se dirigiu a Carlos Viana e Damares Alves como pessoas com quem já mantinha relações e defendeu a integração das frentes evangélicas da Câmara e do Senado. A igreja comandada por André Valadão passava a ocupar publicamente um espaço de interlocução com parlamentares responsáveis pela formulação de leis e pelo acompanhamento de políticas públicas.

O objetivo político dessa articulação foi explicitado pelo deputado Eli Borges (PL-TO), então dirigente da Frente Parlamentar Evangélica na Câmara. Durante seu pronunciamento, afirmou que pretendia contribuir para deixar “as marcas de Deus no ordenamento jurídico brasileiro”. Também propôs reuniões regulares entre representantes das duas Casas para discutir e acompanhar matérias de interesse do grupo.

A declaração revela uma concepção de representação parlamentar em que valores religiosos devem encontrar expressão na legislação nacional. Seu alcance ultrapassa os interesses internos das denominações: uma vez transformadas em leis, essas posições podem estabelecer obrigações e restrições para toda a sociedade, composta por cidadãos de diferentes crenças e pessoas sem religião.

A continuidade da articulação aparece nos registros posteriores. Em fevereiro de 2025, Flávio Bolsonaro teve sua presença registrada na eleição da comissão executiva da frente, que manteve Carlos Viana na presidência e Damares Alves na vice-presidência. O colegiado consolidava um canal de interlocução entre lideranças religiosas e parlamentares envolvidos nas decisões legislativas, orçamentárias e institucionais.

Essas relações alcançam também a administração de entidades assistenciais. A Fundação Oásis, vinculada à Lagoinha, mantém serviços de acolhimento e atividades educacionais em Minas Gerais, financiados por doações, receitas próprias e recursos públicos.

Seu presidente, Flávio Henrique Félix Corrêa, também conhecido como pastor Flávio Félix, aparece em registros cadastrais e contábeis da instituição. O dirigente religioso que participou da instalação da frente parlamentar integra, portanto, a administração de uma entidade beneficiária de indicações orçamentárias realizadas por seu presidente, Carlos Viana.

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Fundação Oásis: quase R$ 9 milhões em recursos públicos

As demonstrações contábeis publicadas pela Fundação Oásis revelam crescimento expressivo das receitas provenientes de subvenções e convênios governamentais. O levantamento realizado por O Progressista, a partir das rubricas apresentadas pela própria instituição, identificou R$ 6,54 milhões em recursos públicos reconhecidos em 2023, considerando os valores reapresentados pela entidade, e R$ 8,97 milhões em 2024. O aumento foi de aproximadamente R$ 2,42 milhões, equivalente a 37,05% em apenas um ano.

Na assistência social, as subvenções e convênios passaram de R$ 2,89 milhões para R$ 4,09 milhões. Na educação, cresceram de R$ 3,66 milhões para R$ 4,88 milhões. O crescimento elevou a presença do financiamento governamental nas atividades da instituição, embora as demonstrações também registrem deterioração de seu resultado operacional. Segundo a Demonstração do Resultado do Período, o superávit reapresentado de aproximadamente R$ 446,2 mil em 2023 deu lugar a um déficit de R$ 688,8 mil no exercício seguinte.

Os valores representam receitas reconhecidas contabilmente, provenientes de diferentes programas públicos e parcerias municipais. Sua composição não se restringe às emendas de Carlos Viana. A importância do levantamento está na dimensão assumida pelos recursos governamentais na estrutura de uma organização religiosa que também mantém relações institucionais com agentes responsáveis pela destinação de verbas federais.

Em 2020, a Prefeitura de Belo Horizonte registrou uma programação de R$ 1,5 milhão, atribuída a Carlos Viana e destinada nominalmente à Fundação Oásis. O dinheiro tinha como finalidade financiar serviços de acolhimento institucional, incluindo projetos voltados a idosos e crianças. A escolha da entidade ocorreu no âmbito de uma programação federal vinculada à política de assistência social.

A relação orçamentária prosseguiu nos anos seguintes. Em junho de 2026, o Diário Oficial de Capim Branco, município da região metropolitana de Belo Horizonte, publicou o Termo de Fomento nº 001/2026, destinado à manutenção de um serviço de acolhimento para até 30 idosos. O instrumento previa R$ 1.045.503,38 à Fundação Oásis, sendo R$ 1 milhão de emenda indicada por Carlos Viana e R$ 45.503,38 provenientes de rendimentos financeiros.

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O documento de homologação registra que a parceria foi formalizada sem chamamento público, com fundamento na indicação parlamentar específica à entidade e nas condições técnicas apresentadas para a execução do serviço. A administração municipal utilizou um mecanismo previsto na legislação das organizações da sociedade civil, mas os registros mostram que a escolha nominal da Fundação já constava da indicação parlamentar.

