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Dar a outra face
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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A reeleição de Lula mal havia sido confirmada nas urnas e um comentarista de política de um dos canais de televisão já se apressava em conclamar Lula a pacificar o país.

Primeiramente, é necessário que sejam relembrados alguns fatos para a melhor compreensão de tal “aconselhamento”.

Desde a eleição de Dilma Russeff em 2014, a chamada “direita tradicional” vem contestando o resultado das eleições nas quais o Partido dos Trabalhadores se sagrou vitorioso. Apenas para lembrar, Aécio Neves pôs em dúvida a lisura do pleito, dividindo o país entre o “nós e eles”. Brigou sem sucesso pela cassação da chapa vencedora, pois não havia motivo algum para isso, mas conseguiu plantar a sementinha da discórdia no eleitorado. Diante da derrocada eleitoral de seu partido por problemas interna corporis – leia-se, intervenções de João Agripino da Costa Doria Júnior –, a agremiação enveredou pelo apoio à extrema Direita, situação comum, aliás, no resto do mundo e em diversos momentos da História.

Fato é que o partido e seus aliados, ditos “de direita moderada”, foram engolidos pela máquina fascista ou, na melhor das hipóteses, passaram a reforçar o time do “Centrão”, que sabemos, não está muito interessado no futuro da nação e em soberania do Estado Brasileiro. A preocupação maior deste grupo político é a de receber verbas públicas decorrentes das emendas parlamentares e do fundo eleitoral.

Perpassando rapidamente alguns fatos, como o golpe contra Dilma e a prisão ilegal de Lula, instala-se em Brasília o (des)governo do Capitão Jair Messias e, junto com ele, a destruição do país e de parte das instituições.

O governo “Lula 3”, eleito em 2022, conseguiu reerguer o país das cinzas, mesmo tendo superado mais uma tentativa de golpe com a criminosa abolição violenta do Estado Democrático de Direito, além de enfrentar a hostilidade de parte substancial do Congresso Nacional e uma nova conjuntura internacional adversa (principalmente com os tarifaços estadunidenses de Trump).

Disputando a eleição de 2026 contra o “filho ungido” de Jair Messias, Lula conseguiu uma virada histórica no segundo turno, angariando o apoio da juventude e dos idosos, já calejados pelos anos de ditadura. O “General” André Janones proporcionou ao Presidente debutar e brilhar na comunicação digital de eleitores, até então “adormecidos” ou desestimulados com a política, chamando o povo a manifestar seu poder, situação que se refletiu nas urnas.

Diante de todos esses percalços e aos oitenta e um anos, governando o país e ao mesmo tempo lutando diuturnamente numa campanha eleitoral recheada de mentiras, de acusações falsas, além de violência da campanha opositora, ao ganhar a eleição é exigido do Presidente que “ofereça a outra face” aos extremistas de direita, visando a pacificação de um país “polarizado”, como se diz há tempos? É isso mesmo que o jornalista pretende de Lula?

Como é sabido, o Presidente sempre foi um conciliador, desde os tempos de sindicalista e também na política, quando passou a ocupar o cargo máximo do Executivo. Lula jamais se furtou ao diálogo e sempre esteve à disposição para negociar, sendo até criticado pela própria esquerda. O Presidente sempre quis e sempre governou para todos os brasileiros, até para esses seguidores do lado oposto!

Mas será mesmo que esse “outro lado” está disposto a aceitar essa pacificação? Será que estariam mesmo interessados em contribuir para um projeto mínimo de nação, que incluísse melhoria do bem-estar dos pobres, dos trabalhadores, dos portadores de deficiência, dos vulneráveis de toda espécie? Estariam mesmo dispostos a coibir crimes, principalmente os praticados por organizações que rondam seu cotidiano? Apoiariam as medidas efetivas para a segurança pública? Estariam inclinados ao combate do crime organizado instalado no poder paralelo da Faria Lima? Estariam interessados em proteger nossa soberania, o meio ambiente, ou somente continuariam na intenção de entregar nossas riquezas em troca de interesses pessoais, cortando todo orçamento destinado a melhorar o bem-estar social, passando até por uma absurda anistia aos crimes praticados pelo capitão e por seus golpistas violentos?

Deixo, então, uma simples reflexão.

Ao invés de exigir de Lula que dê o primeiro passo, oferecendo um novo pacto visando a pacificação do país, por que, desta vez, não se exige a responsabilidade do candidato derrotado para conclamar seus seguidores a “depositar as armas” de uma vez por todas, aceitando a governança eleita pelo povo, desestimulando a beligerância, cessando-se o conflito – inclusive o armado, obra do (des)governo do pai, Jair Messias –, exercendo de fato a liderança que julga possuir? Por que não estimula seus seguidores a tolerar as diferenças para com o adversário político (não “inimigo”), se limitando a criticar com seriedade e responsabilidade os atos de governo que, porventura, julgar equivocados ou inadequados? O país não tolera mais a oposição cega, feito por mera sabotagem, sem critério técnico e até mesmo por motivos escusos. Talvez seja muita ingenuidade esperar algo diferente, mas sempre é oportuno o debate.

Infelizmente, ao não aceitar, sequer, o resultado da eleição, o candidato derrotado deixa transparecer que seu grupo político continuará a fazer justamente o contrário, ou seja, continuará a dificultar ainda mais a vida do novo governo, de forma totalmente irresponsável e infame, ao invés de promover a almejada pacificação do país. Mas, por certo, a intenção que se descortina a partir das atitudes do opositor, continuará a ser insuflada pelo líder e seu grupo político de péssima reputação.

Assim sendo, parece inoportuna a exortação formulada pelo comentarista político.

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