Certa vez, em suas Teses sobre Feuerbach, Karl Marx afirmou que os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o desafio que se coloca a nós, entretanto, é transformá-lo.
Esse desafio não diz respeito apenas às relações de produção, aos conflitos entre a classe trabalhadora e a burguesia ou às relações de exploração impostas pelos grandes detentores dos meios de produção. A crítica marxiana continua a reverberar na história e a se fazer presente nos debates políticos, sociais e econômicos contemporâneos, sobretudo quando observamos a permanência das contradições do capitalismo. É preciso, contudo, ampliar o alcance dessa reflexão e reconhecer que, indissociáveis das relações de exploração econômica, estão também os efeitos devastadores da exploração ambiental e da degradação do planeta, processos intensificados desde a Revolução Industrial.
Nos últimos meses, diversos estados brasileiros sentiram os impactos de eventos climáticos extremos, que provocaram perdas humanas, prejuízos materiais e graves consequências sociais. Segundo dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM), o fenômeno El Niño afetou 6,9 milhões de brasileiros somente entre 1º de julho e 30 de setembro deste ano. Os prejuízos materiais chegaram a R$ 12 bilhões, enquanto 25 mortes foram registradas no período.
Não estamos falando, portanto, de meros fenômenos naturais, como aqueles que costumamos associar às mudanças climáticas em narrativas de ficção, a exemplo da animação A Era do Gelo. Aliás, se dependesse de Sid, Manny e Diego, talvez a explicação para as transformações do planeta estivesse em mais uma aventura desastrosa daquele trio. Mas a realidade é bem menos divertida: não estamos diante de uma nova era glacial, tampouco de uma simples aventura pré-histórica. Estamos diante de eventos climáticos cuja intensificação tem raízes antropogênicas, isto é, está diretamente relacionada à ação humana sobre o meio ambiente. Não se trata de negar a existência de fenômenos naturais, mas de compreender que a intervenção humana, especialmente por meio de um modelo de produção e consumo predatório, tem alterado profundamente o equilíbrio climático do planeta.
De um lado do planeta, populações inteiras, territórios e modos de vida são desapossados em nome da exploração de combustíveis fósseis e da expansão de interesses econômicos. De outro, milhões de pessoas têm suas vidas ameaçadas ou interrompidas por eventos climáticos extremos, cuja intensidade é agravada pela emissão de gases de efeito estufa, entre eles o dióxido de carbono (CO₂), proveniente, em grande medida, da queima desses mesmos combustíveis. Há, portanto, uma contradição que não podemos ignorar: enquanto determinados interesses econômicos se apropriam da natureza e de seus recursos, as consequências dessa exploração são socializadas, recaindo sobretudo sobre as populações mais vulneráveis. É a lógica de possuir para desapossar: transformar o planeta em propriedade, recurso e mercadoria, mesmo que isso signifique comprometer suas próprias condições de existência.
Marx nos deixou uma provocação que permanece atual: não basta interpretar o mundo, é preciso transformá-lo. Talvez seja necessário, diante da crise ambiental que atravessamos, acrescentar que também precisamos impedir que ele seja destruído em nome daquilo que chamamos de desenvolvimento. O neoliberalismo, ao submeter cada vez mais dimensões da existência à lógica do mercado, da acumulação e do lucro, representa um caminho para a morte total: não apenas a morte de ecossistemas, espécies e territórios, mas também das condições materiais que sustentam a própria vida humana.
Se você considera exagerada essa afirmação, converse com os povos cujos territórios ancestrais foram colonizados, cujas culturas foram violentadas e cujas formas de existência foram destruídas em nome da expansão econômica. Talvez muitos já não estejam aqui para contar suas histórias. Outros continuam resistindo, apesar de séculos de expropriação e violência.
A questão, portanto, não é apenas o que estamos fazendo com o planeta, mas que humanidade estamos construindo quando a possibilidade de acumular riqueza se sobrepõe ao direito de existir. Afinal, de que adianta possuir o mundo se, ao final, já não houver mundo para habitar?


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