As transferências passaram a ser questionadas no Supremo Tribunal Federal. Em março de 2026, o ministro Flávio Dino determinou esclarecimentos sobre a destinação de recursos à Fundação Oásis, diante de dúvidas sobre transparência e rastreabilidade. Os procedimentos também foram examinados pela Controladoria-Geral da União (CGU), órgão responsável pela fiscalização da aplicação de recursos federais.

Um relatório original da CGU, concluído em maio de 2022, fornece evidências sobre a participação do parlamentar na escolha da instituição. Ao examinar a transferência especial nº 40870001, o órgão identificou que R$ 700 mil haviam sido destinados à Fundação Oásis por indicação de Carlos Viana, sem definição prévia do objeto e sem chamamento público. A auditoria questionou a compatibilidade desse direcionamento com as regras da modalidade orçamentária utilizada, que atribuíam ao município a competência para decidir sobre a aplicação dos recursos.

A conclusão se apoiou em informações prestadas pela própria Prefeitura de Belo Horizonte. Segundo a documentação reproduzida pela CGU, a Secretaria Municipal de Assistência Social afirmou que a identificação da Fundação Oásis como beneficiária havia sido estabelecida pelo parlamentar, e não pela administração municipal. O relatório também registrou pendências fiscais da entidade e demora na execução da transferência.

Os R$ 700 mil não chegaram a ser repassados à fundação. Em manifestação enviada ao STF em abril de 2026, a Prefeitura informou que a transferência especial acabou sendo aplicada na construção de uma quadra poliesportiva. A administração também distinguiu essa operação de outra programação de R$ 1,5 milhão destinada a serviços assistenciais da Fundação Oásis, cuja prestação de contas, segundo o município, foi analisada e considerada regular. Carlos Viana negou irregularidades nas indicações.

Os registros revelam um mecanismo de influência orçamentária que merece atenção para além dos valores envolvidos. A indicação parlamentar de beneficiários, a participação de dirigentes religiosos em estruturas políticas e a execução de serviços públicos por entidades confessionais concentram decisões em diferentes pontos de uma mesma rede institucional. A transparência sobre quem escolhe os destinatários, quem autoriza os pagamentos e quem fiscaliza sua aplicação torna-se decisiva para impedir que relações políticas privilegiadas se sobreponham aos critérios públicos de distribuição dos recursos.

Infográfico compara as receitas de subvenções e convênios governamentais da Fundação Oásis, que passaram de R$ 6,54 milhões em 2023 para R$ 8,97 milhões em 2024, crescimento de 37,05%. Apresenta a distribuição entre assistência social e educação, os resultados contábeis e as indicações orçamentárias de Carlos Viana.
Infográfico compara as receitas de subvenções e convênios governamentais da Fundação Oásis, que passaram de R$ 6,54 milhões em 2023 para R$ 8,97 milhões em 2024, crescimento de 37,05%. Apresenta a distribuição entre assistência social e educação, os resultados contábeis e as indicações orçamentárias de Carlos Viana.

Banco Master: dinheiro, pastores e acesso ao poder

Em paralelo aos fatos investigados pelo O Progressista para essa reportagem, acrescenta-se uma dimensão empresarial às relações entre integrantes do bolsonarismo e lideranças evangélicas, envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Seu cunhado, Fabiano Zettel, exerceu funções pastorais na Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, enquanto participava de operações financeiras relacionadas ao banqueiro.

Zettel já havia se destacado como financiador eleitoral. Em 2022, quando mantinha vínculo com outra denominação religiosa, doou R$ 3 milhões à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões à candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo, conforme registros da Justiça Eleitoral.

Em março de 2026, a Folha de S.Paulo identificou, a partir de extratos bancários, 54 transferências de Zettel à Lagoinha Belvedere que totalizaram R$ 40,9 milhões entre outubro de 2024 e janeiro de 2026. Outro levantamento, baseado em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), apontou R$ 57,1 milhões movimentados em uma conta da unidade religiosa, somando entradas e saídas em período parcialmente coincidente. O volume das operações, considerado incompatível com o faturamento presumido da instituição, levou o órgão a classificá-las como atípicas.

A Lagoinha Global declarou desconhecer a dimensão das movimentações e sustentou que suas unidades possuem autonomia administrativa e financeira. Os registros bancários passaram a integrar o conjunto de informações examinadas no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master.

As conexões empresariais chegaram diretamente a Flávio Bolsonaro nas negociações para financiar Dark Horse, produção cinematográfica dedicada à trajetória política de Jair Bolsonaro. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal e examinadas pela revista piauí mostram contatos entre o senador e Vorcaro relacionados à captação de US$ 24 milhões para o projeto. A apuração identificou aproximadamente US$ 12,3 milhões em remessas conhecidas, realizadas por uma estrutura financeira que envolvia intermediários e um fundo nos Estados Unidos.

