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Oseias Marques
Créditos: Arquivo pessoal | Clarice Marques
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CURITIBA (PR) — A felicidade deixou de ser apenas uma aspiração humana para se tornar uma obrigação social. Na avaliação do filósofo e psicanalista Oseias Marques, a sociedade contemporânea transformou o bem-estar em mercadoria e passou a tratar a tristeza como sinal de fracasso individual. O fenômeno, segundo ele, está relacionado à cultura do consumo, à competitividade e à exposição permanente nas redes sociais.

“Já não basta ser feliz: é preciso parecer feliz, exibir a felicidade e transformá-la em objeto de consumo”, afirma Marques em entrevista exclusiva concedida a O Progressista.

Autor do livro “Felicidade: Plenitude e Mal-estar” que está disponível para venda no portal da Uiclap, o filósofo questiona a ideia de que uma vida bem-sucedida depende exclusivamente do esforço pessoal. Para ele, essa interpretação desconsidera as condições econômicas e sociais que influenciam as experiências individuais e contribui para responsabilizar as pessoas pelo próprio sofrimento.

Ao analisar as transformações do mundo do trabalho, o pesquisador argumenta que a exploração capitalista deixou de atingir apenas o corpo dos trabalhadores e passou a alcançar também sua subjetividade. A exigência constante de produtividade, afirma, produz ansiedade, esgotamento e sentimentos de insuficiência.

“Até o descanso pode ser vivido como perda de tempo”, observa.

As redes sociais representam outra dimensão desse processo. Na avaliação de Marques, a exposição contínua de conquistas, corpos e estilos de vida alimenta comparações que interferem na maneira como os indivíduos percebem a si mesmos. O desejo passa a ser orientado não apenas pelas próprias necessidades, mas também por aquilo que os outros exibem.

O filósofo identifica consequências especialmente preocupantes entre os jovens. Professor, ele relata observar estudantes submetidos a expectativas crescentes de desempenho e reconhecimento, enquanto encontram dificuldades para construir perspectivas de futuro.

“Não podemos exigir que uma geração tenha esperança quando o mundo que estamos construindo parece não lhe oferecer razões para esperançar”, afirma.

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Embora defenda a importância das condições sociais para compreender o sofrimento, Marques ressalta que as interpretações filosóficas não substituem a atenção às experiências particulares nem os cuidados necessários em saúde mental.

A discussão também alcança o campo político. Para o pesquisador, a filosofia precisa ultrapassar os ambientes acadêmicos e participar do debate público sobre desigualdade, autoritarismo, democracia e as transformações provocadas pelas tecnologias digitais.

É com essa proposta que Oseias Marques passa a integrar o quadro de colunistas de O Progressista. Em seus textos, pretende aproximar conceitos filosóficos das questões cotidianas e estimular reflexões sobre os desafios da sociedade contemporânea.

“Acredito que escrever é assumir uma posição diante do mundo”, afirma.

Confira a seguir a íntegra da entrevista concedida a O Progressista.

Oseias Marques
Creditos: Arquivo pessoal | Clarice Marque

1 — No livro Felicidade: Plenitude e Mal-estar, o senhor questiona a transformação da felicidade em um ideal permanente. Em que momento a felicidade deixa de ser uma possibilidade humana e passa a funcionar como uma obrigação social? Que consequências isso tem para a maneira como lidamos com a tristeza e a frustração?

Na sociedade de consumidores, a felicidade tornou-se um produto. Obliterou-se sua compreensão como um estado de contemplação das virtudes humanas e de cultivo do intelecto, convertendo-a em uma mercadoria destinada à exposição, à ostentação e ao reconhecimento social. Já não basta ser feliz: é preciso parecer feliz, exibir a felicidade e transformá-la em objeto de consumo.

Hoje, em que nossas relações são cada vez mais digitalizadas e mediadas pelas mídias sociais, a compulsão pela comparação ganha novas dimensões. Já não comparamos nossas vidas com as dos outros, tampouco uns aos outros em sua realidade concreta. Comparamos imagens esvaziadas de verdade com outras imagens igualmente esvaziadas. São representações que se confrontam, simulacros que disputam reconhecimento e produzem a ilusão de vidas permanentemente felizes, plenas e bem-sucedidas.

