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A vida em Gaza
Foto: Yousef Alnono
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A Vida em Gaza

FAIXA DE GAZA (PALESTINA) — No inverno de 2024, Zainab Eid precisava caminhar pela lama até um barbeiro para conseguir acessar a internet.

Ela estava deslocada no sul da Faixa de Gaza. O barbeiro havia improvisado um roteador no alto de um poste e vendia cartões que davam direito a uma hora de conexão. O sinal era fraco, mas era o que havia.

Foi ali que Zainab voltou a procurar bolsas de estudo no exterior.

Sentada com um laptop que mal funcionava, baixava aulas quando conseguia conexão, reunia históricos escolares, cartas de recomendação e preparava candidaturas. À noite, estudava inglês para os exames exigidos pelas universidades.

A guerra já havia interrompido praticamente tudo ao redor. A família enfrentava deslocamentos, falta de energia e longos períodos sem internet. Ainda assim, Zainab continuou preenchendo formulários.

Neste ano, o esforço finalmente trouxe resultado. No último dia 31 de outubro de 2026 ela publicou que foi selecionada entre milhares de candidatos palestinos como uma das finalistas do Ireland-Palestine Scholarship Programme, programa financiado pelo governo da Irlanda que oferece bolsas integrais para estudantes palestinos cursarem mestrado no país.

Esse é um programa anunciado pelo governo irlandês que oferece cerca de 30 bolsas para estudantes palestinos da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza.

Ela conseguiu uma vaga para estudar Saúde Pública na University College Cork. A bolsa cobre mensalidades, passagem aérea, seguro, alojamento e ajuda de custo.

Entretanto, o que parecia um sonho, virou um pesadelo. Ela precisava sair de Gaza e aí um outro problema começou. O pedido de visto de Zainab foi recusado.

Em um relato publicado neste sábado, 31 de outubro, pelo projeto palestino We Are Not Numbers, ela contou que continua no território enquanto outros estudantes tentam superar a mesma barreira.

Em um relato publicado neste sábado, 31 de outubro, pelo projeto palestino We Are Not Numbers, Zainab contou que continua em Gaza mesmo depois de conseguir a bolsa.

A dificuldade para deixar o território, porém, não é só dela.

Outros estudantes palestinos selecionados para universidades irlandesas também tiveram pedidos de visto recusados. Nesta semana, um desses casos chegou à Justiça e terminou com uma decisão favorável à estudante.

Na terça-feira, 27 de outubro, o Tribunal Superior da Irlanda anulou a recusa do visto de Shaymaa Abudalu, de 20 anos, que também vive em Gaza e recebeu uma bolsa integral para estudar engenharia na University College Cork.

O governo irlandês havia recusado o pedido alegando, entre outros pontos, problemas na documentação apresentada. A Justiça concluiu que informações relevantes do processo não foram consideradas corretamente e determinou uma nova análise do pedido.

A decisão não resolve automaticamente a situação de Zainab, mas mostra que a barreira enfrentada por ela faz parte de um problema que atinge outros estudantes palestinos contemplados com bolsas no país.

Para quem observa a história de fora, uma bolsa internacional costuma representar o fim de uma seleção difícil. Para estudantes que vivem em Gaza, pode ser apenas o começo de outra espera.

Zainab já passou pela seleção. Já conseguiu a universidade. Já conseguiu o financiamento. O que falta agora é atravessar uma barreira que, para quem vive em Gaza em meio à destruição de uma guerra sem precedentes, vai muito além de comprar uma passagem e fazer as malas.

Enquanto o calendário acadêmico avança na Irlanda, ela continua no mesmo território onde, dois anos atrás, caminhava até um roteador improvisado para conseguir uma hora de internet e enviar suas primeiras candidaturas.

A vaga está esperando por ela. Mas Zainab ainda não conseguiu chegar.

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