Fabiano Zettel aparece nas tratativas como operador acionado pelo cunhado para viabilizar pagamentos. Sua participação estabelece uma conexão pessoal entre as negociações envolvendo Flávio e o círculo empresarial que também mantinha relações financeiras com a Lagoinha Belvedere. O senador reconheceu sua atuação na captação de recursos para o filme, mas negou a existência de contrapartidas políticas indevidas.

A influência de André Valadão nesse ambiente aparece nas relações entre Vorcaro e Nikolas Ferreira (PL-MG). Em abril de 2024, depois que o deputado criticou um evento realizado em Londres com patrocínio do Banco Master, o banqueiro procurou o pastor para intermediar uma conversa. Áudios divulgados pelo ICL Notícias documentam a intervenção. Meses depois, Nikolas voltou a procurar Vorcaro, dessa vez para tratar de um ativo minerário de interesse de um ex-assessor. O parlamentar confirmou os contatos, mas negou receber vantagens financeiras ou manter contratos com o banqueiro.

A atuação desses intermediários expõe uma função política exercida por determinadas lideranças religiosas para além dos palanques. A proximidade com parlamentares pode abrir canais de comunicação e negociação para empresários, ampliando a influência de dirigentes que também possuem capacidade de mobilização social e eleitoral. A autoridade conquistada no ambiente religioso passa, assim, a circular por espaços de decisão econômica e política.

Esse trânsito também alcançou o Judiciário. Em março de 2025, Vorcaro reuniu-se com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, após uma aproximação intermediada pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e pelo advogado Ciro Rocha Soares. Mendonça confirmou o encontro, declarou que a conversa tratou de precatórios e negou irregularidades. 

A influência dessas articulações também encontra expressão em propostas legislativas apresentadas por parlamentares associados ao mesmo campo político-religioso.

Em maio de 2024, Flávio Bolsonaro invocou expressamente a Frente Parlamentar Evangélica para justificar sua orientação de bancada sobre dispositivos da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Um ano antes, durante a instalação do colegiado no Senado, Eli Borges havia defendido a incorporação de valores religiosos ao ordenamento jurídico brasileiro.

Em junho de 2024, o mesmo Eli Borges participou da apresentação do Requerimento nº 1861/2024, solicitando urgência para o Projeto de Lei 1904/2024. A proposta, apresentada inicialmente por Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e outros deputados, pretende equiparar ao homicídio o aborto realizado após 22 semanas de gestação, inclusive nas hipóteses de gravidez decorrente de estupro.

A Câmara aprovou a urgência em 12 de junho de 2024, conforme os registros oficiais de tramitação, embora o conteúdo do projeto não tenha sido aprovado definitivamente. Sóstenes mantém relação política pública com Silas Malafaia, dirigente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que participa de campanhas eleitorais e apoia parlamentares conservadores.

A convergência entre posições confessionais e propostas legislativas também aparece nas disputas sobre educação, família e direitos individuais. No estudo “Pautas em disputa na política brasileira”, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) examinou milhares de proposições relacionadas ao campo religioso apresentadas durante a 57ª Legislatura, identificando diferentes formas de incorporação de argumentos religiosos à atividade parlamentar.

Os registros mostram uma sequência institucional: valores defendidos por lideranças religiosas são incorporados ao discurso de parlamentares, orientam votações e encontram expressão em projetos capazes de modificar direitos e obrigações de toda a população. 

Mapa de conexões mostra Flávio Bolsonaro no centro de relações políticas e religiosas envolvendo Samuel Ferreira, Carlos Viana, André Valadão, Silas Malafaia, Flávio Félix e outros personagens, além da Fundação Oásis, do Banco Master e de articulações no Congresso Nacional.
Mapa de conexões mostra Flávio Bolsonaro no centro de relações políticas e religiosas envolvendo Samuel Ferreira, Carlos Viana, André Valadão, Silas Malafaia, Flávio Félix e outros personagens, além da Fundação Oásis, do Banco Master e de articulações no Congresso Nacional.

A Constituição, o Supremo e os limites do poder religioso

A aproximação entre Flávio Bolsonaro e lideranças evangélicas ganha outra dimensão diante da disputa pelas instituições responsáveis por elaborar e interpretar as leis. Em outubro de 2026, o candidato defendeu mudanças na Constituição e afirmou que a nova composição do Congresso permitiria avançar em reformas destinadas, em suas palavras, a “redemocratizar este país”. Entre as propostas apresentadas pelo senador estão alterações nas regras eleitorais, a redução da maioridade penal e mudanças no funcionamento do Judiciário.