Num mundo assim, a felicidade e a infelicidade passam a adquirir uma dimensão moral. Já não há espaço legítimo para a tristeza, pois estar triste é interpretado como uma espécie de fracasso pessoal, uma falha na condução da própria existência. Ser feliz, por outro lado, converte-se em virtude, quase uma obrigação moral. Essa inversão reforça a imperatividade da felicidade em nosso tempo: não basta desejar ser feliz, é preciso demonstrar felicidade, como se a tristeza fosse algo a ser justificado ou, de preferência, escondido.

2 — A ideia de que o sucesso depende quase exclusivamente do esforço pessoal está muito presente no cotidiano. Como a filosofia e a psicanálise ajudam a compreender a tendência de interpretar o sofrimento como fracasso individual, mesmo quando existem fatores sociais, econômicos e políticos envolvidos?

Vivemos em um sistema que, desde muito cedo, forma indivíduos para serem competitivos. Recordo-me de uma excelente professora de Matemática que, durante uma reunião de pais, elogiou muito meu filho, Davi, pelo excelente desempenho que vinha apresentando. Na ocasião, comentou que, antes dele, havia outro aluno que se destacava por ser o melhor da turma. Com a chegada de Davi, porém, passou a estimular a competitividade entre os dois.

Não quero, evidentemente, analisar a prática pedagógica da professora, que era exemplar, mas o sistema que essa situação reflete tão bem: a lógica do liberalismo, segundo a qual cada indivíduo busca satisfazer seus próprios interesses e, ao final, a chamada mão invisível do mercado seria responsável por harmonizar as relações e eliminar suas contradições. Se, no liberalismo clássico, essa lógica dizia respeito fundamentalmente ao funcionamento do sistema econômico, no neoliberalismo ela se converteu em um verdadeiro ethos, isto é, em uma maneira de ser, pensar e conduzir a própria vida.

Psicanaliticamente, podemos dizer que, hoje, conforme nos explicam Dardot e Laval, incorporamos nosso próprio narcisismo à lógica da empresa. Quando a empresa fracassa, sou eu quem fracassa. O desempenho empresarial deixa de ser apenas um indicador econômico e passa a funcionar como medida do próprio valor do sujeito. Nossas idealizações tornam-se cada vez mais infladas à medida que internalizamos um dos grandes slogans da sociedade contemporânea: Yes, we can. Estabelece-se, assim, uma régua extremamente alta, mas imposta a todos. Nessa lógica, quem é rico e feliz alcançou sua condição pelo próprio esforço; quem é pobre e infeliz, por sua vez, é responsabilizado pelo próprio fracasso, atribuído à falta de iniciativa, mérito ou capacidade de empreender.

3 — Seu trabalho acadêmico já abordou os efeitos do neoliberalismo sobre o sujeito contemporâneo. Quais relações o senhor identifica entre precarização do trabalho, insegurança financeira, exigência de produtividade e modos atuais de sofrimento? Poderia desenvolver exemplos concretos?

Sua pergunta é fundamental para compreendermos o quanto o diagnóstico de Karl Marx, grande teórico, não do comunismo, como nos adverte o professor José Paulo Netto, da UFRJ, mas do capitalismo, permanece coerente.

O capitalismo é essencialmente parasitário. Durante a Revolução Industrial, por exemplo, para que o progresso econômico ocorresse, era necessário que trabalhadores se extenuassem, trabalhassem sob condições insalubres e morassem em lugares sem qualquer tipo de saneamento.

O que me parece interessante observar é que essa lógica de exploração não desapareceu, mas se transformou. Se antes ela incidia principalmente sobre o corpo do trabalhador, hoje também avança sobre sua subjetividade. O indivíduo é levado a ser permanentemente produtivo, competitivo e a administrar a própria vida como uma empresa.

