Bacurau começa com um enterro. Teresa retorna ao pequeno povoado que dá nome ao filme para acompanhar a despedida de Dona Carmelita, morta aos 94 anos. A comunidade inteira está reunida. Há comida, música, lágrimas, lembranças e uma sensação de que aquela mulher carregava consigo parte da história do lugar. Não é uma abertura casual. Antes mesmo de apresentar o conflito principal, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles estabelecem aquilo que sustentará todo o filme: Bacurau existe porque seus moradores sabem que pertencem uns aos outros e porque preservam uma memória comum.
Lançado em 2019, o longa se passa em um futuro próximo e começa lentamente a deformar a realidade daquele povoado do sertão pernambucano. A água chega em caminhões porque uma barragem interrompeu o abastecimento. O prefeito Tony Jr. aparece em campanha distribuindo alimentos vencidos, despejando livros de maneira humilhante e oferecendo promessas a uma população que já conhece seus métodos. Depois surge algo ainda mais estranho: Bacurau desapareceu dos mapas digitais. Não há estrada marcada, localização ou referência. Para quem olha de fora, aquele lugar deixou de existir.
Esse desaparecimento contém boa parte daquilo que o filme pretende dizer. Antes de uma comunidade ser eliminada fisicamente, ela pode ser apagada simbolicamente. Pode desaparecer das prioridades do Estado, dos investimentos, das políticas públicas, dos mapas e do horizonte de quem ocupa os centros de poder. Bacurau conhece essa experiência. Seus habitantes sabem que estão distantes do Brasil que decide onde estarão os recursos, quem terá água e quais territórios merecerão atenção. O filme parte desse abandono, mas se recusa a transformar os moradores em pessoas indefesas esperando que alguém venha salvá-las.
Quando acontecimentos violentos começam a cercar o povoado, a dimensão política da história se torna mais evidente. Um caminhão-pipa aparece perfurado por balas. Uma família é assassinada. A comunicação falha. Um objeto semelhante a um disco voador observa a região, embora logo se revele uma peça de tecnologia muito menos fantástica do que parecia. Pouco a pouco, os moradores percebem que não estão apenas isolados. Estão sendo caçados.
Os responsáveis são estrangeiros que chegaram à região para participar de uma espécie de safári humano. Armados e organizados, eles tratam os habitantes de Bacurau como alvos, acumulando mortes como se fossem pontos de um jogo. O desprezo é parte essencial dessa dinâmica. Para eles, aquelas vidas parecem valer menos. O povoado pobre do interior brasileiro é percebido como território disponível para uma violência que não produzirá consequências. É possível matar ali porque, antes de apertar o gatilho, alguém já decidiu que aquelas pessoas eram invisíveis.
É justamente aí que os invasores cometem seu maior erro. Eles enxergam pobreza e isolamento, mas não conseguem enxergar organização. Imaginam estar atacando indivíduos espalhados por uma pequena cidade quando, na verdade, enfrentam uma comunidade que conhece profundamente seu território, sua história e seus próprios mecanismos de sobrevivência. Bacurau constrói sua política nessa oposição. De um lado estão aqueles que possuem dinheiro, armas, tecnologia e a convicção de que podem determinar quem merece continuar vivo. Do outro está uma população cuja principal força não vem de possuir os mesmos recursos, mas de reconhecer a própria existência como coletiva.
Nenhum lugar representa melhor essa ideia do que o museu de Bacurau. Logo no início, um visitante pergunta sobre ele e recebe a recomendação de conhecê-lo. Mais tarde, o espaço se torna fundamental para compreender que aquela comunidade não nasceu ontem. Fotografias, documentos e armas registram conflitos anteriores e lembram que a resistência possui história. Quando a ameaça chega novamente, os moradores não começam do zero: recorrem a uma memória transmitida entre gerações.
Essa dimensão transforma o museu em algo muito diferente de um depósito de objetos antigos. Em Bacurau, memória também é tecnologia de sobrevivência. Saber o que aconteceu antes significa compreender o que pode acontecer novamente. Um povo que conhece sua história não recebe a violência como fenômeno inexplicável. Consegue reconhecer padrões, identificar inimigos e recordar como outros reagiram antes dele. Por isso, quando os invasores finalmente entram na cidade acreditando ter encontrado um território vulnerável, descobrem que Bacurau já estava preparado para recebê-los.