As reformas constitucionais exigem aprovação por três quintos dos integrantes da Câmara e do Senado, em dois turnos de votação em cada Casa. A Constituição de 1988 também estabelece cláusulas pétreas destinadas a proteger direitos e garantias individuais, a separação dos Poderes, a federação e o voto direto, secreto, universal e periódico. 

Entretanto, o fortalecimento das bancadas conservadoras nas eleições legislativas de 2026 amplia sua capacidade de negociação sobre essas propostas e intensifica as disputas relacionadas à atuação do Supremo Tribunal Federal, que até 2030 terá quatro indicações pelo próximo presidente, considerando a vaga aberta com a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso e as aposentadorias compulsórias previstas de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes.

Em um tribunal de onze integrantes, seis nomeações feitas pelo bolsonarismo, considerando as 2 durante os anos de chumbo de Jair Bolsonaro e mais 4 caso Flávio vença as eleições executivas, representam uma alteração expressiva de sua composição e, potencialmente, do equilíbrio entre diferentes interpretações constitucionais, uma vez que a composição do STF influencia diretamente a interpretação de questões relacionadas à liberdade de expressão, aos direitos reprodutivos, à educação, à igualdade perante a lei e à autonomia das instituições públicas. O tribunal também desempenha papel central na preservação das garantias constitucionais diante de leis e atos governamentais que possam ultrapassar os limites impostos ao exercício do poder.

Entre essas garantias está a laicidade do Estado. O artigo 19 da Constituição proíbe o estabelecimento de cultos oficiais e relações de dependência ou aliança entre governos e instituições religiosas, ressalvadas as formas legais de colaboração de interesse público. A norma preserva a autonomia das instituições estatais e impede que uma confissão adquira autoridade pública sobre os direitos de cidadãos que não compartilham da mesma crença.

As relações documentadas entre Flávio Bolsonaro, dirigentes da Lagoinha, representantes da Assembleia de Deus e integrantes do PL mostram diferentes caminhos pelos quais a influência religiosa alcança as decisões do Estado. As atas parlamentares registram a articulação institucional entre denominações e legisladores. O pronunciamento de Flávio demonstra a utilização de posições confessionais para orientar uma votação sobre o orçamento federal. Os documentos da Fundação Oásis expõem a importância do financiamento governamental para uma entidade ligada à igreja, enquanto os registros legislativos mostram como agendas religiosas encontram expressão em propostas de alcance nacional.

A reunião desses mecanismos em um ambiente de reformas constitucionais e disputa pela composição do Supremo amplia as consequências possíveis dessas articulações. Maiorias parlamentares podem modificar leis e políticas públicas; indicações ao Judiciário podem influenciar a interpretação dos direitos fundamentais; e o controle sobre a destinação de recursos públicos pode fortalecer organizações com acesso privilegiado às estruturas políticas. A independência entre Estado e religião depende de que essas decisões permaneçam submetidas a critérios públicos, transparência e garantias constitucionais válidas para todos os cidadãos.

Um Estado não precisa declarar uma religião oficial para que sua laicidade seja enfraquecida. Esse processo também pode ocorrer gradualmente, quando a autoridade religiosa se converte em influência privilegiada sobre a legislação, o orçamento e as instituições encarregadas de proteger os direitos individuais. A trajetória reconstruída nesta reportagem evidencia os pontos em que poder confessional, articulação partidária e interesses econômicos passam a ocupar os mesmos espaços de decisão. É nessa convergência, especialmente diante das possibilidades de alteração constitucional e recomposição do Supremo, que se encontra a dimensão institucional do alerta: a preservação de uma democracia em que nenhuma crença, por maior que seja sua influência eleitoral, determine os limites dos direitos e das liberdades de toda a sociedade.


Como apuramos

O Progressista cruzou o pronunciamento oficial de Flávio Bolsonaro sobre a LDO, em maio de 2024, as notas taquigráficas da instalação da Frente Parlamentar Evangélica, os registros de reuniões do colegiado, os documentos de emendas da Prefeitura de Belo Horizonte, o Diário Oficial de Capim Branco, o relatório de avaliação nº 1033878 da CGU, a manifestação municipal apresentada ao STF e os registros de tramitação legislativa na Câmara e no Senado. O levantamento financeiro utilizou a extração textual indexada da Demonstração do Resultado do Período da Fundação Oásis, com os valores reapresentados de 2023. Os episódios relacionados ao Banco Master foram contextualizados a partir de investigações publicadas pela Folha de S.Paulo, revista piauí e ICL Notícias, com atribuição às apurações originais e consideração das manifestações públicas dos envolvidos.

José Carlos Sanchez Jr.

José Carlos Sanchez Jr.

Jornalista especializado em política, democracia, desigualdades e relações internacionais, com atuação em reportagens baseadas em dados, documentos públicos e análise de impacto social.

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