BAURU (SP) — O secretário municipal de Administração, Cristiano Ricardo Zamboni, afirmou à Comissão Processante do Lixo que ele e a prefeita Suéllen Rosim (PSD) não tinham conhecimento técnico suficiente para avaliar as impugnações apresentadas contra o edital da concessão dos resíduos sólidos de Bauru e, por isso, seguiam os pareceres elaborados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
O depoimento foi prestado na quarta-feira (28), durante a fase de oitivas da CP que apura possíveis infrações político-administrativas atribuídas à prefeita na condução da concessão. Zamboni presidiu a Comissão de Contratação da Concessão do Lixo a partir de junho de 2026.
Segundo ele, a Fipe havia sido contratada para prestar apoio técnico ao processo licitatório, inclusive na elaboração de respostas às impugnações e recursos. O contato da comissão com a fundação era feito principalmente por meio do consultor Mário Luiz Silvério, investigado posteriormente na Operação Cavalo de Troia.
Ao ser questionado pelo vereador Eduardo Borgo (Novo) sobre a capacidade técnica da administração para avaliar os pareceres, Zamboni respondeu que a falta de conhecimento especializado sobre gestão de resíduos foi justamente uma das razões para a contratação da Fipe.
Ele afirmou ainda que tanto ele quanto a prefeita seguiam o entendimento apresentado pela consultoria. “Eu concordei integralmente com o parecer da Fipe”, declarou ao ser perguntado se havia percebido irregularidades no edital.
A declaração contrasta com o depoimento prestado logo depois por Ricardo Crepaldi, especialista em engenharia ambiental e autor da representação que levou o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) a suspender o edital.
Crepaldi afirmou à comissão que os problemas presentes na licitação eram visíveis para qualquer profissional com conhecimento mínimo das áreas técnica ou de contratos públicos.
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Entre os pontos apontados por ele estavam a concentração de diferentes atividades em uma única concessão, a exigência de experiência prévia em todos os segmentos e a obrigação de apresentar, já na proposta técnica, licença de operação do aterro que receberia os resíduos. Para Crepaldi, essa última condição restringia a concorrência, já que o único aterro da região citado por ele pertencia à Estre, em Piratininga.
“É uma decisão estratégica, ela deveria estar olhando com lupa esse processo. É o nome dela que assina o documento”, afirmou Crepaldi ao ser questionado sobre a responsabilidade da chefe do Executivo.
O depoimento de Zamboni também revelou uma mudança de posição da própria Fipe ao longo do processo.
Quando Crepaldi apresentou uma impugnação administrativa à Prefeitura, em agosto, o parecer elaborado pela fundação rejeitou os questionamentos. A resposta foi encaminhada à prefeita, assinada por Suéllen e por Zamboni e posteriormente enviada ao autor da impugnação.
Dias depois, novas representações levadas ao TCE-SP por Crepaldi e pelo vereador Márcio Teixeira (PL) resultaram em outra suspensão do edital. Desta vez, quando o Tribunal apresentou seus próprios apontamentos técnicos, a Fipe reviu a posição e reconheceu problemas identificados pelo órgão de controle.
Zamboni afirmou à CP que só percebeu a gravidade das questões depois da manifestação do Tribunal de Contas, porque os pareceres eram técnicos e ele não tinha formação específica para avaliá-los.
Crepaldi, por outro lado, sustentou que os problemas eram evidentes desde antes da intervenção do TCE e criticou a qualidade da primeira resposta da Prefeitura aos seus questionamentos.
“Não foi uma resposta robusta, cada item foi refutado de maneira genérica”, disse.
Outro depoimento prestado no mesmo dia adicionou uma nova camada ao debate sobre o papel da Fipe. Guilherme Rodrigues de Melo, ex-assessor de gabinete da então secretária de Meio Ambiente Cilene Bordezan, afirmou ter ouvido da própria ex-secretária que ela e sua equipe teriam elaborado as cláusulas do edital e que a Fipe teria sido contratada posteriormente para validar os estudos técnicos já preparados. Guilherme ressaltou, porém, que não participou dessas reuniões e não teve acesso às minutas ou documentos, relatando apenas o que diz ter ouvido de Cilene.
A CP investiga três possíveis infrações político-administrativas atribuídas a Suéllen Rosim: problemas no fornecimento de informações ao Legislativo, falhas nos mecanismos de governança e controle do processo e eventual omissão ou negligência na defesa dos interesses do município.
A prefeita já declarou em depoimento anterior que não foi alertada sobre irregularidades e que as etapas técnicas da concessão eram conduzidas pelas equipes responsáveis. A Comissão Processante segue na fase de instrução e ainda deverá ouvir novas testemunhas.










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