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Nas veias da América Latina

A guinada à extrema-direita que redesenhou o mapa político da América Latina não começou nas urnas e tampouco pode ser compreendida apenas pelas crises econômicas, pelo desgaste dos governos progressistas ou pelo descontentamento dos eleitores. Antes da chegada de Javier Milei à Presidência argentina, da eleição de José Antonio Kast no Chile e do fortalecimento de forças conservadoras em outros países da região, organizações internacionais já investiam recursos na formação de lideranças, na produção de propostas econômicas e na articulação de movimentos políticos.

Documentos financeiros, declarações institucionais e registros governamentais revelam uma estrutura que atravessa fronteiras, conecta empresários e dirigentes e ganha relevância num momento em que os Estados Unidos procuram recuperar influência sobre o continente, especialmente sobre seus recursos minerais estratégicos. Em 3 de setembro de 2026, essa articulação ganhou uma expressão pública em Santiago do Chile. Durante o quinto encontro regional do Foro Madrid, organizado pela espanhola Fundación Disenso, Milei defendeu uma organização internacional permanente da direita. 

“Se eles tiveram a Internacional Socialista, a direita também precisa se organizar”, afirmou o presidente argentino, conforme o registro publicado pela própria Presidência da Argentina. 

O evento reuniu o presidente chileno José Antonio Kast, dirigentes do Vox espanhol, representantes de organizações latino-americanas e Sarah Rogers, subsecretária de Estado norte-americana para a Diplomacia Pública. A reunião expôs uma aliança que já não se limita à oposição eleitoral: parte de seus integrantes agora governa países da região.

A organização responsável pelo encontro possui uma fonte de financiamento identificável. Segundo as contas do Vox examinadas pela agência espanhola Servimedia, o partido transferiu € 2 milhões à Fundación Disenso em 2025 e mais € 1 milhão nos primeiros seis meses de 2026. Desde a criação da entidade, em 2020, os repasses acumulados aproximam-se de € 13 milhões. Presidida pelo líder do Vox, Santiago Abascal, a fundação funciona como um instrumento de produção ideológica, comunicação e articulação internacional, com capacidade financeira que ultrapassa a realização de encontros ocasionais entre políticos conservadores.

O plano de atuação da Disenso para 2026 permite observar como essa estrutura pretende empregar seus recursos. O documento prevê € 566.734,88 em despesas para a área internacional, com 13 trabalhadores alocados à atividade e sete viagens programadas. A fundação também mantém um veículo de comunicação, La Gaceta de la Iberosfera, organiza iniciativas de formação política e oferece bolsas destinadas a programas de liderança. Os valores representam despesas previstas, não necessariamente executadas, mas demonstram que a articulação internacional para criar lideranças de extrema direita na região dispõe de planejamento, pessoal e orçamento próprios. Trata-se de uma estrutura organizada para atuar de maneira contínua, inclusive nos períodos em que não há eleições.

A aproximação com Milei começou antes de sua chegada ao poder. Em outubro de 2023, durante a eleição presidencial argentina, a própria Fundación Disenso anunciou o envio de uma delegação a Buenos Aires para apoiar a chapa formada por Milei e Victoria Villarruel. O grupo incluía Hermann Tertsch, eurodeputado do Vox; Jorge Martín Frías, diretor da fundação; Eduardo Cader, dirigente do Foro Madrid; e Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Jair Bolsonaro. Também participaram da articulação a senadora colombiana María Fernanda Cabal e a congressista peruana Patricia Chirinos. A presença desses nomes demonstra que a campanha argentina já era tratada como parte de um projeto político que ultrapassava as fronteiras nacionais.

A atuação da fundação também alcançou mecanismos institucionais dos processos eleitorais. Em 2026, o Jurado Nacional de Elecciones do Peru, por meio da Resolução 0579-2026-JNE, credenciou a Disenso para atividades de observação eleitoral internacional. Vale destacar que a rede espanhola representa apenas uma das frentes dessa circulação internacional de recursos e ideias. Nos Estados Unidos, a Atlas Network opera há décadas no financiamento e na formação de organizações defensoras do liberalismo econômico e da redução da intervenção estatal.