Essa exigência é internalizada. O sujeito passa a vigiar a si mesmo, estabelecer metas cada vez maiores e interpretar suas dificuldades como fracassos pessoais. No campo psíquico, isso se manifesta em ansiedade, esgotamento, culpa e sensação permanente de insuficiência. Até o descanso pode ser vivido como perda de tempo.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar como o sujeito contemporâneo se torna, simultaneamente, explorador e explorado.

Por isso, não podemos compreender o sofrimento contemporâneo apenas como uma questão individual. É necessário considerar também as condições materiais e as relações de trabalho que participam da constituição da subjetividade.

4 — As redes sociais oferecem uma exposição contínua de conquistas, corpos, estilos de vida e experiências aparentemente felizes. Na sua avaliação, de que forma essa vitrine permanente afeta o desejo, a comparação com os outros e a percepção que fazemos de nós mesmos?

Você mencionou a palavra desejo e, como psicanalista, fica muito difícil não recorrer a Lacan, psicanalista francês responsável pela releitura e rearticulação do pensamento freudiano.

Encontraremos, nos seminários e escritos de Lacan, a ideia de que nós, seres humanos, somos marcados por uma incompletude estrutural. Somos seres faltantes, e nenhum objeto é capaz de nos preencher definitivamente.

A neurose, por sua vez, alimenta a ilusão de que, se conquistarmos aquele corpo delineado, tivermos o iPhone 17 ou alcançarmos milhares de seguidores, finalmente seremos completos. Mas, quando alcançamos esses objetos, percebemos que aquilo que imaginávamos não passava de uma fantasia. E assim seguimos, deslocando nosso desejo de um objeto para outro.

As redes sociais intensificam esse processo. Colocam-nos diante de uma vitrine permanente de vidas, corpos e conquistas que parecem representar exatamente aquilo que nos falta. Passamos, então, a desejar não necessariamente aquilo que queremos, mas aquilo que vemos o outro exibir. A comparação deixa de ser ocasional e passa a interferir na maneira como percebemos a nós mesmos.

Na clínica, podemos pensar que há uma dificuldade de simbolizar e assumir a própria falta. Parece que, hoje, não há espaço para a castração simbólica, como se vivêssemos uma espécie de psicotização em massa: não podemos perder, não podemos falhar, não podemos ser incompletos.

Elaborar essa condição exige atravessar a difícil via do luto. Afinal, amadurecer psiquicamente também significa reconhecer que não podemos ter tudo, ser tudo ou corresponder a todas as expectativas. Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja justamente este: compreender que não precisamos transformar nossa existência em uma vitrine para que ela tenha valor.

5 — Ao dialogar com autores como Freud, Nietzsche e Byung-Chul Han, quais aproximações e diferenças considera mais úteis para compreender a promessa contemporânea de felicidade? Há alguma ideia que o leitor comum costuma interpretar de maneira equivocada?

Freud, Nietzsche e Byung-Chul Han, embora partam de perspectivas distintas, oferecem contribuições importantes para questionarmos a promessa de felicidade em nosso tempo. Freud nos lembra que a felicidade nunca pode ser plena, pois a própria constituição psíquica e a vida em sociedade impõem limites à satisfação. Nietzsche, por sua vez, nos provoca a pensar a vida para além dos valores morais estabelecidos, inclusive daqueles que associam felicidade à ausência de sofrimento. Já Byung-Chul Han nos ajuda a compreender como, na sociedade do desempenho, a felicidade se transforma em uma exigência, quase uma obrigação individual.

Talvez o maior equívoco seja interpretar esses autores como defensores de uma vida infeliz. Eles não negam a possibilidade da felicidade; questionam, cada um à sua maneira, a ideia de que ela possa ser permanente, plena e livre de conflitos.

6 — Como distinguir, nessa discussão, o sofrimento que faz parte da experiência humana de situações que exigem atenção e cuidado em saúde mental? Quais são os limites de uma interpretação social ou filosófica quando se trata de experiências individuais?

Primeiro, gostaria de destacar que, como a própria pergunta sugere, existem diferentes formas de sofrimento. Uma delas é, sem dúvida, o adoecimento psíquico, que se manifesta nos transtornos mentais de que tanto ouvimos falar, mas também no adoecimento relacionado às condições de trabalho, como ocorre na síndrome de burnout.

