O congelamento de aposentadorias, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de transferências sociais poderia comprometer a economia de milhares de municípios brasileiros, atingindo inclusive trabalhadores e comerciantes que não recebem esses recursos. A conclusão é de um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), divulgado em outubro de 2026, que simulou os efeitos de diferentes regras de reajuste dos benefícios sobre a renda e a pobreza nas cidades do interior até 2029.
O levantamento revela uma realidade frequentemente ignorada nas discussões sobre cortes de gastos públicos: os benefícios sociais não representam apenas uma fonte de sustento para famílias vulneráveis, mas também movimentam o comércio, contribuem para a manutenção dos empregos e ajudam a sustentar as economias locais.
Segundo os pesquisadores, cerca de um terço das perdas projetadas em cenários de menor valorização dos benefícios ocorreria de maneira indireta. Isso significa que a diminuição do dinheiro disponível para consumo afetaria também pessoas que não dependem diretamente de aposentadorias, BPC ou programas de transferência de renda.
A pesquisa ganha relevância diante das discussões sobre o ajuste fiscal de aproximadamente R$ 250 bilhões associado à equipe econômica do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entre as medidas examinadas por integrantes do grupo estava a possibilidade de desvincular os reajustes de benefícios previdenciários dos ganhos reais do salário mínimo.
A investigação da USP examinou justamente os impactos de diferentes políticas de reajuste, comparando cenários de congelamento e regras semelhantes às observadas no governo de Jair Bolsonaro com a trajetória de valorização real registrada entre 2022 e 2025, durante a atual administração federal.
As simulações indicam que, até 2029, a renda agregada dos municípios fora das capitais e regiões metropolitanas poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo do cenário de manutenção da valorização dos benefícios.
O impacto seria particularmente expressivo nas localidades mais dependentes das transferências públicas. No interior do Ceará, por exemplo, aposentadorias e benefícios sociais representam aproximadamente 40% da renda agregada, contra 22% na capital e em sua região metropolitana.
Para famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo por pessoa, esses recursos podem corresponder a quase metade do orçamento doméstico. Como grande parte do dinheiro é destinada imediatamente à compra de alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais, os pagamentos ajudam a manter a circulação de renda nas cidades menores.
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A diferença entre os modelos de reajuste também aparece nas estimativas de pobreza. Segundo o Made-USP, caso os benefícios tivessem permanecido congelados entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas a mais estariam abaixo da linha da pobreza nos municípios analisados, das quais 2,4 milhões estariam na extrema pobreza.
Se fossem aplicadas regras semelhantes às observadas durante o governo de Jair Bolsonaro, o estudo estima 1,8 milhão de pessoas adicionais em situação de pobreza no mesmo período.
Os impactos econômicos projetados para 2029 também apresentam diferenças regionais. Nas cidades do interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, a perda de renda poderia atingir entre 17% e 18% em relação ao cenário de referência. Amazonas, Sergipe e Pernambuco também registrariam perdas próximas de 15%.
A dimensão desses resultados evidencia como a política de valorização dos benefícios alcança setores que ultrapassam os programas sociais. Quando aposentados e famílias de baixa renda conseguem manter seu poder de compra, parte dos recursos retorna à economia por meio de estabelecimentos comerciais, serviços e atividades produtivas.
O estudo demonstra, assim, que a discussão sobre reajustes previdenciários e programas de transferência de renda envolve não apenas o orçamento federal, mas também a capacidade de consumo e a atividade econômica de milhares de municípios brasileiros.
A valorização desses pagamentos integra uma política de proteção social cujos efeitos se estendem ao conjunto da economia local, especialmente nas regiões onde aposentadorias e benefícios públicos representam parcela expressiva da renda disponível.










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