Seus registros fiscais referentes a 2025 apontam receitas de aproximadamente US$ 28,8 milhões. Diferentemente do Foro Madrid, a Atlas não se apresenta como uma aliança partidária da direita radical. Sua influência ocorre principalmente por meio de centros de estudos, programas de formação e projetos de políticas públicas — uma dimensão essencial para compreender como determinadas propostas passam a ocupar espaço nos governos que também são de direita e centro-direita.

A Argentina oferece um exemplo documentado desse mecanismo. Em publicação de março de 2025, a própria Atlas informou ter destinado aproximadamente US$ 650 mil à Fundación Libertad y Progreso desde 2012. Cinco meses depois, a organização reconheceu, em outro texto institucional, que a fundação argentina havia trabalhado durante anos na elaboração e na difusão de propostas posteriormente incorporadas às reformas de Milei. Desregulamentação, privatizações e redução das estruturas estatais aparecem entre as prioridades defendidas por essas organizações. O dado mais importante não é apenas o valor transferido, mas a duração do investimento: parte da agenda econômica já estava sendo desenvolvida muito antes de sua implementação pelo governo argentino.

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No Chile, os registros eleitorais mostram outra dimensão da influência empresarial sobre a política. Segundo levantamento do jornal El Mostrador, baseado em informações do Serviço Eleitoral chileno, o empresário Nicolás Ibáñez destinou 19 milhões de pesos chilenos à campanha presidencial de Kast em 2025. Ex-controlador da rede de supermercados Líder, Ibáñez também esteve ligado à Fundación para el Progreso, organização dedicada à promoção do liberalismo econômico. Em 2020, a Atlas Network o apresentou como presidente do conselho dessa fundação, durante um encontro regional de seus parceiros. São registros de participação empresarial no financiamento eleitoral e na sustentação de organizações ideológicas, embora não estabeleçam que o dinheiro da campanha tenha circulado pela Atlas. Entretanto, o cruzamento desses documentos revela diferentes mecanismos de atuação internacional.

Infográfico de O Progressista apresenta três fluxos de financiamento político internacional: € 3 milhões do Vox à Fundación Disenso, US$ 650 mil da Atlas Network à Libertad y Progreso, na Argentina, e 19 milhões de pesos chilenos de Nicolás Ibáñez à campanha presidencial de José Antonio Kast, no Chile.
Infográfico de O Progressista apresenta três fluxos de financiamento político internacional: € 3 milhões do Vox à Fundación Disenso, US$ 650 mil da Atlas Network à Libertad y Progreso, na Argentina, e 19 milhões de pesos chilenos de Nicolás Ibáñez à campanha presidencial de José Antonio Kast, no Chile.

Enquanto o Vox financia uma fundação que participa diretamente de articulações políticas transnacionais, a Atlas apoia organizações que procuram transformar agendas econômicas em políticas de Estado. Empresários locais, por sua vez, contribuem com campanhas e instituições vinculadas a esse campo ideológico. Essas estruturas não formam, pelos documentos disponíveis, um caixa único. A conexão mais relevante está na capacidade de produzir ideias, formar quadros, organizar alianças e disputar os rumos econômicos dos países antes e depois das eleições, fortalecendo as candidaturas da extrema-direita em um momento em que essa reorganização passa a ter interesses explícitos de Washington na região.

A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicada em dezembro de 2025, anuncia uma retomada da Doutrina Monroe sob um novo princípio associado ao governo Donald Trump. O documento estabelece que a política norte-americana deverá recompensar e incentivar governos, partidos e movimentos regionais alinhados aos seus princípios e à sua estratégia. Também determina que agências federais identifiquem recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental, com participação da comunidade de inteligência, e orienta a diplomacia a ampliar oportunidades para empresas dos Estados Unidos.