Na clínica, porém, há lugar para toda forma de sofrimento: desde alguém que sofre com o latido dos cachorros dos vizinhos até alguém que já não encontra sentido na própria vida. Não cabe ao analista estabelecer uma hierarquia entre essas dores.

É importante, contudo, reconhecer que algumas situações exigem cuidados específicos. Quando alguém pensa em tirar a própria vida, por exemplo, o acompanhamento médico é indispensável. Isso não exclui a psicoterapia; ao contrário, são cuidados que podem e devem caminhar juntos.

Por fim, acredito que as interpretações sociais e filosóficas são fundamentais para compreendermos o sofrimento humano, mas não podem substituir a escuta da singularidade de cada sujeito. Afinal, compreender as condições sociais que produzem sofrimento não significa presumir que todos sofram da mesma maneira.

7 — O senhor também atua na educação e já escreveu sobre as relações entre pais, filhos e o mundo digital. O que a convivência com estudantes lhe revela sobre as expectativas de sucesso, a formação da identidade e as pressões experimentadas pelas novas gerações?

Temos uma geração cada vez mais apática, adoecida e, muitas vezes, sem perspectivas. Seria muito cômodo responsabilizarmos exclusivamente os pais ou os próprios jovens por esse quadro. Evidentemente, todos temos nossa parcela de responsabilidade. Contudo, precisamos olhar também para as transformações sociais e culturais que atravessam essa geração. No livro A Geração Ansiosa, Jonathan Haidt apresenta dados importantes sobre os impactos da hiperconectividade e das redes sociais na saúde mental dos jovens. Na convivência com os estudantes, percebo o quanto as expectativas de sucesso, a comparação permanente e a necessidade de reconhecimento atravessam a construção de suas identidades. Não estamos diante de uma geração simplesmente despreparada para a vida, mas de jovens que estão tentando construir suas referências em um mundo que lhes exige muito, oferece pouco amparo e parece não lhes permitir o direito de falhar. De nada adianta o jovem construir um projeto de vida para si se a própria sociedade não for capaz de lhe oferecer um projeto de futuro. Afinal, não podemos exigir que uma geração tenha esperança quando o mundo que estamos construindo parece não lhe oferecer razões para esperançar.

8 — O senhor afirma que escrever é um ato político e uma forma de partilhar ideias. O que significa, concretamente, levar a filosofia e a psicanálise para o debate público, fora dos ambientes acadêmicos? Que temas considera mais urgentes hoje?

Para mim, levar a filosofia e a psicanálise ao debate público é romper os limites acadêmicos e colocar o conhecimento a serviço da compreensão da realidade. Vivemos um período de avanço da extrema direita, de discursos autoritários e de ataques à democracia. Não podemos ignorar essas questões nem tratá-las como simples divergências de opinião.

Também considero urgente discutir os efeitos do capitalismo sobre a vida psíquica, a desigualdade social e as transformações das relações humanas pelas tecnologias digitais. Acredito que escrever é assumir uma posição diante do mundo. Afinal, não existe pensamento verdadeiramente crítico quando nos recusamos a questionar a realidade.

9 — Com sua chegada ao quadro de colunistas de O Progressista, que tipo de reflexão pretende oferecer aos leitores? Que perguntas deseja colocar em circulação e como pretende aproximar questões filosóficas da realidade cotidiana?

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset certa vez afirmou: “A clareza é a cortesia do filósofo”. Com base nisso, costumo dizer que o ethos da filosofia consiste na simplicidade, e não na sofisticação. Pretendo oferecer aos leitores reflexões que aproximem a filosofia dos problemas concretos da vida cotidiana, sem abrir mão da profundidade crítica.

Quero colocar em circulação perguntas sobre intolerância religiosa, fundamentalismo, avanço da extrema direita, desigualdade social, democracia e saúde mental. Interessa-me, sobretudo, compreender como essas questões atravessam nossas relações, nossas escolhas e a maneira como construímos a vida em sociedade. Minha intenção é provocar reflexão, questionar certezas naturalizadas e contribuir para um debate público mais crítico, plural e comprometido com a dignidade humana.

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