A política institucional também é tratada sem delicadeza. Tony Jr. talvez seja uma das representações mais reconhecíveis do poder local brasileiro recente justamente porque não precisa aparecer como grande vilão. Ele surge como administrador interessado em votos, capaz de distribuir migalhas enquanto trata a população com desprezo. Sua relação com o povoado é clientelista: ele espera gratidão pelaquilo que deveria ser direito. Quando os moradores se escondem de sua carreata e ignoram seus discursos, o filme deixa evidente que a comunidade já compreendeu essa dinâmica.
Mais tarde, a ligação entre poder local e ameaça externa torna a situação ainda mais significativa. A violência não chega a Bacurau porque estrangeiros simplesmente encontraram aquele lugar por acaso. Para que uma comunidade seja entregue aos que vêm explorá-la, alguém de dentro das estruturas de poder precisa acreditar que ela pode ser negociada. O colonialismo que atravessa o filme, portanto, não se resume à presença de estrangeiros. Ele depende também de intermediários locais dispostos a transformar o próprio território em mercadoria.
Essa relação ajuda a entender por que Bacurau ultrapassou rapidamente a condição de filme sobre um momento político específico. Quando chegou aos cinemas, em 2019, era inevitável relacioná-lo ao Brasil daquele período, mas sua narrativa alcança algo mais amplo. Trata de uma lógica antiga, na qual determinados territórios e populações são considerados atrasados, substituíveis ou descartáveis por aqueles que concentram poder econômico e político. O sertão aparece historicamente como lugar sobre o qual o centro fala, decide e produz estereótipos. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fazem o movimento contrário: colocam o centro sob o olhar da periferia.
Por isso os estrangeiros parecem tão perdidos mesmo quando possuem superioridade tecnológica. Eles conhecem coordenadas, equipamentos e armas, mas não compreendem Bacurau. A cidade que parecia primitiva para eles possui códigos sociais que não conseguem ler. Sua diversidade também escapa às categorias simplificadoras de quem chega de fora. Lunga, vivido por Silvero Pereira, é talvez o exemplo mais marcante. Sua presença rompe expectativas tradicionais de gênero ao mesmo tempo em que ocupa posição central na defesa da comunidade. Isso não precisa ser explicado pelos personagens. Bacurau não exige que seus moradores correspondam a uma moral conservadora para que sejam reconhecidos como parte do coletivo.
Quando a reação finalmente acontece, o filme abandona qualquer possibilidade de conciliação fácil. A comunidade responde à violência com violência. Não porque seus moradores tenham sido apresentados como naturalmente brutais, mas porque sabem que estão diante de pessoas que vieram exterminá-los. O confronto é deliberadamente incômodo e exagerado em alguns momentos, recuperando elementos do western e do cinema de gênero. Cabeças são cortadas, corpos são expostos e o sangue ocupa a tela. Há algo de cangaço, de faroeste e de vingança popular naquele acerto de contas.
Mas o que faz Bacurau funcionar politicamente não é a satisfação de ver os invasores derrotados. É perceber por que eles fracassam. Eles possuem praticamente todas as vantagens materiais e ainda assim são incapazes de compreender o que enfrentam. Acreditam que sua superioridade individual pode derrotar uma organização coletiva. Tratam habitantes como alvos isolados e descobrem tarde demais que cada pessoa morta pertence a uma rede de relações que reage em conjunto.
O filme venceu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes em 2019 e se tornou uma das obras brasileiras de maior repercussão internacional daquele período. O reconhecimento ajudou a transformar Bacurau em referência do cinema político contemporâneo, mas sua força não está em oferecer uma cartilha ideológica ou transformar personagens em porta-vozes de um programa. Sua política está na própria organização da narrativa. Enquanto os invasores enxergam indivíduos, o filme enxerga comunidade; enquanto o poder tenta produzir esquecimento, o filme insiste na memória; enquanto o centro acredita que pode decidir o destino da periferia, a periferia reivindica o direito de decidir por si mesma.
É por isso que a imagem mais importante de Bacurau talvez não seja uma arma ou um cadáver, mas aquele pequeno museu. Os invasores entram na cidade acreditando que encontraram um lugar sem importância. O que encontram é uma população que sabe exatamente de onde veio. A diferença parece pequena, até que começa o confronto.
Bacurau havia desaparecido do mapa. Seus moradores, não.
E talvez essa seja a ideia mais radical do filme: quem controla o mapa pode decidir que um povo não existe, mas isso não significa que esse povo tenha aceitado desaparecer.
Onde assistir: Bacurau está disponível no Brasil na Netflix, Globoplay e Telecine Amazon Channel. Também possui opções de aluguel e compra digital.


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