O interesse econômico declarado vai além da afinidade ideológica com determinados presidentes. A estratégia norte-americana prevê o fortalecimento das cadeias de suprimentos, a redução da influência de concorrentes externos e a identificação de oportunidades de investimento em infraestrutura, energia e minerais críticos. Num cenário de competição tecnológica com a China, o cobre, o lítio e as terras raras adquiriram importância para a produção de equipamentos eletrônicos, baterias, redes elétricas e tecnologias militares. Não se trata de recursos equivalentes: o cobre é fundamental para a eletrificação, o lítio possui papel central no armazenamento de energia e as terras raras têm aplicações específicas em componentes industriais e tecnológicos. A disputa envolve também o processamento desses materiais e o controle das cadeias industriais.

Os primeiros desdobramentos dessa orientação apareceram em acordos bilaterais. Em 4 de fevereiro de 2026, os governos de Milei e Trump assinaram um instrumento de cooperação para assegurar o abastecimento na mineração e no processamento de minerais críticos, registrado oficialmente pela Chancelaria argentina. No Chile, um dia depois da posse de Kast, os dois países firmaram uma declaração conjunta sobre minerais críticos e terras raras. Em abril, a cooperação avançou com a assinatura de um memorando voltado às cadeias de exploração, mineração e processamento.

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A relevância do território chileno ajuda a explicar o interesse internacional. Conforme o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Chile respondeu por aproximadamente 24% da produção mundial de cobre extraído em 2024 e por cerca de 22% da produção de lítio, excluídos os Estados Unidos da estimativa deste último mineral. A proximidade política entre os governos de Kast e Trump ocorre, portanto, em torno de uma economia que ocupa posição estratégica na reorganização das cadeias industriais mundiais. A rapidez dessa aproximação coloca uma questão no centro da investigação: até que ponto os interesses econômicos envolvidos na disputa pelos minerais estratégicos também participaram das articulações políticas e financeiras que antecederam a chegada de Kast ao poder? 

Inclusive, a articulação regional ganhou outra dimensão em 22 de setembro de 2026, quando quinze governos, incluindo Estados Unidos, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Honduras e Bolívia, divulgaram uma declaração conjunta no âmbito do Escudo das Américas. O texto associa cooperação econômica, segurança e coordenação multilateral, incluindo expressamente a proteção das cadeias de suprimentos de minerais críticos. A iniciativa reúne governos de posicionados à direita e extrema-direita na região que, de alguma forma, foram formados pelos institutos citados no começo dessa reportagem e financiados por organizações cujo interesse é promover uma guinada à extrema direita na região.

Nesse contexto, os documentos examinados mostram que a nova configuração política latino-americana não resulta apenas da trajetória isolada de seus dirigentes. Há investimentos prolongados na construção de agendas econômicas, transferências milionárias para estruturas de articulação internacional, participação de organizações estrangeiras em processos políticos e acordos governamentais que incidem sobre setores estratégicos.

A questão que permanece aberta é até que ponto os interesses dos financiadores dessas redes se encontram com os interesses econômicos beneficiados pelas decisões dos governos. É nessa relação entre capital, poder político e soberania sobre os recursos naturais que se desenha uma das disputas centrais do continente.

Nos próximos capítulos da série, O Progressista seguirá os rastros financeiros e institucionais em cada país, começando pela Argentina, para investigar quem sustentou as organizações envolvidas nessa transformação política, quais propostas chegaram aos governos e como os interesses internacionais passaram a participar das decisões sobre o futuro da região.


Como apuramos

Esta reportagem foi produzida a partir do cruzamento do Plano de Atuação de 2026 da Fundación Disenso, das transferências financeiras do Vox divulgadas pela agência Servimedia e da resolução do órgão eleitoral peruano sobre a atuação da fundação. Também foram examinados os registros fiscais da Atlas Network, sua declaração sobre o financiamento de organizações latino-americanas e o levantamento de doações eleitorais publicado pelo El Mostrador. A dimensão geopolítica foi investigada com base na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos e nos documentos oficiais sobre cooperação mineral com a Argentina e o Chile. Foram avaliados repasses financeiros, vínculos institucionais, despesas previstas e interesses geopolíticos documentados.

José Carlos Sanchez Jr.

José Carlos Sanchez Jr.

Jornalista especializado em política, democracia, desigualdades e relações internacionais, com atuação em reportagens baseadas em dados, documentos públicos e análise de impacto social.

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