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Memórias da Resistência
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Na tarde de 26 de junho de 1968, uma multidão tomou o centro do Rio de Janeiro. A concentração começou na Cinelândia e avançou pela Avenida Rio Branco. Quando a marcha ganhou as ruas, cerca de 100 mil pessoas já participavam do ato que ficaria conhecido como Passeata dos Cem Mil, uma das maiores manifestações públicas contra a ditadura militar brasileira nos primeiros anos do regime.

O protesto havia sido convocado pelo movimento estudantil, então um dos principais núcleos organizados de oposição à ditadura. Mas naquele dia a mobilização ultrapassou as universidades. Trabalhadores, intelectuais, artistas, jornalistas, profissionais liberais e religiosos se juntaram aos estudantes. Entre as principais reivindicações estavam o restabelecimento das liberdades democráticas, o fim da censura e mais recursos para a educação.

A marcha ocorreu em um ambiente de crescente violência política.

Três meses antes, em 28 de março, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, havia sido morto pela Polícia Militar durante uma manifestação no restaurante estudantil Calabouço, no Rio. Sua morte provocou protestos em várias cidades e aprofundou o confronto entre estudantes e o regime.

Poucos dias antes da Passeata dos Cem Mil, em 21 de junho, o centro do Rio havia sido palco da chamada Sexta-feira Sangrenta. A repressão policial contra manifestações estudantis deixou mortos, feridos e dezenas de presos.

A violência teve efeito contrário ao pretendido: ampliou a solidariedade aos estudantes.

Na manhã de 26 de junho, milhares de pessoas começaram a ocupar a Cinelândia. Por volta das 14h, quando a passeata teve início, já eram mais de 50 mil. Durante o trajeto, novos manifestantes aderiram à marcha até que aproximadamente 100 mil pessoas ocupassem as ruas carregando faixas e palavras de ordem contra o regime.

A mobilização mostrou que a oposição à ditadura já não estava restrita aos grupos políticos organizados.

Mas a abertura durou pouco.

Em julho, o governo proibiu manifestações públicas. Em outubro, centenas de estudantes foram presos durante o congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna. Em 13 de dezembro daquele ano, a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) aprofundaria a repressão, permitindo o fechamento do Congresso, ampliando a censura e suspendendo garantias políticas.

A Passeata dos Cem Mil não derrubou a ditadura. Poucos meses depois, o regime entraria em sua fase mais repressiva.

Mas naquele 26 de junho de 1968, uma multidão demonstrou algo que o autoritarismo tentava negar: mesmo sob perseguição, censura e violência de Estado, ainda havia gente disposta a ocupar as ruas e dizer publicamente que o país não pertencia aos generais.

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